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A influência das metodologias ativas no desenvolvimento das competências de leitura e escrita nos anos iniciais do Ensino Fundamental

Maria José Souza dos Santos

Sidinéia da Silva Biazoto

 

DOI:10.5281/zenodo.17705340

 

 

RESUMO

A revisão teórica abrange perspectivas construtivistas, sociointeracionistas e sócio-históricas, relacionando-as às práticas didáticas inovadoras adotadas em escolas brasileiras. A análise evidencia que metodologias ativas contribuem para o desenvolvimento das competências de decodificação, fluência, compreensão leitora, produção escrita e consciência O presente artigo analisa a influência das metodologias ativas no desenvolvimento das competências de leitura e escrita nos anos iniciais do Ensino Fundamental, considerando o cenário contemporâneo em que a formação leitora e escritora exige abordagens pedagógicas capazes de promover autonomia, protagonismo e engajamento dos estudantes. Partindo da concepção de alfabetização articulada ao letramento, discute-se o papel das metodologias ativas — tais como aprendizagem baseada em projetos, rotação por estações, sala de aula invertida, gamificação e aprendizagem colaborativa, como estratégias que potencializam a participação dos alunos no processo de construção do conhecimentofonológica, ao criar situações reais de uso da linguagem e ampliar oportunidades de interação dialógica. Conclui-se que, embora seu impacto seja positivo, sua eficácia depende de planejamento pedagógico consistente, formação docente continuada, intencionalidade didática e integração entre recursos digitais e práticas tradicionais. O estudo reforça a necessidade de repensar a organização curricular e a prática escolar, de modo a garantir oportunidades de aprendizagem significativa para crianças em processo de alfabetização.

 

Palavras-chave: Alfabetização. Metodologias ativas. Letramento. Anos iniciais. Leitura e escrita.

 

 

Introdução

 

A alfabetização constitui um dos pilares fundamentais da educação básica e representa o ponto de partida para o desenvolvimento pleno das competências comunicativas, cognitivas e sociais das crianças. Nos anos iniciais do Ensino Fundamental, ler e escrever ultrapassam o domínio de códigos linguísticos, abrangendo a compreensão da função social da linguagem, a capacidade de interpretar e produzir textos e o desenvolvimento de habilidades críticas necessárias para a participação ativa na sociedade contemporânea. Nesse contexto, as metodologias tradicionais de ensino, centradas na transmissão de conteúdo, vêm sendo questionadas por apresentarem limitações na promoção do protagonismo estudantil e na construção de aprendizagens significativas.

As metodologias ativas emergem como alternativas pedagógicas que valorizam a participação do estudante como agente de sua própria aprendizagem, estimulando práticas colaborativas, investigativas e reflexivas. Tais abordagens convergem com as demandas atuais da alfabetização, que exige não apenas a decodificação mecânica de palavras, mas a compreensão de textos em diferentes suportes, o desenvolvimento do pensamento crítico e a capacidade de atuar de forma criativa em situações comunicativas.

Este artigo busca analisar de que maneira as metodologias ativas influenciam o desenvolvimento das competências de leitura e escrita nos anos iniciais do Ensino Fundamental. A partir de uma revisão teórica, discute-se como essas abordagens contribuem para práticas alfabetizadoras mais contextualizadas, dialogadas e alinhadas às necessidades dos estudantes. Explorando os princípios das metodologias ativas e articulando-os às dimensões da alfabetização e do letramento, o estudo procura oferecer subsídios teóricos e práticos para professores, gestores e pesquisadores da área da Educação.

 

 

  1. Alfabetização e Letramento: Fundamentos Teóricos e Demandas Contemporâneas

 

A alfabetização, historicamente compreendida como o ensino do sistema de escrita alfabética, ampliou-se conceitualmente com o avanço das pesquisas sobre linguagem e aprendizagem. A concepção contemporânea integra alfabetização e letramento, reconhecendo que aprender a ler e escrever implica tanto dominar o código quanto saber utilizá-lo em práticas sociais significativas.

Do ponto de vista do desenvolvimento cognitivo, a alfabetização envolve habilidades como consciência fonológica, fluência leitora, decodificação, compreensão de textos e produção escrita. A interação entre essas dimensões é fundamental para que a criança se torne leitora e escritora competente. Pesquisas apoiadas em perspectivas construtivistas e sociointeracionistas destacam a importância da participação ativa do estudante, da interação com pares e adultos e da exposição a diferentes gêneros textuais desde os primeiros anos escolares.

