Práticas pedagógicas inclusivas e o desenvolvimento da autonomia de estudantes com necessidades educacionais específicas no Ensino Fundamental
Sidinéia da Silva Biazoto
Maria José Souza dos Santos
RESUMO
Este estudo analisa como as práticas pedagógicas inclusivas contribuem para o desenvolvimento da autonomia de estudantes com Necessidades Educacionais Específicas (NEE) no Ensino Fundamental, considerando a perspectiva da educação inclusiva prevista em legislações nacionais e internacionais. A autonomia, entendida como capacidade de tomar decisões, participar ativamente do processo de aprendizagem e desenvolver estratégias para resolver problemas cotidianos, configura-se como um dos principais objetivos da educação contemporânea, especialmente para alunos público-alvo da Educação Especial. A pesquisa discute fundamentos teóricos da inclusão, apresenta princípios das práticas pedagógicas inclusivas e analisa sua relação direta com a construção da autonomia nos diferentes níveis do Ensino Fundamental. A partir de revisão bibliográfica e análise conceitual, evidencia-se que práticas como mediação qualificada, flexibilização curricular, uso de tecnologias assistivas, metodologias ativas, ensino colaborativo e cultura escolar inclusiva fortalecem habilidades cognitivas, sociais e emocionais necessárias ao desenvolvimento da autonomia. Conclui-se que o avanço desse processo depende da atuação docente, da gestão escolar, da formação continuada e da superação de barreiras atitudinais, arquitetônicas, pedagógicas e comunicacionais. O estudo reforça a necessidade de transformar práticas e culturas escolares, de modo que a autonomia seja vista não como resultado isolado, mas como construção coletiva realizada no cotidiano escolar.
Palavras-chave: Educação inclusiva. Autonomia. Práticas pedagógicas. Necessidades educacionais específicas. Ensino fundamental.
Introdução
A educação inclusiva tem se consolidado como um movimento mundial fundamentado em princípios de justiça social, equidade e direito à aprendizagem. No Brasil, esse paradigma é sustentado por documentos como a Constituição Federal de 1988, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (2008) e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Todos esses documentos reforçam que o estudante público-alvo da Educação Especial deve estar matriculado em classes comuns do Ensino Regular, recebendo atendimento especializado, recursos, serviços e adaptações necessárias para garantir participação e aprendizagem.
No contexto dos anos iniciais e finais do Ensino Fundamental, a inclusão escolar de estudantes com Necessidades Educacionais Específicas (NEE) revela desafios e demandas que exigem mais do que infraestrutura física ou disponibilização de recursos. Ela requer transformação profunda das práticas pedagógicas e das atitudes de todos os envolvidos. Entre as metas centrais dessa transformação está o desenvolvimento da autonomia dos estudantes, não apenas como objetivo individual, mas como condição fundamental para sua participação ativa na vida escolar, social e comunitária.
A autonomia, nesse sentido, não deve ser compreendida como simples independência, mas como capacidade de realizar escolhas, posicionar-se, desenvolver estratégias próprias de aprendizagem e interagir com o mundo de forma crítica. Para estudantes com NEE, desenvolver autonomia significa superar barreiras impostas por condições biológicas, sensoriais, cognitivas, sociais ou emocionais, construindo caminhos personalizados de aprendizagem.
O presente estudo parte da seguinte problemática: de que maneira as práticas pedagógicas inclusivas contribuem para o desenvolvimento da autonomia dos estudantes com NEE no Ensino Fundamental? Para respondê-la, discute-se o conceito de inclusão, apresenta-se a autonomia como componente da formação integral e analisam-se práticas pedagógicas que fortalecem esse desenvolvimento. A pesquisa utiliza revisão bibliográfica, análise conceitual e articulação crítica de referenciais da educação especial, educação inclusiva, psicologia do desenvolvimento e pedagogia.
- Fundamentos Teóricos da Educação Inclusiva
1.1. Da integração à inclusão: mudança de paradigmas
O conceito de inclusão educacional representa avanço significativo em relação ao modelo de integração. Enquanto a integração pressupunha adaptação do aluno ao sistema escolar, a inclusão propõe transformação do próprio sistema para acolher a diversidade. Nesse paradigma, todos os estudantes pertencem à escola comum e devem ter asseguradas as condições necessárias para aprender juntos.
