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Uso de telas na infância: entre benefícios, riscos e a importância da mediação[1]

Viviane dos Santos Ferreira Coutinho[2]

 

DOI: 10.5281/zenodo.17901949

 

 

RESUMO

O trabalho discute como o uso excessivo de telas pode prejudicar o desenvolvimento e a aprendizagem de crianças e adolescentes. A exposição prolongada afeta a atenção, o sono, a memória e outras funções importantes para o desempenho escolar. Além disso, quando a tecnologia substitui o contato familiar, surgem prejuízos emocionais e sociais. Diante disso, família e escola têm papel essencial na orientação e no uso equilibrado das mídias, ajudando a transformar a tecnologia em ferramenta de aprendizagem e não em fonte de prejuízos. Para isso foram analisados trabalhos científicos já publicados por pesquisadores como MORAN (2000), COSTA et. al, (2025) e FERNANDES et. al (2025).

 

Palavras-chave: Uso de telas. Desenvolvimento. Aprendizagem.

 

 

Introdução

 

O presente ensaio acadêmico propõe uma reflexão sobre um tema amplamente evidente na sociedade contemporânea. Vivemos em um contexto cada vez mais conectado, no qual o uso de celulares, tablets, computadores e outros dispositivos digitais faz parte da rotina de crianças, adolescentes e adultos. A escolha deste tema surge da necessidade de discutir uma questão tão presente na atualidade: os efeitos do uso prolongado e desregulado das telas sobre indivíduos em fase de desenvolvimento e aprendizagem.
Embora a tecnologia ofereça diversas vantagens, como acesso rápido à informação, facilidades de comunicação e recursos pedagógicos inovadores, seu uso excessivo tem se tornado motivo de preocupação entre educadores, famílias e pesquisadores. Esse comportamento pode afetar diretamente o desempenho escolar, interferindo na capacidade de concentração, na organização cognitiva e na qualidade da aprendizagem. Ao longo deste ensaio, busca-se refletir sobre até que ponto as tecnologias contribuem para o processo educativo e em que momento passam a comprometer o desenvolvimento das crianças e adolescentes.

 

 

Desenvolvimento

 

  1. Alterações na atenção e na capacidade de concentração

 

O uso constante de telas tende a reduzir o tempo dedicado a atividades fundamentais para o desenvolvimento cognitivo, como leitura, estudo individual e resolução de tarefas escolares. A exposição prolongada a aplicativos, jogos e redes sociais propõe uma dinâmica rápida de estímulos, que pode prejudicar a capacidade de manter a atenção em tarefas mais longas e complexas, típicas do ambiente escolar. Assim, muitos estudantes apresentam dificuldade em se concentrar, organizar ideias e acompanhar explicações, o que impacta diretamente seu rendimento acadêmico. Além disso, observa-se que, para grande parte dos usuários, o atrativo das mídias digitais não está necessariamente nos conteúdos formativos capazes de promover o crescimento pessoal e profissional. Frequentemente, o tempo de uso é preenchido por conteúdos superficiais, favorecidos pela facilidade de acesso proporcionada pela internet, que funciona como uma “janela aberta para o mundo”. Sem um controle adequado, praticamente qualquer tipo de informação pode ser consumida por meio de um único dispositivo conectado à rede, o que amplia ainda mais os desafios relacionados ao uso consciente e educativo das tecnologias.

Costa et al., (2025 p. 15213) destacam que:

 

Um estudo com 284 crianças relacionou o maior uso de internet com diminuição do volume da matéria cinzenta regional (rGMV) e o volume da matéria branca regional (rWMV), correlacionado com diminuição de inteligência verbal; as áreas em questão envolvem regiões relacionadas ao processamento de atenção, linguagem, emoção, recompensa e funções executivas. Um dos principais motivos apontados pela pesquisa trata do conteúdo que era consumido durante a utilização da internet, o que pode estar relacionado não só à quantidade de estímulo digital, mas também a respeito da qualidade dos mesmos.

 

Como aponta o estudo esse conjunto de evidências apresentado reforça um argumento central no debate sobre o uso de telas na infância: a exposição excessiva à internet não é apenas uma questão de hábito, mas um fator que pode comprometer diretamente o desenvolvimento cerebral e cognitivo das crianças. A identificação de redução no volume de matéria cinzenta e branca em regiões responsáveis por atenção, linguagem, emoção e funções executivas demonstra que o impacto é profundo e estruturado, afetando capacidades essenciais para o aprendizado e o comportamento escolar. Esses dados sustentam a compreensão de que o excesso de estímulos digitais, especialmente quando associados a conteúdos de baixa qualidade, pode limitar o desenvolvimento de habilidades como concentração, planejamento e processamento verbal.

