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Projeto "Resgate de brinquedos, jogos e brincadeiras antigas": cultura lúdica, infância e aprendizagem

Gilmara Ribeiro Wiber

Marta Szolomicki

Rosmari Favaretto Walker

 

DOI: 10.5281/zenodo.17904969

 

 

RESUMO

O presente artigo discute a implementação do projeto Resgate de brinquedos, jogos e brincadeiras antigas, desenvolvido com o objetivo de promover práticas educativas significativas por meio do lúdico. A proposta fundamenta-se na importância cultural e pedagógica dos brinquedos e brincadeiras tradicionais, compreendidos como expressão da memória coletiva e recurso essencial ao desenvolvimento infantil. Apoiado nos pressupostos de Vygotsky e em autores que tratam da ludicidade e da cultura da infância, o projeto busca oportunizar experiências que estimulem a criatividade, a socialização, a coordenação motora e a autonomia, contrapondo-se ao uso excessivo das tecnologias pelas crianças contemporâneas. O texto apresenta a introdução, justificativa, fundamentação teórica, objetivos e contribuições pedagógicas, reforçando o papel do brincar na mediação do conhecimento.

 

Palavras-chave: Ludicidade. Cultura. Infantil. Brinquedos. Tradicionais. Aprendizagem. Vygotsky.

 

 

1 Introdução

 

As transformações sociais e tecnológicas das últimas décadas trouxeram impactos significativos à rotina das crianças, que têm substituído progressivamente as brincadeiras tradicionais por dispositivos eletrônicos. Televisores, computadores, celulares e videogames passaram a ocupar grande parte do tempo livre, reduzindo o espaço do brincar espontâneo, criativo e interativo. Diante desse cenário, torna-se urgente a retomada de práticas lúdicas que devolvam às crianças a possibilidade de criação, exploração, movimento e convivência social.

O projeto Resgate de brinquedos, jogos e brincadeiras antigas nasce como uma proposta pedagógica destinada a promover um aprendizado significativo, despertando o interesse pelo conhecimento, o engajamento escolar e a valorização da cultura infantil tradicional. Ao promover a criação e o uso de brinquedos confeccionados pelas próprias crianças, busca-se fortalecer vínculos afetivos, estimular habilidades motoras e resgatar memórias transmitidas por gerações por meio da oralidade.

O brincar é reconhecido como elemento indispensável ao desenvolvimento físico, cognitivo, moral e social da criança. Para Vygotsky (1998), a atividade lúdica não representa mera imitação mecânica da vida adulta, mas uma situação privilegiada em que a criança exercita habilidades presentes em sua Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), podendo avançar em suas capacidades por meio da interação social. Dessa forma, o brincar é entendido como atividade estruturante do pensamento e da aprendizagem.

A escola, como espaço de socialização e formação integral, tem papel fundamental na manutenção e valorização das práticas culturais relacionadas ao brincar. Projetos que resgatam brincadeiras tradicionais contribuem para aproximar gerações, fortalecer identidades e promover experiências significativas que favorecem a aprendizagem em todas as dimensões.

 

 

2 Justificativa

 

O projeto justifica-se pela necessidade de resgatar práticas lúdicas e culturais que estão se perdendo diante do avanço tecnológico e da mudança de hábitos na infância. Observa-se que, atualmente, muitas crianças passam horas imersas em telas, o que reduz o convívio social, diminui as atividades físicas e pode contribuir para problemas de saúde como sedentarismo e obesidade infantil. Além disso, o excesso de estímulos tecnológicos, associado à diminuição das interações sociais, compromete habilidades importantes para o desenvolvimento emocional e cognitivo.

O resgate de brinquedos e brincadeiras tradicionais oferece às crianças a oportunidade de vivenciar experiências que estimulam a criatividade, a imaginação, o contato com a cultura popular e a interação com seus pares e familiares. Dessa forma, reforça-se o papel da escola como promotora de práticas educativas humanizadoras e culturalmente significativas.

Além do caráter cultural, o projeto visa estimular valores fundamentais, como respeito, solidariedade, cooperação, justiça e partilha, aspectos essenciais para a convivência social. A confecção de brinquedos com materiais recicláveis também promove consciência ambiental, incentivando atitudes sustentáveis.

 

 

3 Fundamentação Teórica

 

3.1 A ludicidade na formação da criança

 

O brincar constitui um dos aspectos mais importantes da infância. Kishimoto (2011) destaca que os jogos e brincadeiras são ferramentas essenciais para o desenvolvimento integral da criança, pois favorecem a coordenação motora, o pensamento simbólico, a linguagem, a imaginação e as relações sociais. O lúdico atua como mediador entre o mundo interno da criança e o conhecimento que ela constrói na interação com o meio.

Vygotsky (1998) enfatiza que o brincar possibilita à criança “agir além do comportamento habitual”, funcionando como atividade propulsora do desenvolvimento. Ao brincar, a criança desenvolve funções psicológicas superiores, como atenção, memória e autocontrole, especialmente quando participa de jogos orientados por regras.

