O menino que aprendeu a ver: a jornada de descobertas na alfabetização infantil
Valquíria Mariano Tavares Barroso
RESUMO
O presente artigo investiga a obra O Menino que Aprendeu a Ver, de Ruth Rocha, como representação literária do processo de alfabetização e da jornada de descoberta vivida pelas crianças ao aprender a ler. A narrativa acompanha o personagem João em sua passagem da percepção inicial da escrita como signos indecifráveis para a compreensão significativa das letras, palavras e textos, simbolizando as etapas cognitivas, afetivas e sociais que compõem a alfabetização. A análise dialoga com a psicogênese da língua escrita, proposta por Emilia Ferreiro e Ana Teberosky, destacando as hipóteses formuladas pela criança em seu percurso construtivo; com a perspectiva sociocultural de Vygotsky, que enfatiza a mediação como elemento essencial da aprendizagem; e com a concepção freireana de leitura como prática emancipadora. Discute-se, ainda, a literatura infantil como instrumento de letramento, conforme Magda Soares, evidenciando sua função na formação do leitor crítico e sensível. A obra é relacionada às diretrizes da Base Nacional Comum Curricular, que reconhece a leitura literária como prática formativa indispensável no ciclo da alfabetização. Conclui-se que a narrativa de Ruth Rocha não apenas retrata simbolicamente o processo de aprender a ler, mas também constitui um recurso pedagógico potente, capaz de promover autonomia intelectual e ampliar a compreensão da realidade.
Palavras-chave: Alfabetização. Leitura. Literatura infantil. Ruth Rocha. Psicogênese. Letramento. BNCC.
Introdução
A alfabetização constitui um dos marcos mais significativos do desenvolvimento infantil, pois inaugura novas maneiras de compreender o mundo, acessar informações, expressar pensamentos e participar da vida social. No contexto educacional brasileiro, porém, esse processo ainda enfrenta desafios persistentes. Dados do INEP indicam que um número expressivo de crianças conclui o ciclo da alfabetização sem dominar plenamente as habilidades de leitura e escrita, evidenciando desigualdades sociais,
falta de ambientes letrados e fragilidades na formação docente. Esses fatores reforçam a necessidade de práticas pedagógicas que considerem o sujeito em sua integralidade e promovam experiências significativas de aprendizagem.
No cotidiano escolar, é comum observar crianças que chegam ao 1º ano olhando para as letras com curiosidade, encantamento e, por vezes, certo receio. Muitos estudantes parecem tentar decifrar um código misterioso, e basta que uma delas consiga ler sua primeira palavra para que um sorriso espontâneo revele a sensação de descoberta. Esses pequenos momentos evidenciam que a alfabetização é também uma experiência afetiva e subjetiva, marcada por dúvidas, conquistas e encantamentos. Essa dimensão humana do processo dialoga diretamente com a jornada vivida por João na obra de Ruth Rocha, aproximando a literatura da realidade concreta das salas de aula.
Nesse cenário, a literatura infantil desempenha papel fundamental, pois possibilita à criança ampliar repertórios simbólicos, desenvolver sensibilidade, construir hipóteses sobre a linguagem e exercitar a imaginação. Entre as obras que tematizam o processo de aprender a ler, destaca-se O Menino que Aprendeu a Ver, de Ruth Rocha, que apresenta, por meio da trajetória do personagem João, uma metáfora sensível e profunda sobre a alfabetização. Inicialmente, o menino percebe a escrita como “um monte de riscos”, mas, com o apoio da escola, passa a reconhecer o sistema alfabético e a atribuir sentido às palavras — movimento que dialoga diretamente com as etapas descritas pela psicogênese da língua escrita, de Emilia Ferreiro e Ana Teberosky.