Além disso, o estudo evidencia que não basta considerar o tempo de uso; é imprescindível avaliar o tipo de conteúdo consumido. Em um cenário em que muitas crianças têm acesso irrestrito a conteúdos rápidos e altamente estimulantes, torna-se ainda mais urgente refletir sobre práticas familiares e educativas capazes de controlar e orientar essa exposição. Assim, os resultados apresentados fortalecem o argumento de que políticas de uso saudável de tecnologias são necessárias não apenas para evitar distrações cotidianas, mas para proteger processos cognitivos fundamentais ao desenvolvimento infantil.

Segundo Costa et al., (2025 p. 15214) A infância é um período crítico para o desenvolvimento de habilidades cognitivas essenciais. Quando há pouca exposição a estímulos saudáveis e excesso de estímulos digitais, podem surgir prejuízos importantes e possivelmente irreversíveis em processos como memória, linguagem, atenção, capacidade de concentração e qualidade do sono.

 

  1. Comprometimento da qualidade do sono e seus impactos na aprendizagem

 

Além disso, o uso excessivo de telas costuma estar associado a hábitos de sono inadequados. Crianças e adolescentes que passam muitas horas no celular, especialmente durante a noite, tendem a dormir menos e de forma menos adequada. A falta de sono reparador prejudica a memória, a disposição e a capacidade de resolver problemas, elementos essenciais para o aprendizado, além de afetar o comportamento, como situações de irritabilidade. Dessa forma, o excesso de telas não afeta apenas a atenção, mas também aspectos físicos e emocionais envolvidos no desempenho escolar.

Fernandes et al., (2025, p. 4-10) destacam que:

O uso excessivo de dispositivos eletrônicos tem sido associado a prejuízos significativos no sono de crianças e adolescentes, uma vez que a exposição prolongada à luz azul emitida pelas telas reduz a produção de melatonina e dificulta o início do sono. Estudos demonstram ainda que o tempo elevado de tela aumenta a latência para adormecer, reduz a duração total do sono e provoca maior frequência de despertares noturnos, comprometendo o ciclo circadiano. Até mesmo bebês, quando expostos a telas sensíveis ao toque, apresentam redução no tempo total de sono e maior dificuldade para iniciar o descanso, indicando que os impactos do uso de telas se manifestam desde os primeiros anos de vida.

Diante desses indicativos, torna-se evidente que o uso excessivo de dispositivos eletrônicos não pode ser considerado apenas um hábito contemporâneo, mas sim um fator que repercute diretamente na saúde e no desenvolvimento infantil. A interferência no ciclo do sono, um dos pilares essenciais para o crescimento físico, cognitivo e emocional, revela a necessidade de maior atenção por parte das famílias, educadores e profissionais da saúde. Regulamentar o tempo de exposição às telas, especialmente nos primeiros anos de vida, constitui uma medida fundamental para preservar a qualidade do sono e, consequentemente, promover condições mais favoráveis ao desenvolvimento integral da criança. Ao reconhecer os impactos negativos desse uso descontrolado, reforça-se a importância de práticas educativas e preventivas que incentivem uma relação mais equilibrada e consciente com as tecnologias digitais.

 

  1. O papel da mediação na família e na escola

 

A substituição da interação pessoal pelo uso de aparelhos eletrônicos no ambiente familiar representa um dos fatores mais preocupantes para o desenvolvimento infantil. Quando as relações afetivas, as conversas, as brincadeiras e o contato direto são trocados pela presença constante de telas, a criança perde oportunidades fundamentais de construir vínculos seguros, desenvolver linguagem, aprimorar habilidades socioemocionais e aprender por meio da observação e da convivência. Esse afastamento progressivo das interações humanas fragiliza processos essenciais do desenvolvimento neuropsicológico, uma vez que a qualidade das relações familiares é determinante para a formação da atenção, da regulação emocional e da aprendizagem. Assim, o uso excessivo de dispositivos eletrônicos como forma de entreter ou silenciar crianças compromete não apenas a socialização, mas também o desenvolvimento cognitivo e afetivo, gerando impactos até mesmo irreversíveis, tendo em vista o tipo de conteúdo que pode se ter acesso através das redes.

Costa et al., (2025 p. 15214) apontam que, nos primeiros anos de vida, especialmente até os três anos, o desenvolvimento cognitivo e emocional depende diretamente da qualidade das interações familiares e do ambiente. Destacam que crianças expostas a situações de estresse ou medo por longos períodos apresentam maior risco de prejuízos no desenvolvimento neuronal e cognitivo, já que habilidades cognitivas e socioemocionais são profundamente influenciadas pelas condições ambientais ao longo de toda a vida.