A inclusão escolar reconhece que as diferenças são parte constitutiva da humanidade e não exceções. Essa perspectiva está alinhada à abordagem sociointeracionista de Vigotski, ao enfatizar que o desenvolvimento ocorre por meio da interação social e da mediação cultural. Para estudantes com NEE, a convivência em ambientes heterogêneos amplia possibilidades de aprendizagem, desde que haja suporte adequado.
1.2. Legislação e diretrizes para inclusão e autonomia
As políticas públicas brasileiras determinam que a educação inclusiva deve garantir: acesso; participação; aprendizagem; desenvolvimento; apoio especializado. Ao tratar sobre autonomia, documentos como a BNCC reforçam competências gerais relacionadas à autorregulação, ao pensamento crítico, à argumentação, à responsabilidade e ao protagonismo. Isso evidencia que a autonomia deve ser desenvolvida por todos os alunos, com ou sem NEE, respeitando ritmos, necessidades e singularidades.
1.3. Autonomia como construção social, cognitiva e emocional
A autonomia não é algo dado, mas construído gradualmente. Envolve dimensões:
Cognitiva: capacidade de resolver problemas, tomar decisões e organizar estratégias.
Social: participação em grupos, colaboração e iniciativa.
Emocional: autoconfiança, controle emocional e resistência à frustração.
Comunicacional: expressão de desejos, necessidades e pensamentos.
Para estudantes com NEE, a construção da autonomia requer pedagogia diferenciada, mediação intencional e apoio contínuo.
- Práticas Pedagógicas Inclusivas no Ensino Fundamental
Práticas pedagógicas inclusivas são aquelas que reconhecem a diversidade, respondem às diferenças e garantem condições adequadas de aprendizagem para todos. Elas vão além de adaptações isoladas; constituem um conjunto de estratégias que promovem participação ativa, engajamento e desenvolvimento integral.
2.1. Planejamento pedagógico flexível
Planejar de forma inclusiva requer compreender que a aprendizagem não ocorre de maneira homogênea e que cada estudante apresenta formas distintas de perceber, processar e expressar conhecimentos. Nesse sentido, a antecipação de barreiras é uma etapa essencial do planejamento pedagógico, pois permite ao professor prever obstáculos que possam impedir a participação plena de estudantes com Necessidades Educacionais Específicas (NEE). A antecipação não se restringe apenas à identificação de dificuldades individuais, mas implica analisar o contexto escolar, os materiais utilizados, os espaços, a linguagem, o ritmo das atividades e as formas de avaliação, considerando como cada um desses elementos pode favorecer ou limitar o acesso ao currículo. Assim, o foco desloca-se do estudante para o ambiente pedagógico: em vez de perguntar “qual é a deficiência do aluno?”, a perspectiva inclusiva convida a questionar “que barreiras o contexto cria e como podemos removê-las?”.
A flexibilização de objetivos é um dos pilares desse planejamento. Estabelecer metas únicas e rígidas para toda a turma tende a gerar exclusão, uma vez que não contempla os diferentes ritmos e modos de aprendizagem. Ao flexibilizar objetivos, o docente mantém o alinhamento com as habilidades gerais previstas no currículo, mas permite que cada estudante alcance esses objetivos de maneiras diversas e em níveis diferenciados de complexidade. Essa prática reconhece que o sucesso escolar não está necessariamente na uniformidade dos resultados, mas na progressão individual. Para estudantes com NEE, isso significa avançar considerando suas condições específicas, sem perder de vista sua capacidade de desenvolver autonomia e protagonismo no processo educativo.