Nesse cenário, ensinar a ler e escrever exige práticas pedagógicas que ofereçam desafios cognitivos adequados, mediação qualificada e oportunidades de uso real da linguagem. A escola contemporânea, contudo, enfrenta o desafio de lidar com contextos de desigualdade, heterogeneidade de níveis de aprendizagem e crescente influência das tecnologias digitais na vida das crianças. Tais fatores intensificam a necessidade de metodologias que tornem o ensino mais dinâmico, inclusivo e conectado às vivências dos estudantes.

A adoção de metodologias ativas, portanto, aparece como caminho estratégico para atender às demandas atuais da alfabetização, estimulando autonomia, interação e reflexão — elementos essenciais para o desenvolvimento das competências de leitura e escrita.

 

 

  1. Metodologias Ativas: Princípios, Concepções e Aplicações na Alfabetização

 

As metodologias ativas são abordagens pedagógicas que atribuem ao estudante papel central em seu processo de aprendizagem. Em vez de receber passivamente informações, a criança é convidada a investigar, construir, experimentar e colaborar, mobilizando conhecimentos prévios e desenvolvendo novas competências. Embora existam diferentes variações dessas metodologias, todas compartilham princípios comuns: protagonismo discente, resolução de problemas, contextualização das atividades, interação social e uso de situações reais de aprendizagem.

Nos anos iniciais, as metodologias ativas assumem formas ajustadas às características cognitivas e socioemocionais das crianças. Entre as mais utilizadas estão a aprendizagem baseada em projetos, a rotação por estações, a sala de aula invertida, a gamificação e as práticas colaborativas. Cada uma delas potencializa dimensões específicas da leitura e da escrita, oferecendo experiências diversificadas e estimulantes.

A adoção dessas metodologias tem sido crescente em escolas brasileiras, impulsionada por programas de inovação pedagógica, políticas públicas de formação docente e estudos que demonstram seu impacto positivo na aprendizagem. Na alfabetização, tais abordagens contribuem para desenvolver habilidades linguísticas de maneira integrada, permitindo que as crianças leiam, escrevam, falem e ouçam em contextos autênticos. A seguir, analisam-se algumas das principais metodologias e sua relação com o desenvolvimento das competências leitoras e escritoras.

 

2.1. Aprendizagem Baseada em Projetos (ABP) e o Fortalecimento das Práticas de Linguagem

A aprendizagem baseada em projetos propõe que os estudantes investiguem problemas reais, formulem hipóteses, busquem informações e produzam resultados concretos. Na alfabetização, projetos envolvendo leitura de histórias, produção de livros, criação de listas, cartazes e registros de pesquisa permitem que a criança utilize a linguagem escrita como ferramenta social.

A ABP favorece a compreensão leitora ao exigir que os alunos busquem informações em textos diversos, interpretem conteúdos e comuniquem descobertas. Além disso, promove a escrita funcional, pois os textos produzidos nos projetos possuem finalidade real — comunicar, registrar, divulgar ou argumentar. Esse uso social da escrita contribui para ampliar a consciência sobre os gêneros textuais e desenvolver competências discursivas.

Outro aspecto relevante é o engajamento emocional. Projetos bem planejados estimulam curiosidade, senso de pertencimento e motivação intrínseca, elementos essenciais para que as crianças se envolvam com práticas de leitura e escrita no cotidiano escolar. Assim, a ABP demonstra grande potencial para aproximar alfabetização e letramento por meio de situações significativas.

 

2.2. Rotação por Estações e a Personalização da Aprendizagem

A rotação por estações organiza a sala em diferentes espaços de aprendizagem, nos quais os alunos realizam atividades variadas, envolvendo leitura, escrita, jogos fonológicos, tecnologia digital e práticas colaborativas. Essa metodologia permite abordar conteúdos de modo diversificado e atender a diferentes ritmos de aprendizagem.

Para a alfabetização, a rotação por estações é particularmente eficaz porque favorece a repetição qualificada e o treino sistemático de habilidades essenciais, como: reconhecimento de letras e sons; formação de sílabas; leitura de palavras; escrita espontânea; compreensão de pequenos textos; jogos de segmentação e rima.

Essa organização melhora a fluência e a precisão leitora, além de estimular a autonomia, pois os estudantes aprendem a gerenciar tempo, acompanhar instruções e monitorar o próprio progresso.

Outro ponto fundamental é a mediação pedagógica. Ao circular entre as estações, o professor observa dificuldades individuais, intervém pontualmente e registra avanços, garantindo acompanhamento personalizado. Isso é especialmente relevante em turmas heterogêneas, nas quais alguns alunos necessitam de apoio diferenciado.