Na escola, a mediação com as tecnologias acontece de forma mais próxima e orientada. O papel da escola é ajudar os estudantes a entenderem como usar as mídias de maneira responsável, refletir sobre o que veem e saber se proteger no ambiente digital. Além disso, a escola acaba sendo um espaço de apoio para muitas crianças e adolescentes que não têm acompanhamento em casa. Por meio de atividades, conversas e projetos, os educadores ajudam os alunos a desenvolverem consciência, cuidado e bom senso no uso das tecnologias, preparando-os para lidar melhor com o mundo digital, uma vez que, temos em vista ser uma realidade cada vez mais crescente em nossa sociedade o que é inevitável o acesso direto por parte de qualquer indivíduo.

O professor Moran (2000, p. 139) aborda que:

 

“[...] pode-se concluir que é impossível dialogarmos sobre tecnologia e educação inclusive educação escolar sem abordarmos a questão do processo de aprendizagem. Com efeito a tecnologia apresenta se como meio como instrumento para colaborar no desenvolvimento do processo e aprendizagem a tecnologia reveste-se de um valor relativo e dependente desse processo ela tem sua importância apenas como um instrumento significativo para favorecer a aprendizagem de alguém. Não é a tecnologia que vai resolver ou solucionar o problema educacional do Brasil. Poderá colaborar, no entanto, se for usada adequadamente para o desenvolvimento educacional de nossos estudantes.”

 

Portanto é imprescindível levar em consideração a união entre família e escola pois trabalhando juntas, faz com que o uso das mídias pelas crianças seja mais equilibrado e seguro. Essa parceria ajuda a transformar a tecnologia em uma ferramenta de aprendizado e convivência, evitando prejuízos e ampliando benefícios. Assim, a união entre os dois ambientes é essencial para promover um uso digital mais consciente e saudável.

 

 

Conclusão

 

Em vista do que foi discutido, fica claro que o uso excessivo de telas pode trazer muitos prejuízos para o desenvolvimento das crianças e adolescentes se usadas de forma incorreta. A atenção, a memória, o sono e até mesmo a forma como aprendem e se relacionam podem ser afetados quando a tecnologia é usada sem limites ou sem orientação adequada. Esses impactos mostram que o problema não é apenas o tempo que passam diante das telas, mas também a falta de interação, afeto e acompanhamento que deveriam fazer parte do dia a dia.

Por isso, a participação da família e da escola é essencial. A família oferece o primeiro espaço de cuidado, diálogo e convivência, enquanto a escola ajuda a orientar e ensinar o uso responsável da tecnologia. Quando esses dois ambientes trabalham juntos, as telas deixam de ser apenas distração e passam a ser ferramentas que realmente contribuem para a aprendizagem e o bem-estar.

Assim, promover um uso equilibrado e consciente das mídias digitais é fundamental para garantir que crianças e adolescentes cresçam de forma saudável, segura e com oportunidades reais de aprender e se desenvolver plenamente em um mundo que, cada vez mais, depende das tecnologias.

 

 

Referências

 

COSTA, L. J. R.; SOUZA, G. S.; COSTA BRITO LACERDA, E. M. da; ALVES, G. S.; ALVES, C. Impactos Neuropsicológicos do Uso de Telas na Infância. Saúde Coletiva (Barueri), [S. l.], v. 15, n. 94, p. 15211–15226, 2025. DOI: 10.36489/saudecoletiva.2025v15i94p15211-15226. Disponível em: https://revistasaudecoletiva.com.br/index.php/saudecoletiva/article/view/3396. Acesso em: 9 dez. 2025.

 

FERNANDES, M. de M.; MORAIS, AM; FROTA, VC do N.; NASCIMENTO, G. do; OLIVEIRA, JGA; XAVIER, JHVD; MEDEIROS, EA de; PAIVA, KM O impacto do uso excessivo de telas no sono e neurodesenvolvimento infantil: uma revisão sistemática. Revista Brasileira de Revisão de Saúde, [S. l.], v. 2, pág. e78899, 2025. DOI: 10.34119/bjhrv8n2-266. Disponível em: https://ojs.brazilianjournals.com.br/ojs/index.php/BJHR/article/view/78899. Acesso em: 9 dez. 2025.

 

Moran, José Manuel

Novas Tecnologias e mediação pedagógica / José Manuel Moran, Marcos T. Masette, Marilda Aparecida Behrem – Campinas, SP: Papirus, 2000. – (Coleção Papirus Educação).

 

 

[1] Trabalho referente à disciplina de atividades complementares ofertada pelo Centro Universitário FAVENI no curso de Pedagogia durante o 2º semestre de 2025.

 

[2] Acadêmica de graduação do 8º período de Pedagogia - contato: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.