A compreensão da alfabetização como fenômeno sociocultural também é reforçada por Vygotsky (1998), ao afirmar que toda aprendizagem é mediada por interações sociais e que a criança avança quando apoiada em sua Zona de Desenvolvimento Proximal. Do mesmo modo, Paulo Freire (1989) destaca que “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”, afirmando que a aprendizagem deve considerar a experiência, a cultura e a realidade do sujeito. Esses pressupostos, ao serem articulados à obra de Ruth Rocha, permitem compreender como a narrativa representa não apenas um processo cognitivo, mas uma jornada afetiva, simbólica e social.
Assim, este artigo busca analisar como O Menino que Aprendeu a Ver representa a jornada de descoberta vivida pelas crianças durante a alfabetização, relacionando elementos literários da obra aos fundamentos teóricos da psicogênese, à mediação sociocultural e às práticas de letramento discutidas por Magda Soares. Além disso, o estudo dialoga com as diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que reconhece a leitura literária como prática indispensável no ciclo da alfabetização. Espera-se, portanto, evidenciar o potencial pedagógico da obra e sua contribuição para práticas alfabetizadoras mais sensíveis, significativas e humanizadas.
Objetivos
Objetivo Geral
Analisar como a obra O Menino que Aprendeu a Ver, de Ruth Rocha, representa a jornada de descoberta vivida pelas crianças no processo de alfabetização, articulando seus elementos literários aos fundamentos teóricos da psicogênese da língua escrita e às concepções socioculturais da aprendizagem.
Objetivos Específicos
Identificar, na narrativa, episódios que dialogam com as etapas da psicogênese da escrita propostas por Emilia Ferreiro e Ana Teberosky.
Relacionar o percurso do personagem João aos princípios da mediação sociocultural de Vygotsky e à concepção freireana de leitura como prática emancipadora.
Analisar como a obra expressa práticas de letramento e contribui para a formação do leitor em perspectiva social, com base em Magda Soares.
Discutir o potencial pedagógico da narrativa no contexto da alfabetização inicial, em consonância com as orientações da Base Nacional Comum Curricular (BNCC).
Referencial teórico
A Psicogênese da Língua Escrita
A teoria da psicogênese da língua escrita, desenvolvida por Emilia Ferreiro e Ana Teberosky, revolucionou a compreensão dos processos de alfabetização ao demonstrar que a criança não aprende de forma passiva, mas como sujeito ativo que constrói e reconstrói conhecimento. As autoras evidenciam que “a escrita é um objeto de conhecimento que a criança reconstrói” (FERREIRO; TEBEROSKY, 1999, p. 35), formulando hipóteses que evoluem de níveis pré-silábicos até o domínio alfabético.
Esses estágios — pré-silábico, silábico, silábico-alfabético e alfabético — mostram que a compreensão da escrita envolve raciocínio, observação e experimentação. Ao associar a narrativa de O Menino que Aprendeu a Ver a essa teoria, torna-se possível identificar no percurso de João momentos que correspondem às hipóteses infantis sobre o sistema alfabético, especialmente quando ele passa de uma leitura imagética para uma compreensão simbólica estruturada.
A Mediação Sociocultural de Vygotsky
Vygotsky (1998) destaca que toda aprendizagem ocorre por meio da interação social e da mediação simbólica, especialmente pela linguagem. Sua teoria da Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP) afirma que a criança alcança níveis mais elevados de compreensão quando apoiada por um mediador experiente — papel desempenhado por professores, familiares e pelo contexto cultural no qual está inserida.
A escrita, para Vygotsky, é uma ferramenta cultural complexa que reorganiza o pensamento infantil. Na obra de Ruth Rocha, observa-se essa mediação quando o ambiente escolar permite que João atribua sentido aos sinais gráficos antes percebidos como meros riscos. Assim, o desenvolvimento do personagem ilustra o movimento da
aprendizagem que se dá entre aquilo que a criança já sabe e aquilo que ela é capaz de aprender com apoio, conforme postula a ZDP.
Alfabetização e Letramento: Contribuições de Magda Soares
Magda Soares (2004) diferencia alfabetização — domínio do código linguístico — de letramento, entendido como o uso social da leitura e da escrita em práticas culturais significativas. A autora ressalta que “não basta aprender a ler e escrever; é preciso saber usar a leitura e a escrita nas práticas sociais”, apontando que o verdadeiro desenvolvimento leitor depende da inserção da criança em ambientes letrados.