 

2.3. Sala de Aula Invertida: Integração entre Espaço Escolar e Vivências de Casa

A sala de aula invertida propõe que parte do contato inicial com conteúdo ocorra em casa, por meio de vídeos, histórias contadas, atividades de exploração textual ou leitura compartilhada com a família. Na escola, o tempo é dedicado a atividades práticas, como análise de textos, produção escrita e discussões coletivas.

Na alfabetização, essa metodologia pode assumir formas adaptadas, considerando que alunos dos anos iniciais ainda dependem do apoio de adultos. Professores podem enviar pequenas histórias em áudio, vídeos curtos de leitura de palavras ou desafios linguísticos simples que as crianças realizam com familiares. Ao retornar à sala de aula, os estudantes aplicam o que exploraram previamente.

Essa abordagem favorece: desenvolvimento da consciência fonológica, ao reforçar sons e palavras; ampliação do vocabulário; aproximação entre práticas escolares e familiares; maior engajamento nas atividades presenciais.

A sala de aula invertida amplia o tempo de exposição à linguagem escrita e fortalece a compreensão leitora, pois permite que as crianças cheguem à escola com repertório prévio para aprofundamento.

 

2.4. Gamificação e o Estímulo ao Engajamento na Leitura e Escrita

A gamificação utiliza elementos de jogos — desafios, recompensas, níveis, cooperação — para tornar as atividades mais motivadoras. Em alfabetização, jogos digitais e analógicos podem reforçar habilidades como consciência fonológica, formação de palavras, identificação de letras, leitura de frases e produção de pequenos textos. Entre os benefícios da gamificação destacam-se: aumento da motivação e da persistência; desenvolvimento de estratégias de resolução de problemas; prática intensiva e prazerosa de habilidades linguísticas; feedback imediato; participação colaborativa. Jogos que envolvem sequência lógica, interpretação de instruções, identificação de personagens e elementos narrativos contribuem significativamente para o desenvolvimento da compreensão leitora. Da mesma forma, jogos de criação narrativa estimulam a escrita criativa e ampliam a habilidade de organizar ideias.

 

2.5. Aprendizagem Colaborativa e a Construção Coletiva de Sentidos

A aprendizagem colaborativa favorece interação, diálogo e cooperação entre os estudantes, elementos centrais para o desenvolvimento da linguagem. Ao ler, discutir e produzir textos em pequenos grupos, as crianças constroem significados coletivamente e aprendem a negociar ideias.

Essa abordagem reforça competências como: argumentação; escuta ativa; reconstrução de textos; interpretação colaborativa de histórias; revisão e reescrita conjunta. O papel do professor é fundamental como mediador, estimulando perguntas, esclarecendo dúvidas, sugerindo estratégias de leitura e incentivando a troca entre pares. A aprendizagem colaborativa potencializa o desenvolvimento da leitura e escrita ao criar um ambiente rico em interações significativas.

 

 

  1. Desenvolvimento das Competências de Leitura e Escrita sob a Perspectiva das Metodologias Ativas

 

As competências de leitura e escrita envolvem dimensões interligadas, como decodificação, fluência, compreensão, produção textual e uso social da linguagem. As metodologias ativas contribuem para desenvolver essas capacidades de maneira articulada.

 

3.1. Consciência Fonológica e Domínio do Sistema de Escrita

A consciência fonológica é uma das bases da alfabetização. Práticas como jogos de rimas, segmentação silábica, identificação de sons iniciais e finais e manipulação de fonemas são fundamentais para o avanço das crianças. As metodologias ativas potencializam essas atividades ao torná-las lúdicas e contextualizadas.

A rotação por estações, por exemplo, permite incluir jogos fonológicos em diferentes formatos, mantendo o engajamento do aluno. Já a gamificação oferece feedback imediato, favorecendo a internalização de padrões sonoros. A aprendizagem colaborativa contribui para que as crianças discutam sons, palavras e estruturas silábicas entre si, reforçando a percepção auditiva e a compreensão do funcionamento da escrita.

 

3.2. Fluência e Compreensão Leitora

A fluência leitora, caracterizada pela precisão, velocidade e prosódia adequada, é desenvolvida por meio de atividades de leitura repetida, leitura compartilhada, contação de histórias e atividades interpretativas. As metodologias ativas ampliam esse processo ao envolver os alunos em práticas diversificadas que exigem leitura frequente.