A diversificação de materiais e recursos também é uma estratégia fundamental na perspectiva inclusiva. Apostar em diferentes linguagens — visual, auditiva, tátil, digital e oral — amplia as formas de acesso aos conteúdos e evita que a aprendizagem dependa exclusivamente de um único tipo de estímulo. Materiais adaptados, como textos ampliados, recursos audiovisuais, jogos pedagógicos, aplicativos de comunicação alternativa, materiais concretos ou atividades mediadas por tecnologia assistiva, tornam o processo mais democrático e engajante. Quando o estudante encontra, no ambiente escolar, instrumentos que conversam com suas necessidades e preferências, ele tende a agir de forma mais autônoma, pois não depende exclusivamente da intervenção do professor para compreender ou realizar tarefas. Da mesma forma, a adaptação de atividades é um procedimento que respeita o princípio da equidade. Em vez de exigir que todos executem a mesma tarefa da mesma maneira, adapta-se o percurso, o tempo, o nível de apoio, o formato ou a complexidade da atividade, mantendo o propósito pedagógico original. Essas adaptações não devem ser vistas como “favorecimento”, mas como ajustes necessários para garantir que cada estudante possa demonstrar seus conhecimentos e desenvolver competências de forma significativa. A possibilidade de realizar atividades que dialogam com suas competências reais fortalece a autoconfiança e incentiva o aluno a assumir maior responsabilidade sobre seu próprio processo de aprendizagem.
Outro elemento indispensável é a organização de diferentes formas de avaliação. A avaliação inclusiva abandona modelos padronizados e adota o princípio da multiplicidade: avaliar por observações, registros, produções orais, atividades práticas, portfólios, projetos, autoavaliação ou avaliações adaptadas. Essa perspectiva compreende que o desempenho do estudante não deve ser medido apenas pela escrita convencional ou por provas de tempo limitado, mas pela capacidade de mobilizar conhecimentos em contextos variados. Para estudantes com NEE, essa multiplicidade garante oportunidades reais de demonstrar avanço, valorizar esforços e reconhecer diferentes modos de expressão. Além disso, a avaliação inclusiva fornece informações fundamentais para o replanejamento docente, fortalecendo a construção de autonomia ao oferecer feedback claro, personalizado e orientado a metas alcançáveis. O planejamento flexível, portanto, é um instrumento que torna a sala de aula mais responsiva às particularidades de cada estudante. Ao criar opções de acesso, participação e expressão, o professor transforma a experiência educativa em um processo orientado para a autonomia. Os estudantes passam a fazer escolhas — como qual material utilizar, qual estratégia seguir ou como apresentar suas produções e isso amplia sua capacidade de autorregulação, resolução de problemas e tomada de decisões. A autonomia, nesse contexto, não é entendida como independência total, mas como a habilidade de agir com apoio adequado, gradualmente transferindo para si parte do controle sobre a própria aprendizagem. Por fim, um planejamento inclusivo não é fixo; ele demanda constante revisão e sensibilidade para acolher as necessidades emergentes da turma. Trata-se de um processo dinâmico, baseado no diálogo, na observação e na construção coletiva, no qual o professor atua como mediador e designer de experiências de aprendizagem. Quando essas práticas se consolidam, a escola deixa de ser um espaço que adapta o estudante ao currículo e passa a ser um ambiente que adapta o currículo aos estudantes — e é exatamente nessa mudança que a autonomia floresce.
2.2. Adaptações curriculares e acessibilidade pedagógica
As adaptações curriculares podem ser:
não significativas (ajustes de materiais, tempo, métodos);
significativas (alterações nos conteúdos essenciais).
Essas adaptações asseguram que o aluno tenha acesso ao currículo de forma adequada. Quando o estudante percebe que consegue realizar tarefas, mesmo que por caminhos personalizados, desenvolve autoconfiança e autonomia.
2.3. Mediação docente qualitativa
A mediação docente qualitativa constitui um dos pilares fundamentais para a efetivação da inclusão escolar, especialmente no trabalho com estudantes que apresentam Necessidades Educacionais Específicas. O papel do professor, nesse contexto, transcende a simples transmissão de conteúdos e assume uma dimensão relacional, ética e pedagógica, em que o vínculo torna-se instrumento potente de aprendizagem. Estabelecer vínculos sólidos e respeitosos permite que o estudante se sinta seguro, acolhido e pertencente ao ambiente escolar, condição indispensável para que a autonomia possa se desenvolver de maneira saudável e progressiva. Esse vínculo não se resume à afetividade, mas envolve atenção às singularidades, escuta sensível e construção de um clima que valorize a diversidade como parte essencial do processo educativo.
