Aprendendo com os animais: um projeto de intervenção para a alfabetização no pós-pandemia
Beatriz Nayara Ferreira da Silva
Gilmara Ribeiro Wiber
Rosmari Favaretto Walker
RESUMO
O presente artigo apresenta um projeto de intervenção pedagógica voltado à alfabetização de estudantes do 3º ao 5º ano do Ensino Fundamental que, devido aos impactos da pandemia da COVID-19, apresentam dificuldades significativas de leitura e escrita. A proposta utiliza os animais como eixo temático motivador, de modo a favorecer o interesse, o engajamento e a construção de habilidades linguísticas essenciais. Organizado em encontros semanais com atividades lúdicas, pesquisas, leitura, escrita e produção textual, o projeto busca fortalecer a autonomia do educando e melhorar o rendimento escolar por meio de práticas interdisciplinares que valorizam o uso social da língua. Fundamenta-se em autores como Paulo Freire, Vygotsky, Emilia Ferreiro e Magda Soares, que defendem uma alfabetização significativa, contextualizada e pautada na interação. O estudo discute a justificativa, metodologia, objetivos e relevância pedagógica da proposta.
Palavras-chave: Alfabetização. Animai. Intervenção pedagógica. Letramento Aprendizagem.
- Introdução
A alfabetização é um dos eixos centrais da educação básica, pois constitui a base que possibilita ao educando participar de práticas sociais de leitura e escrita em contextos reais. Entretanto, os impactos da pandemia da COVID-19 intensificaram as desigualdades históricas, ampliando o número de estudantes que avançaram escolarmente sem terem consolidado habilidades essenciais de alfabetização. Diversos estudos (UNICEF, 2021; MEC, 2022) demonstram que o ensino remoto emergencial, embora necessário, produziu lacunas significativas no desenvolvimento das competências de leitura, escrita e interpretação.
Segundo Soares (2020, p. 67), "a alfabetização não se reduz ao domínio do código escrito, mas envolve um processo complexo que articula oralidade, leitura, escrita e práticas sociais". Nesse sentido, ao observar as dificuldades apresentadas por alunos do 3º ao 5º ano após o retorno presencial, tornou-se evidente a necessidade de uma intervenção diferenciada que contemplasse motivações, interesses e necessidades reais dos educandos.
Assim, surgiu a proposta do projeto “Aprendendo com os Animais”, fundamentado na utilização de animais como personagens mediadores da aprendizagem. A cada semana, uma letra é trabalhada e, a partir dela, os alunos escolhem democraticamente um animal correspondente para estudos, leituras, pesquisas e atividades linguísticas e matemáticas. Essa metodologia lúdica possibilita maior engajamento, uma vez que, conforme Vygotsky (1998), o aprendizado se dá por meio da interação social e da construção coletiva de significados.
Além disso, trabalhar com temas próximos da realidade infantil amplia o interesse dos estudantes, promovendo a autonomia e fortalecendo a autoestima, fatores essenciais para que aprendam a ler e escrever com sentido. Para Freire (1996), “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”, e, portanto, partir daquilo que a criança conhece e deseja investigar constitui caminho potente para a alfabetização.
O presente artigo apresenta e discute os fundamentos teóricos, metodológicos e pedagógicos do projeto, evidenciando sua relevância para amenizar as dificuldades de aprendizagem e fortalecer práticas significativas de letramento no contexto pós-pandêmico.
- Justificativa
A necessidade do projeto foi identificada a partir de observações sistemáticas realizadas com estudantes do 3º ao 5º ano no início do ano letivo pós-pandemia. Diagnósticos de leitura e escrita evidenciaram que grande parte dos alunos não havia consolidado habilidades básicas de alfabetização, apresentando hipóteses de escrita iniciais, dificuldades na segmentação de palavras, baixa fluência leitora e problemas de compreensão textual.
Em consonância com essas observações, Ferreiro e Teberosky (2011) explicam que o processo de alfabetização se desenvolve a partir da construção ativa de hipóteses pelas crianças, sendo indispensáveis experiências significativas de leitura e escrita. A ausência de contato presencial com práticas pedagógicas estruturadas dificultou esse processo, prejudicando diretamente o desenvolvimento cognitivo e linguístico.
