Projeto "Resgate de brinquedos, jogos e brincadeiras antigas": cultura lúdica, infância e aprendizagem
Gilmara Ribeiro Wiber
Marta Szolomicki
Rosmari Favaretto Walker
RESUMO
O presente artigo discute a implementação do projeto Resgate de brinquedos, jogos e brincadeiras antigas, desenvolvido com o objetivo de promover práticas educativas significativas por meio do lúdico. A proposta fundamenta-se na importância cultural e pedagógica dos brinquedos e brincadeiras tradicionais, compreendidos como expressão da memória coletiva e recurso essencial ao desenvolvimento infantil. Apoiado nos pressupostos de Vygotsky e em autores que tratam da ludicidade e da cultura da infância, o projeto busca oportunizar experiências que estimulem a criatividade, a socialização, a coordenação motora e a autonomia, contrapondo-se ao uso excessivo das tecnologias pelas crianças contemporâneas. O texto apresenta a introdução, justificativa, fundamentação teórica, objetivos e contribuições pedagógicas, reforçando o papel do brincar na mediação do conhecimento.
Palavras-chave: Ludicidade. Cultura. Infantil. Brinquedos. Tradicionais. Aprendizagem. Vygotsky.
1 Introdução
As transformações sociais e tecnológicas das últimas décadas trouxeram impactos significativos à rotina das crianças, que têm substituído progressivamente as brincadeiras tradicionais por dispositivos eletrônicos. Televisores, computadores, celulares e videogames passaram a ocupar grande parte do tempo livre, reduzindo o espaço do brincar espontâneo, criativo e interativo. Diante desse cenário, torna-se urgente a retomada de práticas lúdicas que devolvam às crianças a possibilidade de criação, exploração, movimento e convivência social.
O projeto Resgate de brinquedos, jogos e brincadeiras antigas nasce como uma proposta pedagógica destinada a promover um aprendizado significativo, despertando o interesse pelo conhecimento, o engajamento escolar e a valorização da cultura infantil tradicional. Ao promover a criação e o uso de brinquedos confeccionados pelas próprias crianças, busca-se fortalecer vínculos afetivos, estimular habilidades motoras e resgatar memórias transmitidas por gerações por meio da oralidade.
O brincar é reconhecido como elemento indispensável ao desenvolvimento físico, cognitivo, moral e social da criança. Para Vygotsky (1998), a atividade lúdica não representa mera imitação mecânica da vida adulta, mas uma situação privilegiada em que a criança exercita habilidades presentes em sua Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), podendo avançar em suas capacidades por meio da interação social. Dessa forma, o brincar é entendido como atividade estruturante do pensamento e da aprendizagem.
A escola, como espaço de socialização e formação integral, tem papel fundamental na manutenção e valorização das práticas culturais relacionadas ao brincar. Projetos que resgatam brincadeiras tradicionais contribuem para aproximar gerações, fortalecer identidades e promover experiências significativas que favorecem a aprendizagem em todas as dimensões.
2 Justificativa
O projeto justifica-se pela necessidade de resgatar práticas lúdicas e culturais que estão se perdendo diante do avanço tecnológico e da mudança de hábitos na infância. Observa-se que, atualmente, muitas crianças passam horas imersas em telas, o que reduz o convívio social, diminui as atividades físicas e pode contribuir para problemas de saúde como sedentarismo e obesidade infantil. Além disso, o excesso de estímulos tecnológicos, associado à diminuição das interações sociais, compromete habilidades importantes para o desenvolvimento emocional e cognitivo.
O resgate de brinquedos e brincadeiras tradicionais oferece às crianças a oportunidade de vivenciar experiências que estimulam a criatividade, a imaginação, o contato com a cultura popular e a interação com seus pares e familiares. Dessa forma, reforça-se o papel da escola como promotora de práticas educativas humanizadoras e culturalmente significativas.
Além do caráter cultural, o projeto visa estimular valores fundamentais, como respeito, solidariedade, cooperação, justiça e partilha, aspectos essenciais para a convivência social. A confecção de brinquedos com materiais recicláveis também promove consciência ambiental, incentivando atitudes sustentáveis.
3 Fundamentação Teórica
3.1 A ludicidade na formação da criança
O brincar constitui um dos aspectos mais importantes da infância. Kishimoto (2011) destaca que os jogos e brincadeiras são ferramentas essenciais para o desenvolvimento integral da criança, pois favorecem a coordenação motora, o pensamento simbólico, a linguagem, a imaginação e as relações sociais. O lúdico atua como mediador entre o mundo interno da criança e o conhecimento que ela constrói na interação com o meio.
Vygotsky (1998) enfatiza que o brincar possibilita à criança “agir além do comportamento habitual”, funcionando como atividade propulsora do desenvolvimento. Ao brincar, a criança desenvolve funções psicológicas superiores, como atenção, memória e autocontrole, especialmente quando participa de jogos orientados por regras.