A obra O Menino que Aprendeu a Ver dialoga com essa perspectiva quando João passa a identificar palavras no cotidiano, demonstrando a construção de sentidos e a apropriação social da escrita. Assim, o livro não apenas representa o processo de alfabetização, mas também introduz elementos de letramento ao revelar que a leitura transforma a forma como a criança interage com o mundo.
A Concepção Freireana da Leitura como Ato Emancipador
Paulo Freire afirma que “a leitura do mundo precede a leitura da palavra” (FREIRE, 1989, p. 11), defendendo que a alfabetização deve partir das vivências e significados construídos pelo sujeito. Para ele, aprender a ler não é apenas decodificar símbolos gráficos, mas interpretar a realidade, compreender relações sociais e desenvolver consciência crítica.
A trajetória de João expressa a passagem da leitura do mundo para a leitura da palavra: ao compreender as letras, o personagem amplia sua percepção, reorganiza sua visão da realidade e adquire autonomia. Essa perspectiva reforça que alfabetizar não é apenas ensinar códigos, mas promover práticas de liberdade, compreensão e participação social.
A Literatura Infantil na Formação do Leitor
A literatura infantil desempenha papel decisivo na constituição da sensibilidade, imaginação, linguagem e identidade leitora. Abramovich (1995) afirma que a literatura “abre caminhos para a fantasia e para a compreensão crítica da vida”, possibilitando que a criança explore emoções, formule hipóteses e desenvolva capacidades interpretativas.
Autores como Coelho (2000) e Hunt (2010) destacam que o texto literário apresenta às crianças estruturas linguísticas mais elaboradas, repertórios vocabulares diversificados e múltiplas formas de narrar. Essa riqueza contribui para o desenvolvimento da consciência fonológica, da fluência e da compreensão leitora.
A perspectiva sociocultural de Vygotsky sustenta que a imaginação é um mecanismo de reorganização da experiência humana. Assim, quando a criança vivencia histórias literárias, internaliza modos de ser, valores e interpretações de mundo. No caso de Ruth Rocha, sua produção literária combina ludicidade e crítica social, possibilitando ao leitor infantil reflexões sobre linguagem, convivência e cidadania.
Em O Menino que Aprendeu a Ver, a alfabetização é apresentada como uma jornada simbólica e emocional. A narrativa evidencia que aprender a ler envolve descoberta, encantamento e apropriação cultural, reafirmando o papel da literatura como ponte entre fantasia e mundo real, entre afetividade e cognição, entre aprender e significar.
A BNCC e as Práticas de Alfabetização
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC, 2017) estabelece que, até o final do 3º ano do Ensino Fundamental, as crianças devem consolidar habilidades como consciência fonológica, fluência, compreensão e autonomia leitora. O documento também enfatiza a leitura literária como prática essencial, valorizando o acesso a diferentes gêneros, autores e obras que promovam formação estética e cultural.
A obra de Ruth Rocha dialoga diretamente com essas competências ao permitir que o aluno compreenda elementos estruturais da narrativa, identifique funções sociais da escrita e reconheça a leitura como processo de construção de sentido. Nesse sentido, a literatura se integra à alfabetização não como recurso complementar, mas como eixo central para o desenvolvimento integral do leitor.
Análise da obra
A obra O Menino que Aprendeu a Ver, de Ruth Rocha, apresenta uma narrativa sensível que simboliza o processo de alfabetização como uma jornada de descoberta e transformação. Por meio da trajetória do personagem João, a autora representa diferentes etapas cognitivas, afetivas e sociais pelas quais a criança passa ao aprender a ler. A evolução do personagem dialoga com teorias consagradas da alfabetização, especialmente a psicogênese da língua escrita, a mediação sociocultural e as práticas de letramento.