Nesse sentido, emerge a urgência de práticas pedagógicas que considerem as especificidades desse cenário. O projeto “Aprendendo com os Animais” propõe uma estratégia que une ludicidade, participação ativa dos alunos e organização metodológica. O uso de animais como temática central promove identificação e curiosidade, funcionando como elemento motivador para o estudo das letras, da leitura e da escrita.
Segundo Kishimoto (2018), atividades lúdicas aumentam o engajamento e contribuem para a aprendizagem significativa, pois aproximam o conteúdo escolar do universo infantil. Assim, ao aliar jogos, pesquisas, imagens, histórias e votações democráticas para escolha dos animais, o projeto atende às necessidades específicas dos estudantes em processo de alfabetização tardia.
Além disso, a proposta considera o caráter sociointerativo defendido por Vygotsky (1998), pois envolve grupos, debates, participação ativa e construção coletiva de conhecimento. As atividades propostas favorecem a atenção, a organização, a memória, a linguagem e a autonomia, fundamentais para avançar nos níveis de aprendizagem.
Portanto, a justificativa do projeto apoia-se tanto nas demandas concretas identificadas quanto nos referenciais teóricos que fundamentam práticas alfabetizadoras eficazes.
- Fundamentação Teórica
3.1. Alfabetização e Letramento no contexto pós-pandemia
A alfabetização sofreu impactos significativos durante a pandemia, pois muitas crianças não tiveram acesso adequado às tecnologias ou ao acompanhamento necessário. Segundo o relatório do UNICEF (2021), o número de crianças de 7 a 10 anos que não sabiam ler e escrever aumentou mais de 70% no Brasil durante o período de suspensão das aulas presenciais.
Conforme Soares (1998), alfabetizar e letrar são processos indissociáveis. Alfabetizar significa dominar o sistema de escrita alfabética; letrar, por sua vez, refere-se à inserção do indivíduo nas práticas sociais que usam a escrita. Ambas as dimensões foram afetadas no período pandêmico.
3.2. A Teoria Histórico-cultural e a interação
Vygotsky (1998) defende que o desenvolvimento ocorre por meio da interação social. A linguagem é mediadora do pensamento, e o aprendizado se constrói em parceria com o outro. Essa perspectiva sustenta a escolha de atividades coletivas, democráticas e construídas a partir da participação dos alunos no projeto.
3.3. A alfabetização como prática social
Paulo Freire (1996) enfatiza que a alfabetização deve partir do contexto do educando e adquirir sentido na vida real. Quando a criança reconhece significado no que aprende, sua motivação aumenta. O tema “animais” dialoga com o cotidiano e com o imaginário infantil, sendo estratégia eficaz para engajar os estudantes.
3.4. Ludicidade como ferramenta pedagógica
Kishimoto (2018) afirma que o brincar é elemento estruturante da aprendizagem. Jogos, histórias, imagens e atividades lúdicas não constituem apenas entretenimento; são instrumentos pedagógicos fundamentais para o desenvolvimento cognitivo.
Assim, o projeto se sustenta em teorias consolidadas que defendem uma alfabetização ativa, significativa, lúdica e contextualizada.
- Objetivos
4.1. Objetivo Geral
Desenvolver um conjunto de práticas pedagógicas que favoreçam a alfabetização e o letramento de alunos do 3º ao 5º ano, utilizando animais como temática central para promover engajamento, curiosidade e aprendizagem significativa.
4.2. Objetivos Específicos
Promover mecanismos capazes de sanar dificuldades específicas de leitura e escrita.
Estimular a curiosidade e o interesse pela pesquisa.
Despertar o desejo de ler e escrever autonomamente.
Favorecer a socialização entre família, escola e aluno.
Desenvolver habilidades de interpretação, oralidade e produção textual.
Fortalecer a autoestima dos alunos por meio de atividades lúdicas.
Acompanhar continuamente o desenvolvimento do educando.
Apoiar professores com estratégias diferenciadas e colaborativas.
- Metodologia
5.1. Abordagem
A metodologia tem abordagem qualitativa e interventiva, voltada à construção de conhecimentos por meio de práticas lúdicas, temáticas e contextualizadas.