3.2 Cultura e memória nas brincadeiras tradicionais
Os brinquedos e brincadeiras antigas são parte integrante da cultura popular e refletem modos de vida, tradições e valores de diferentes épocas e regiões. Brougère (2008) afirma que o brinquedo é um artefato cultural que revela traços da sociedade que o produz e o utiliza. Dessa forma, ao resgatar práticas tradicionais como peteca, pião, pipa, amarelinha e tantas outras, as crianças têm a oportunidade de entrar em contato com elementos do patrimônio cultural imaterial.
Esse resgate contribui para a formação da identidade cultural e permite que os alunos compreendam que brincar vai muito além do uso de objetos tecnológicos: é uma prática social compartilhada, que promove vínculos afetivos, criatividade e interação.
3.3 O potencial pedagógico dos brinquedos confeccionados
A confecção de brinquedos com materiais simples, recicláveis e acessíveis estimula o pensamento criativo, o planejamento e a valorização do próprio trabalho. Além disso, promove a coordenação motora fina, a concentração e o raciocínio lógico.
Segundo Santos (2012), ao confeccionar seus próprios brinquedos, a criança passa a compreender o processo de criação, desenvolve autonomia e amplia sua capacidade de resolver problemas. O brinquedo deixa de ser mero objeto de consumo para tornar-se parte da construção ativa do conhecimento.
4 Objetivo Geral
Promover experiências lúdicas que favoreçam a aprendizagem significativa por meio do resgate de brinquedos, jogos e brincadeiras antigas, estimulando a criatividade, a interação social, a cultura popular e o desenvolvimento integral dos alunos.
5 Objetivos Específicos
Reconhecer e interpretar diferentes gêneros textuais verbais e não verbais relacionados à cultura lúdica;
Estimular a compreensão leitora e a produção escrita;
Incentivar a concentração e o desenvolvimento de uma vida interior rica;
Representar brincadeiras por meio de técnicas diversas, favorecendo habilidades estéticas e artísticas;
Interagir harmoniosamente com colegas e professores;
Compartilhar espaços e objetos durante atividades lúdicas;
Resgatar e confeccionar brinquedos tradicionais;
Valorizar a cultura local e compreender o significado das brincadeiras em diferentes épocas;
Promover a socialização entre crianças e famílias;
Reforçar valores humanos como respeito, cooperatividade, solidariedade e autoestima;
Ampliar o vocabulário;
Desenvolver a motricidade fina;
Reutilizar materiais recicláveis na confecção dos brinquedos.
6 Metodologia
A metodologia adotada baseia-se na pedagogia ativa, nas interações sociais e no uso da ludicidade como mediadora da aprendizagem. As atividades serão desenvolvidas por meio de:
Resgate histórico: pesquisa sobre brinquedos e brincadeiras tradicionais por meio de entrevistas com familiares, vídeos e textos.
Rodas de conversa: socialização das memórias coletadas.
Oficinas de construção de brinquedos: utilização de materiais recicláveis para confeccionar petecas, bilboquês, bonecas de pano, pipas, carrinhos, entre outros.
Vivência das brincadeiras: realização de jogos tradicionais em grupos, respeitando regras e estimulando cooperação.
Registro das experiências: produção de textos, desenhos, fotos e relatos.
Culminância: exposição dos brinquedos confeccionados e apresentação das brincadeiras para a comunidade escolar.
7 Contribuições Esperadas
Espera-se que o projeto contribua para:
Desenvolvimento cognitivo, motor e emocional das crianças;
Fortalecimento da cultura popular e da memória social;
Ampliação das habilidades comunicativas e linguísticas;
Redução do tempo de exposição às telas;
Aumento da socialização, da autoestima e da cooperação;
Formação de valores humanos e atitudes sustentáveis;
Estreitamento dos vínculos entre crianças, professores e famílias.
8 Considerações Finais
O projeto Resgate de brinquedos, jogos e brincadeiras antigas reafirma a importância do brincar como ação fundamental para o desenvolvimento integral e para a formação cultural das crianças. Ao propor atividades que resgatam elementos tradicionais da cultura infantil, contribui-se não apenas para a aprendizagem escolar, mas também para a preservação da memória e dos valores sociais.
A participação ativa das crianças na confecção e vivência das brincadeiras promove autonomia, criatividade, interação e desenvolvimento emocional. Ao mesmo tempo, fortalece vínculos afetivos, estimula atitudes solidárias e incentiva práticas sustentáveis. Assim, o projeto constitui uma proposta pedagógica transformadora, capaz de enriquecer a prática docente e ampliar repertórios culturais e educativos na infância.
Referências
BROUGÈRE, Gilles. Brinquedo e cultura. 5. ed. São Paulo: Cortez, 2008.
KISHIMOTO, Tizuko Morchida. Jogo, brinquedo, brincadeira e a educação. 15. ed. São Paulo: Cortez, 2011.
SANTOS, Santa Marli Pires dos. O brincar na educação infantil. Petrópolis: Vozes, 2012.
VYGOTSKY, Lev Semionovich. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