No início da narrativa, João observa o ambiente letrado ao seu redor, mas interpreta os símbolos gráficos como formas sem significado. A descrição “tudo parecia apenas um monte de riscos e desenhos” (ROCHA, 2010, p. 4) caracteriza o estágio pré-silábico proposto por Ferreiro e Teberosky, no qual a criança ainda não atribui valor sonoro às letras. Essa percepção inicial demonstra que a escrita, para João, possui apenas função estética, evidenciando um olhar ainda não sistematizado sobre o código linguístico.
A entrada de João na escola marca uma mudança significativa. A mediação docente introduz novos elementos que reorganizam seu pensamento e lhe permitem compreender que a escrita possui regras e estrutura. Quando o personagem aprende as vogais — “Depois que aprendeu o A, o E, o I, o O e o U, João nunca mais foi o mesmo” (ROCHA, 2010, p. 10) — percebe-se a transição para o nível silábico, evidenciando que João passa a formular hipóteses sobre a relação entre fala e escrita. Essa transformação é coerente com a concepção vygotskiana de que o desenvolvimento ocorre quando a criança interage com um mediador que a conduz à Zona de Desenvolvimento Proximal.
À medida que avança, João começa a identificar palavras no cotidiano, como placas, embalagens e livros. A afirmação “Agora via palavras por toda parte. E elas tinham sentido!” (ROCHA, 2010, p. 14) representa a consolidação do nível alfabético e o início do letramento, conforme Magda Soares. Nesse estágio, João não apenas decodifica, mas compreende a função social da escrita, percebendo que os textos organizam o mundo à sua volta e ampliam suas possibilidades de ação e interpretação.
A narrativa também evidencia um aspecto frequentemente negligenciado nos estudos de alfabetização: o componente emocional. João demonstra entusiasmo, curiosidade e encantamento à medida que avança em suas descobertas. A alegria do personagem ao “ver” o mundo com novos olhos simboliza o caráter emancipador da alfabetização defendido por Paulo Freire, para quem aprender a ler significa ampliar a consciência sobre si e sobre a realidade. Assim, a obra vai além da dimensão técnica da escrita, apresentando a alfabetização como experiência subjetiva e social transformadora.
Do ponto de vista literário, a obra utiliza uma linguagem simples, metafórica e acessível, que dialoga diretamente com o imaginário infantil. As ilustrações contribuem para reforçar a noção de descoberta progressiva, acompanhando graficamente as transformações cognitivas do personagem. Esse conjunto estético-narrativo favorece práticas pedagógicas que articulam emoção, compreensão e construção de sentido.
Portanto, a análise da obra revela que O Menino que Aprendeu a Ver não apenas retrata simbolicamente os estágios da alfabetização, mas também evidencia o papel essencial da mediação e das práticas sociais de leitura. A jornada de João representa o percurso vivido por muitas crianças, permitindo que o leitor infantil se reconheça no processo de aprender a ler e compreenda a alfabetização como caminho de autonomia e liberdade.
Discussão pedagógica
A obra O Menino que Aprendeu a Ver apresenta um conjunto de possibilidades pedagógicas que a tornam especialmente relevante para o ciclo de alfabetização. Por
retratar simbolicamente o processo vivido pelas crianças ao aprender a ler, a narrativa favorece a identificação, estimula a curiosidade e cria um ambiente propício para reflexões metacognitivas sobre a linguagem. Assim, sua utilização em sala de aula possibilita tanto o desenvolvimento das habilidades previstas na BNCC quanto a construção de práticas alfabetizadoras sensíveis, significativas e humanizadoras.
A leitura compartilhada da obra, por exemplo, é um recurso potente para favorecer a compreensão oral, a construção de sentido e a interação entre os alunos. Esse tipo de atividade permite que as crianças antecipem hipóteses sobre a narrativa, estabeleçam relações com suas experiências e exercitem a escuta atenta — habilidades essenciais no processo de alfabetização. A mediação do professor, conforme postulam Vygotsky e Paulo Freire, é fundamental para orientar esse percurso, ampliando o repertório cultural dos estudantes e promovendo a leitura como prática de liberdade.