Compreender necessidades e potencialidades é outra dimensão da mediação qualitativa. Isso exige que o professor vá além dos diagnósticos e das dificuldades aparentes, buscando identificar habilidades latentes, modos de expressão e a forma como cada estudante interage com o conhecimento. Ao reconhecer competências, mesmo que sutis, o docente fortalece a autoestima do aluno e cria oportunidades para que ele participe ativamente das atividades escolares. Essa compreensão amplia a visão do professor, que passa a ajustar expectativas, propor desafios adequados e favorecer situações em que o estudante se perceba capaz de avançar.
Intervir no momento adequado é uma habilidade que distingue a mediação intencional da intervenção assistencialista. A mediação inclusiva entende que intervenções excessivas podem restringir a autonomia, enquanto intervenções tardias podem gerar frustração. Assim, o professor precisa calibrar seus apoios: observar, esperar, encorajar e intervir de forma estratégica. Esse equilíbrio é o que permite ao estudante enfrentar desafios, experimentar tentativas e erros e, pouco a pouco, desenvolver repertórios próprios de resolução de problemas. O tempo da aprendizagem precisa ser respeitado, e a mediação adequada transforma o que poderia ser obstáculo em oportunidade de crescimento.
Estimular o protagonismo é um princípio central da educação inclusiva e encontra, na mediação docente, uma de suas principais vias de concretização. O protagonismo implica oferecer ao estudante oportunidades reais de escolha, participação e tomada de decisão dentro das atividades escolares. Ao promover protagonismo, o professor permite que o estudante assuma responsabilidade sobre sua aprendizagem, escolha materiais, decida estratégias e manifeste preferências. Essa postura rompe com modelos pedagógicos tradicionais, nos quais o aluno com NEE é visto apenas como receptor de cuidados, e passa a reconhecê-lo como sujeito ativo, competente e capaz.
Evitar a superproteção é igualmente relevante, pois a intenção de ajudar, quando exagerada, pode limitar o desenvolvimento de habilidades fundamentais para a autonomia. A superproteção impede que o aluno enfrente desafios necessários e experimente situações que o ajudam a amadurecer academicamente e emocionalmente. O professor que pratica uma mediação qualitativa compreende que apoiar não significa fazer pelo estudante, mas criar condições para que ele faça por si, ainda que com apoio gradual e ajustado à sua realidade.
Além disso, fomentar resiliência é uma das contribuições mais significativas da mediação docente na educação inclusiva. A resiliência, entendida como a capacidade de lidar com dificuldades, superar frustrações e persistir diante de desafios, é fortalecida quando o estudante é exposto a situações que valorizam suas conquistas e reconhecem seus esforços. Na mediação qualitativa, o professor não minimiza as dificuldades, mas as ressignifica como oportunidades de aprendizagem. Ao receber apoio emocional, orientações claras e encorajamento, o estudante aprende a enfrentar obstáculos com maior segurança e perseverança.
A mediação intencional, portanto, transforma dificuldades em oportunidades de aprendizagem ao oferecer suporte planejado, promover reflexões e desenvolver habilidades socioemocionais. Esse processo contribui significativamente para a construção da autonomia, que se desenvolve gradualmente na medida em que o estudante aprende a confiar em suas capacidades, utilizar estratégias próprias e assumir papel ativo no processo educativo. Assim, a mediação docente qualitativa não apenas favorece o desenvolvimento acadêmico, mas também sustenta a formação integral do estudante, permitindo que ele avance com dignidade, autoconfiança e participação plena na vida escolar.
2.4. Metodologias ativas como instrumentos de inclusão
Metodologias ativas, como Aprendizagem Baseada em Projetos, Aprendizagem Cooperativa, rotação por estações, gamificação e sala de aula invertida, possibilitam participação efetiva dos estudantes com NEE. Essas metodologias: valorizam experiências; favorecem trabalho em grupo; permitem resolução de problemas; fortalecem liderança; desenvolvem autorregulação. Quando o aluno tem voz e reconhece seu papel no processo, a autonomia se expande.
2.5. Uso de Tecnologias Assistivas
As tecnologias assistivas incluem: softwares leitores de tela; teclados ampliados; pranchas de comunicação; objetos sensoriais; dispositivos adaptados de escrita. Esses recursos removem barreiras e favorecem independência, ampliando a autonomia de estudantes com deficiência visual, intelectual, motora, TEA e outras necessidades.