 

3.2 Cultura e memória nas brincadeiras tradicionais

 

Os brinquedos e brincadeiras antigas são parte integrante da cultura popular e refletem modos de vida, tradições e valores de diferentes épocas e regiões. Brougère (2008) afirma que o brinquedo é um artefato cultural que revela traços da sociedade que o produz e o utiliza. Dessa forma, ao resgatar práticas tradicionais como peteca, pião, pipa, amarelinha e tantas outras, as crianças têm a oportunidade de entrar em contato com elementos do patrimônio cultural imaterial.

Esse resgate contribui para a formação da identidade cultural e permite que os alunos compreendam que brincar vai muito além do uso de objetos tecnológicos: é uma prática social compartilhada, que promove vínculos afetivos, criatividade e interação.

 

3.3 O potencial pedagógico dos brinquedos confeccionados

 

A confecção de brinquedos com materiais simples, recicláveis e acessíveis estimula o pensamento criativo, o planejamento e a valorização do próprio trabalho. Além disso, promove a coordenação motora fina, a concentração e o raciocínio lógico.

Segundo Santos (2012), ao confeccionar seus próprios brinquedos, a criança passa a compreender o processo de criação, desenvolve autonomia e amplia sua capacidade de resolver problemas. O brinquedo deixa de ser mero objeto de consumo para tornar-se parte da construção ativa do conhecimento.

 

4 Objetivo Geral

 

Promover experiências lúdicas que favoreçam a aprendizagem significativa por meio do resgate de brinquedos, jogos e brincadeiras antigas, estimulando a criatividade, a interação social, a cultura popular e o desenvolvimento integral dos alunos.

 

 

5 Objetivos Específicos

 

Reconhecer e interpretar diferentes gêneros textuais verbais e não verbais relacionados à cultura lúdica;

Estimular a compreensão leitora e a produção escrita;

Incentivar a concentração e o desenvolvimento de uma vida interior rica;

Representar brincadeiras por meio de técnicas diversas, favorecendo habilidades estéticas e artísticas;

Interagir harmoniosamente com colegas e professores;

Compartilhar espaços e objetos durante atividades lúdicas;

Resgatar e confeccionar brinquedos tradicionais;

Valorizar a cultura local e compreender o significado das brincadeiras em diferentes épocas;

Promover a socialização entre crianças e famílias;

Reforçar valores humanos como respeito, cooperatividade, solidariedade e autoestima;

Ampliar o vocabulário;

Desenvolver a motricidade fina;

Reutilizar materiais recicláveis na confecção dos brinquedos.

 

 

6 Metodologia

 

A metodologia adotada baseia-se na pedagogia ativa, nas interações sociais e no uso da ludicidade como mediadora da aprendizagem. As atividades serão desenvolvidas por meio de:

Resgate histórico: pesquisa sobre brinquedos e brincadeiras tradicionais por meio de entrevistas com familiares, vídeos e textos.

Rodas de conversa: socialização das memórias coletadas.

Oficinas de construção de brinquedos: utilização de materiais recicláveis para confeccionar petecas, bilboquês, bonecas de pano, pipas, carrinhos, entre outros.

Vivência das brincadeiras: realização de jogos tradicionais em grupos, respeitando regras e estimulando cooperação.

Registro das experiências: produção de textos, desenhos, fotos e relatos.

Culminância: exposição dos brinquedos confeccionados e apresentação das brincadeiras para a comunidade escolar.

 

 

7 Contribuições Esperadas

 

Espera-se que o projeto contribua para:

Desenvolvimento cognitivo, motor e emocional das crianças;

Fortalecimento da cultura popular e da memória social;

Ampliação das habilidades comunicativas e linguísticas;

Redução do tempo de exposição às telas;

Aumento da socialização, da autoestima e da cooperação;

Formação de valores humanos e atitudes sustentáveis;

Estreitamento dos vínculos entre crianças, professores e famílias.

 

 

8 Considerações Finais

 

O projeto Resgate de brinquedos, jogos e brincadeiras antigas reafirma a importância do brincar como ação fundamental para o desenvolvimento integral e para a formação cultural das crianças. Ao propor atividades que resgatam elementos tradicionais da cultura infantil, contribui-se não apenas para a aprendizagem escolar, mas também para a preservação da memória e dos valores sociais.

A participação ativa das crianças na confecção e vivência das brincadeiras promove autonomia, criatividade, interação e desenvolvimento emocional. Ao mesmo tempo, fortalece vínculos afetivos, estimula atitudes solidárias e incentiva práticas sustentáveis. Assim, o projeto constitui uma proposta pedagógica transformadora, capaz de enriquecer a prática docente e ampliar repertórios culturais e educativos na infância.

 

 

Referências

 

BROUGÈRE, Gilles. Brinquedo e cultura. 5. ed. São Paulo: Cortez, 2008.

 

KISHIMOTO, Tizuko Morchida. Jogo, brinquedo, brincadeira e a educação. 15. ed. São Paulo: Cortez, 2011.

 

SANTOS, Santa Marli Pires dos. O brincar na educação infantil. Petrópolis: Vozes, 2012.

 

VYGOTSKY, Lev Semionovich. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. São Paulo: Martins Fontes, 1998.