5.2. Organização das atividades
A cada semana, uma letra do alfabeto será trabalhada. Com ela, os alunos listarão animais correspondentes e votarão democraticamente para definir o “animal da semana”. Todas as atividades de leitura, escrita, pesquisa, interpretação, artes e pequenos textos serão direcionadas ao animal escolhido.
5.3. Estrutura semanal
As intervenções ocorrerão em duas manhãs semanais, com 4 horas cada:
2 horas de Língua Portuguesa
2 horas de Matemática
Quatro professores atuarão em revezamento, garantindo atendimento adequado e personalizado.
5.4. Estratégias didáticas
Leitura de histórias sobre animais.
Pesquisas na sala de informática.
Registro de descobertas no caderno.
Jogos pedagógicos.
Atividades com alfabeto móvel.
Fichas de leitura.
Textos fatiados.
Cartazes coletivos.
Produção de pequenas frases e textos.
Atividades matemáticas contextualizadas (quantidade, classificação, problemas etc.).
5.5. Cronograma Geral
Estudo e elaboração do projeto: 16 horas
Atendimento em sala com alunos: 64 horas
Planejamento e elaboração de materiais: 40 horas
Total: 120 horas
- Recursos Didáticos
Sala de informática
Pesquisa de campo
jornais e revistas
Material dourado
Jogos pedagógicos
Fichas de leitura
Cartazes
Textos e imagens
Alfabeto móvel
Crachás
Histórias diversas
Atividades impressas
- Discussão
O projeto “Aprendendo com os Animais” se destaca por articular habilidades linguísticas, autonomia e ludicidade. Estudos contemporâneos reforçam que práticas escolares que consideram os interesses infantis apresentam maior eficácia (Kishimoto, 2018). Além disso, trabalhar com a participação ativa dos alunos, como a votação do animal da semana, fortalece o protagonismo estudantil.
Freire (1996) aponta que educar é um ato de liberdade. Permitir que os estudantes escolham, opinem e construam torna o processo mais humanizado e engajador. Ao mesmo tempo, a proposta integra habilidades matemáticas ao tema, promovendo interdisciplinaridade e ampliando as possibilidades de aprendizagem.
Outro ponto relevante é o fortalecimento da autoestima. Crianças que enfrentam dificuldades na alfabetização costumam apresentar sentimentos de incapacidade. A ludicidade e a personalização das atividades ajudam a ressignificar a relação com a aprendizagem.
Assim, o projeto representa um caminho metodológico consistente e coerente com as demandas educacionais atuais.
- Conclusão
O projeto de intervenção apresentado demonstra potencial significativo para melhorar o desenvolvimento de leitura e escrita de alunos que ainda não consolidaram o processo de alfabetização. A utilização dos animais como eixo temático favorece o interesse e a curiosidade, ao mesmo tempo em que proporciona aprendizagem significativa, contextualizada e prazerosa.
Com atividades planejadas, práticas sistematizadas e acompanhamento constante, espera-se que os alunos avancem em suas competências linguísticas, interpretativas e cognitivas. A construção de portfólios documentará o percurso, permitindo avaliação contínua e ajustes pedagógicos.
Conclui-se que iniciativas como esta são essenciais no contexto pós-pandemia, servindo como modelo para outros projetos escolares que busquem enfrentar as dificuldades de aprendizagem com criatividade, sistematicidade e humanização.
Referências
FERREIRO, Emilia; TEBEROSKY, Ana. Psicogênese da língua escrita. Porto Alegre: Artmed, 2011.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
KISHIMOTO, Tizuko Morchida. O jogo e a educação infantil. São Paulo: Pioneira, 2018.
SOARES, Magda. Alfabetização e letramento. São Paulo: Contexto, 1998.
SOARES, Magda. A reinvenção da alfabetização. Belo Horizonte: Autêntica, 2020.
UNICEF. Educação e pandemia: impactos no aprendizado. Brasília: UNICEF, 2021.
VYGOTSKY, Lev Semionovich. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
BRASIL. Ministério da Educação. Relatório Nacional de Recuperação da Aprendizagem. Brasília: MEC, 2022.