Projetos de leitura, por exemplo, estimulam os estudantes a buscar informações em diferentes textos, promovendo fluência e compreensão ao mesmo tempo. A sala de aula invertida possibilita que as crianças tenham contato prévio com textos, tornando a leitura em sala de aula mais fluida. A aprendizagem colaborativa incentiva discussões que aprofundam a compreensão textual, permitindo que as crianças construam significados em conjunto.

Além disso, atividades gamificadas, como desafios de leitura, melhoram a fluência ao promover treino sistemático de forma motivadora.

 

3.3. Produção Escrita e Desenvolvimento da Autoria Infantil

A escrita é uma prática complexa que envolve planejamento, organização de ideias, domínio do sistema ortográfico e revisão. As metodologias ativas oferecem contextos autênticos para a produção de textos, favorecendo o desenvolvimento da autoria infantil.

Na ABP, a escrita adquire sentido social, pois os textos são produzidos para divulgar descobertas, instruir colegas ou apresentar resultados de pesquisas. A gamificação pode aproximar a escrita da narrativa, permitindo a criação de personagens e aventuras. A sala de aula invertida amplia o tempo dedicado à escrita na escola, pois o estudo prévio libera momentos para a produção textual.

Ao produzir textos em duplas ou grupos, na perspectiva colaborativa, as crianças aprendem a revisar, reescrever e aprimorar seu trabalho, desenvolvendo competências metalinguísticas essenciais.

 

3.4. Vocabulário, Oralidade e Multiletramentos

A linguagem oral é base para o desenvolvimento da escrita e leitura. Metodologias ativas favorecem práticas orais significativas, como apresentações, dramatizações, debates e contação de histórias. Tais atividades ampliam o vocabulário e promovem maior consciência sobre os usos da língua.

Outro aspecto relevante é a presença dos multiletramentos. Crianças dos anos iniciais estão imersas em textos digitais, audiovisuais e multimodais. As metodologias ativas, ao envolver tecnologias, preparam os estudantes para ler e escrever em diferentes linguagens, desenvolvendo competências essenciais à sociedade contemporânea.

 

 

  1. Desafios e Possibilidades da Implementação das Metodologias Ativas no Contexto da Alfabetização

 

Apesar dos benefícios, a implementação das metodologias ativas enfrenta desafios. Entre eles: necessidade de formação docente continuada; resistência a mudanças na prática pedagógica; limitação de tempo e infraestrutura; turmas numerosas; falta de recursos tecnológicos; dificuldade de planejamento colaborativo entre professores. Por outro lado, há inúmeras possibilidades. Escolas que adotam metodologias ativas relatam maior engajamento dos estudantes, melhora nas habilidades de leitura e escrita e maior integração entre as áreas do conhecimento. A utilização de recursos simples, como jogos pedagógicos, textos variados, cartazes e materiais manipuláveis, permite implementar essas metodologias mesmo com infraestrutura limitada. A formação docente é um fator determinante. Professores capacitados compreendem que metodologias ativas não substituem práticas fundamentais da alfabetização, mas as enriquecem ao ampliar oportunidades de aprendizagem significativa.

 

 

Considerações Finais

 

A análise apresentada demonstra que as metodologias ativas exercem influência significativa no desenvolvimento das competências de leitura e escrita nos anos iniciais do Ensino Fundamental. Ao promover protagonismo, interação e contextualização, essas abordagens favorecem a construção de habilidades essenciais à alfabetização e ao letramento.

Entre os principais benefícios observados estão: melhoria da consciência fonológica, ampliação do vocabulário, maior fluência e compreensão leitora, desenvolvimento da autoria na escrita e intensificação das práticas discursivas. As metodologias ativas também contribuem para integrar tecnologias digitais e multiletramentos ao cotidiano escolar, preparando as crianças para desafios contemporâneos.

No entanto, para que seu uso seja eficaz, é necessário planejamento pedagógico cuidadoso, alinhado a objetivos claros de aprendizagem. A intencionalidade didática do professor, associada à formação continuada e ao apoio institucional, é elemento-chave para garantir a qualidade da implementação.

Em síntese, as metodologias ativas não representam solução única para os desafios da alfabetização, mas constituem caminhos potentes para ampliar a participação, o interesse e o desempenho das crianças na leitura e escrita. Sua adoção, integrada a práticas tradicionais e fundamentada em princípios pedagógicos consistentes, pode fortalecer significativamente o processo de alfabetização nos anos iniciais, contribuindo para a formação de leitores e escritores críticos, autônomos e criativos.

 

 

Referências Bibliográficas

 

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