Além disso, o livro oferece oportunidades para trabalhar aspectos estruturais do sistema de escrita, dialogando diretamente com a psicogênese da língua escrita. Ao acompanhar a evolução de João, o professor pode propor atividades que explorem o reconhecimento de letras, a função das vogais, a formação de sílabas e a relação entre fonema e grafema. Essas práticas contribuem para consolidar habilidades básicas, como consciência fonológica e fluência inicial, previstas para o 1º e o 2º ano da alfabetização pela BNCC (EF01LP02, EF02LP01).
Outro ponto pedagógico relevante é a possibilidade de relacionar a narrativa às práticas de letramento. Quando João passa a identificar palavras em diferentes contextos — placas, embalagens, livros —, o professor pode ampliar essa percepção por meio de atividades que aproximem a escrita do cotidiano das crianças. Projetos como “exploração do ambiente letrado”, “coleta de palavras significativas” ou “caça às palavras do dia a dia” promovem o entendimento da escrita como instrumento social, indo além da simples decodificação. Assim, a obra favorece a inserção dos estudantes em práticas reais de leitura e escrita, conforme defende Magda Soares.
Do ponto de vista da formação do leitor literário, o livro permite trabalhar elementos da narrativa, como personagem, enredo, espaço, tempo e linguagem. A análise das ilustrações, a recontagem da história e a dramatização de trechos reforçam a compreensão textual e estimulam o desenvolvimento da expressão oral. Essas
práticas atendem às habilidades da BNCC relacionadas à fruição literária (EF15LP18) e ao desenvolvimento da imaginação, contribuindo para formar leitores sensíveis e críticos.
Por fim, a narrativa de João pode ser utilizada como recurso de apoio emocional no processo de alfabetização. A obra apresenta de forma delicada as dúvidas, frustrações e encantamentos que acompanham a aprendizagem, permitindo que as crianças reconheçam suas próprias experiências e compreendam que a alfabetização é um percurso gradual. Esse reconhecimento reduz sentimentos de ansiedade e reforça a autoestima dos estudantes, especialmente daqueles que enfrentam dificuldades. Assim, a obra contribui para práticas pedagógicas inclusivas, que valorizam as diferenças individuais e acolhem o ritmo de cada criança.
Em síntese, O Menino que Aprendeu a Ver constitui um instrumento pedagógico multifuncional, capaz de articular a dimensão cognitiva, afetiva e social da alfabetização. Seu uso em sala de aula permite integrar teoria e prática, fortalecer habilidades previstas na BNCC e promover uma educação literária sensível às necessidades e singularidades das crianças.
Discussão final
A análise da obra O Menino que Aprendeu a Ver evidencia que a narrativa de Ruth Rocha oferece uma representação simbólica e, ao mesmo tempo, profundamente concreta do processo de alfabetização. A trajetória do personagem João permite compreender a alfabetização como movimento que articula dimensões cognitivas, sociais, culturais e emocionais. Essa perspectiva dialoga diretamente com as principais teorias da área — a psicogênese da língua escrita, a mediação sociocultural e as práticas de letramento — reafirmando que aprender a ler é uma construção ativa e situada, e não um processo meramente mecânico.
Observa-se, ao longo da narrativa, que João vivencia etapas semelhantes às hipóteses descritas por Ferreiro e Teberosky, o que reforça a relevância da obra como recurso didático para apoiar o professor no reconhecimento dos níveis de escrita e na elaboração de práticas que valorizem o percurso investigativo da criança. Da mesma
forma, a presença da mediação — representada pela escola e pelos adultos que orientam o personagem — ilustra a concepção vygotskiana de que a aprendizagem se constrói nas interações sociais e no diálogo entre sujeitos.
Além disso, o momento em que João passa a identificar palavras no cotidiano revela uma compreensão da leitura que extrapola a decodificação e alcança sua dimensão social, conforme os pressupostos de letramento discutidos por Magda Soares. A obra também se aproxima da perspectiva freireana ao mostrar que a leitura transforma o modo como a criança “vê” o mundo, desenvolvendo uma consciência ampliada da realidade.