2.6. Ensino colaborativo (co-teaching)
O ensino colaborativo ocorre quando o professor da sala comum e o professor do Atendimento Educacional Especializado planejam e executam atividades conjuntamente. Essa prática: promove atendimento contínuo; reduz barreiras pedagógicas; fortalece intervenções personalizadas; favorece autonomia, pois o aluno recebe apoio no contexto real de aprendizagem.
- Desenvolvimento da Autonomia em Estudantes com NEE
3.1. Autonomia cognitiva
A autonomia cognitiva envolve: resolução de problemas; tomada de decisão; organização de estratégias; autorregulação. Práticas inclusivas contribuem por meio de: desafios graduados; apoio pedagógico progressivo; atividades investigativas; uso de pistas visuais e organizadores gráficos. Essas estratégias permitem que o estudante internalize formas próprias de aprender.
3.2. Autonomia social
A inclusão promove interações significativas, como: trabalho em grupos; rodas de conversa; projetos colaborativos; participação em atividades coletivas. Para estudantes com TEA, deficiência intelectual ou transtornos de comunicação, isso é essencial. Ao assumir papéis em grupos, tomar decisões conjuntas e negociar ideias, a autonomia social se fortalece.
3.3. Autonomia emocional
A autonomia emocional está diretamente vinculada à capacidade do aluno de lidar com frustrações, mudanças, desafios e responsabilidades, elementos essenciais para seu desenvolvimento integral. Para fortalecer essa autonomia, é fundamental implementar práticas pedagógicas intencionais, como a mediação afetiva, que oferece apoio e acolhimento diante das dificuldades; rotinas estruturadas, que garantem previsibilidade e diminuem a ansiedade; contratos pedagógicos, que estabelecem combinados claros e favorecem a corresponsabilidade; reforço positivo, que valoriza conquistas e motiva avanços; e espaços de escuta, que permitem ao estudante expressar sentimentos, dúvidas e necessidades. Essas estratégias, articuladas no cotidiano escolar, criam um ambiente seguro e acolhedor, proporcionando ao aluno a confiança necessária para se arriscar, enfrentar novos aprendizados e desenvolver sua autonomia emocional de maneira progressiva e significativa.
3.4. Autonomia comunicacional
A comunicação é uma dimensão central no processo de desenvolvimento da autonomia, especialmente para estudantes não verbais ou com dificuldades de linguagem. O uso de recursos como a comunicação alternativa e ampliada (CAA), cartões visuais, aplicativos de comunicação e rodas de diálogo amplia significativamente as possibilidades de expressão e participação desses alunos. Por meio dessas estratégias, eles podem manifestar escolhas, desejos, opiniões e necessidades, fortalecendo sua presença ativa no cotidiano escolar. Ao garantir meios acessíveis e funcionais de comunicação, a escola promove inclusão, respeito à singularidade e, sobretudo, oferece as condições necessárias para que cada estudante construa uma autonomia real, exercendo sua voz e sua identidade de forma plena.
- O Papel da Escola na Construção da Autonomia
4.1. Cultura institucional inclusiva
Uma cultura institucional inclusiva é fundamental para a promoção da autonomia dos estudantes. Em uma escola verdadeiramente inclusiva, a diversidade é valorizada, os preconceitos são combatidos e a formação continuada dos profissionais é assegurada como prática permanente. Nesse ambiente, a empatia e o respeito orientam as relações, criando um espaço seguro para que todos possam tomar decisões, errar, aprender e avançar. Quando a instituição se compromete coletivamente com esses princípios, os alunos se sentem amparados, confiantes e reconhecidos em suas singularidades. Assim, a autonomia não surge isoladamente, mas floresce em um contexto de apoio mútuo, diálogo e pertencimento, no qual cada indivíduo encontra condições reais para se desenvolver de forma plena e significativa.