Do ponto de vista pedagógico, a obra oferece múltiplas possibilidades de trabalho com crianças em processo de alfabetização, permitindo a articulação entre práticas de leitura literária, exploração do sistema de escrita, desenvolvimento da consciência fonológica e inserção em práticas sociais de leitura e escrita. A narrativa, ao tratar da alfabetização de forma sensível e humanizada, fortalece práticas docentes que acolhem as singularidades dos estudantes e favorecem uma aprendizagem significativa.
Assim, a leitura de O Menino que Aprendeu a Ver em contexto escolar não apenas contribui para o domínio do código escrito, mas também para a construção da autonomia leitora, da imaginação, da sensibilidade e da capacidade crítica — elementos essenciais para a formação integral do sujeito. A obra, portanto, demonstra que literatura e alfabetização não são campos dissociados, mas complementares, e que seu encontro pode potencializar a formação do leitor em seus aspectos cognitivos, afetivos e sociais.
Conclusão
A análise desenvolvida ao longo deste estudo permitiu compreender que O Menino que Aprendeu a Ver, de Ruth Rocha, constitui um instrumento literário e pedagógico de grande relevância para o processo de alfabetização. A trajetória de João simboliza as etapas cognitivas descritas pela psicogênese da língua escrita,
evidenciando a construção ativa do conhecimento, enquanto a presença da mediação escolar reforça a concepção vygotskiana de que a aprendizagem se realiza no diálogo, na interação e no apoio de sujeitos mais experientes.
A obra também expressa dimensões afetivas e sociais da alfabetização, revelando que aprender a ler envolve curiosidade, encantamento, desenvolvimento emocional e construção de sentido — elementos que dialogam com a perspectiva freireana de leitura como prática emancipadora. Ao mostrar o momento em que João passa a identificar palavras no cotidiano, a narrativa articula alfabetização e letramento, permitindo compreender que o domínio do código deve ser acompanhado do uso social da escrita, conforme defende Magda Soares.
Do ponto de vista pedagógico, a obra oferece múltiplas possibilidades de trabalho em sala de aula, favorecendo o desenvolvimento das habilidades previstas na BNCC, o estímulo à formação do leitor literário e a construção de práticas alfabetizadoras sensíveis e contextualizadas. Seu caráter lúdico, simbólico e emocional permite que as crianças se reconheçam no percurso do personagem, compreendendo a alfabetização como uma jornada gradual, coletiva e transformadora.
Conclui-se, portanto, que O Menino que Aprendeu a Ver não apenas representa o processo de alfabetização, mas o potencializa, ao apresentar a leitura como ferramenta de compreensão da realidade e de ampliação da autonomia intelectual. A obra reafirma a importância da literatura infantil no processo de formação leitora e se configura como recurso valioso para professores que buscam práticas alfabetizadoras integradas, humanizadas e culturalmente significativas. Sugere-se, ainda, que pesquisas futuras explorem o uso da obra em diferentes metodologias de ensino e investiguem sua recepção por parte das crianças, ampliando, assim, o diálogo entre literatura, pedagogia e alfabetização.
Referências
ABRAMOVICH, Fanny. Literatura infantil: gostosuras e bobices. São Paulo: Scipione, 1995.
BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2017.
COELHO, Nelly Novaes. Literatura infantil: teoria, análise, didática.9.ed. São Paulo: Moderna, 2000.
FERREIRO, Emilia; TEBEROSKY, Ana. Psicogênese da língua escrita. Porto Alegre: Artmed, 1999.
FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler. São Paulo: Cortez, 1989.
HUNT, Peter. Crítica, teoria e literatura infantil. Tradução de Cid Knipel. São Paulo: Cosac Naify, 2010.
ROCHA, Ruth. O menino que aprendeu a ver. São Paulo: Moderna, 2010.
SOARES, Magda. Alfabetização e letramento. São Paulo: Contexto, 2004. VYGOTSKY, Lev. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