4.2. Gestão escolar e políticas internas
A gestão escolar desempenha papel decisivo na construção de uma escola que favorece a autonomia dos alunos com Necessidades Educacionais Específicas (NEE). O gestor, ao garantir recursos adequados, assegura que materiais, tecnologias assistivas e apoios especializados estejam disponíveis para atender às demandas reais dos estudantes. Além disso, ao articular parcerias com serviços de saúde, redes de apoio e instituições especializadas, amplia as possibilidades de acompanhamento e intervenção qualificada. O monitoramento constante das práticas pedagógicas e o incentivo ao planejamento interdisciplinar fortalecem uma atuação integrada entre profissionais, promovendo intervenções mais coerentes e efetivas. A criação e manutenção de protocolos inclusivos orientam a comunidade escolar, oferecendo clareza sobre procedimentos e responsabilidades. Dessa forma, a gestão contribui diretamente para um ambiente escolar mais organizado, acolhedor e preparado, no qual a autonomia dos alunos com NEE pode se desenvolver com segurança, suporte e intencionalidade.
4.3. Família como parceira
A participação da família como parceira é fundamental para o desenvolvimento da autonomia de estudantes com NEE, pois o processo não se constrói apenas no ambiente escolar, mas também no cotidiano do lar. Para que o aluno avance com segurança e consistência, é necessário que família e escola mantenham um diálogo aberto e contínuo, alinhando expectativas, estratégias e formas de apoio. Esse alinhamento é essencial para evitar tanto a superproteção, que limita experiências e impede que a criança desenvolva iniciativas próprias, quanto a cobrança excessiva, que pode gerar ansiedade e comprometer sua autoconfiança. Quando ambos os ambientes trabalham de maneira coerente e colaborativa, respeitando o ritmo e as necessidades individuais do estudante, criam condições favoráveis para que ele exercite escolhas, assuma pequenas responsabilidades e fortaleça progressivamente sua autonomia.
- Desafios para o Desenvolvimento da Autonomia
Apesar dos avanços nas práticas inclusivas, o desenvolvimento da autonomia dos estudantes ainda enfrenta diversos desafios significativos. A formação insuficiente de professores limita a capacidade de identificar estratégias adequadas e de compreender as necessidades específicas de cada aluno. A falta de recursos, aliada a turmas numerosas e à presença de barreiras arquitetônicas, compromete a oferta de apoios adequados e a participação plena dos estudantes com deficiência. Somam-se a isso concepções equivocadas sobre deficiência e o excesso de dependência gerada por auxiliares mal orientados, que, embora desejem ajudar, muitas vezes acabam reforçando a passividade e restringindo a iniciativa do aluno. O preconceito e o estigma também interferem diretamente, influenciando expectativas e reduzindo oportunidades de protagonismo. Contudo, o maior obstáculo permanece sendo a cultura escolar tradicional, pautada na homogeneização e na mera transmissão de conteúdos, o que contraria princípios fundamentais de autonomia. Superar esses desafios exige mudança de mentalidade, investimento contínuo e compromisso coletivo com uma educação que realmente reconheça e valorize a singularidade de cada estudante.
Considerações Finais
O desenvolvimento da autonomia de estudantes com Necessidades Educacionais Específicas no Ensino Fundamental é um processo complexo que envolve dimensões pedagógicas, sociais, emocionais e institucionais. As práticas pedagógicas inclusivas, quando implementadas com intencionalidade e fundamentação teórica, têm potencial para transformar experiências escolares, possibilitando que cada estudante desenvolva habilidades essenciais à vida em sociedade.
Ao analisar a relação entre práticas inclusivas e autonomia, este estudo evidenciou que flexibilização curricular, metodologias ativas, mediação qualificada, uso de tecnologias assistivas, ensino colaborativo e cultura escolar inclusiva são estratégias eficazes na promoção do protagonismo e da independência dos estudantes. Tais práticas respeitam a singularidade de cada criança e oferecem oportunidades reais de participação, expressão, escolha e resolução de problemas.
Contudo, para que esses avanços se concretizem, é fundamental que sistemas educacionais invistam em formação continuada, recursos adequados e políticas institucionais que combatam barreiras e preconceitos. O direito à autonomia é parte do direito à educação, e sua garantia depende de esforços coletivos, comprometimento ético e visão de futuro.
Assim, reforça-se que o desenvolvimento da autonomia de estudantes com NEE não é um objetivo secundário, mas um princípio estruturante da educação inclusiva. Construir ambientes que promovam autonomia significa construir escolas mais humanas, democráticas e sensíveis às diferenças — condição indispensável para o fortalecimento de uma educação verdadeiramente inclusiva.
Referências
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