O uso das tecnologias no ensino da língua portuguesa, práticas para sala de aula com alunos surdos
Simone de Oliveira Teodoro
Adriana de Oliveira Teodoro
Adriana da Silva
Elizângela Lacerda da Silva
Suelen do Sacramento Santos
Elisangela Maria dos Santos
Luciene de Oliveira Pinho Bulhões
RESUMO
Este estudo teve como objetivo, refletir sobre o benefício do uso das tecnologias digitais através de oficinas de Língua portuguesa no ensino aprendizagem de alunos surdos. Os sujeitos analisados foram 06 (seis) professores de Língua Portuguesa da Escola Municipal Papa João Paulo II de Sorriso/MT. Esta pesquisa teve abordagem exploratória, tendo como tipo de pesquisa o método quantus-quali, utilizando-se para seu desenvolvimento um questionário semiestruturado aplicado aos professores dos 8º anos de com perguntas fechadas (com intuito de verificar perfil, tecnologias existentes na escola e quais são usadas em sala) e um levantamento bibliográfico e, a qual utilizou-se trabalhos já publicados como livros, artigos, dissertações, teses, revistas, dentre outros, com o intuito de refletir acerca das contribuições que o uso das tecnologias digitais pode oferecer, ao ensino de Língua Portuguesa para alunos surdos. Para a realização da oficina escolheu-se apenas uma turma do 8º ano com o critério: ter aluno com surdez, que foi realizada antes da aplicação do questionário semiestruturado, com a finalidade de verificar a opinião dos professores após a prática em sala. Após a análise dos dados, constatou-se que mesmo que sejam insuficientes os recursos tecnológicos existente na escola, os professores se apropriam dele para melhorar a qualidade de suas aulas, permitindo aos alunos surdos expressarem seus conhecimentos prévios e para que isso seja possível é preciso que o professor se disponha a inserir essas tecnologias em seu planejamento. O uso de ferramentas tecnológicas pode facilitar a interação e a troca de informações entre o professor e o aluno.
Palavras-chave: Tecnologias Digitais. Ensino de Língua Portuguesa. Alunos surdos.
1 INTRODUÇÃO
Libras é uma língua brasileira de sinais reconhecida pela Lei 10.436/2002 como meio de comunicação e expressão e regulamentada pelo Decreto 5.626/2005. É a língua natural/nativa dos surdos brasileiros e sua modalidade é visual-espacial, o que permite a inclusão do sujeito surdo por meio desta língua. Portanto, uma escola comum torna-se inclusiva quando acolhe as diferenças dos alunos por meio do processo educacional, buscando assim a participação efetiva e a evolução de todos os alunos, sempre inovando em suas práticas pedagógicas, porém, sabemos que esta não é uma tarefa fácil, pois exige a adoção de medidas e novos procedimentos, que posteriormente geram mudanças que extrapolam os muros da escola (FRANCO E SCHUTZ, 2019).
No cotidiano escolar, a educação inclusiva tem exigido dos educadores um planejamento mais amplo de estratégias de ensino com o desenvolvimento de ferramentas para atender os alunos especiais de acordo com suas necessidades. Não poderia ser diferente para os alunos surdos. Apesar de terem a Libras como seu principal meio de comunicação, há a necessidade de agilizar ferramentas e metodologias para potencializar ainda mais o aprendizado do aluno surdo e sua interação com o aluno ouvinte.
Diante desse cenário, questionamos: “Como a utilização de tecnologias digitais através de oficinas pode auxiliar no ensino de Língua Portuguesa para alunos surdos? Autores como Koch (2001), Franco e Schutz (2019), Fernandes (2010) e Miranda et al. (2017) serão utilizados para fundamentar e responder essa questão ao longo da pesquisa, enriquecendo a construção da mesma.
Pensando nisso, este trabalho propõe a realização de práticas voltadas para o ensino de Língua Portuguesa utilizando as tecnologias digitais como metodologia proposta, voltada para professores de escolas em que o aluno surdo está integrado. O objetivo geral desta pesquisa é refletir sobre o benefício do uso das tecnologias digitais através de oficinas de Língua portuguesa no ensino aprendizagem de alunos surdos. Complementado pelos objetivos específicos: a) Compreender o ensino de Libras; b) Descrever os benefícios do uso de tecnologias digitais no ensino de Língua Portuguesa; c) Elaborar oficinas usando tecnologias digitais como metodologia para ensino e aprendizagem de alunos surdos. O tema é de interesse para a sociedade pela necessidade de uma investigação acerca do uso das tecnologias digitais no processo de ensino e aprendizagem da língua Portuguesa para salas de aulas com alunos surdos.
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1 CARACTERIZANDO A SURDEZ
Deficiência Auditiva: consiste na perda parcial ou total da capacidade de detectar sons, causada por má-formação (causa genética), lesão na orelha ou na composição do aparelho auditivo.
Surdez: é considerado surdo todo aquele que tem total ausência da audição, ou seja, que não ouve nada. E é considerado parcialmente surdo todo aquele que a capacidade de ouvir, apesar de deficiente, é funcional com ou sem prótese auditiva. Entre os tipos de deficiência auditiva estão a condutiva, mista, neurossensorial e central.
É notório que ao longo dos anos os surdos foram excluídos dos processos sociais e automaticamente isolados. Perderam o poder de decisão sobre suas próprias vidas, foram vistos com pena e como uma anormalidade da natureza, assombrados pela história desde a Idade Média.
A surdez pode se manifestar de duas maneiras: a congênita e a adquirida; a congênita é quando acontece na gestação, através do uso de alguns medicamentos, principalmente os ototóxicos, que servem para o tratamento de doenças como: sífilis, herpes, diabetes, sarampo, pressão alta e toxoplasmose, também por exposição à radiação, problemas no parto, infecções hospitalares, motivos hereditários, nascimento antes do tempo e falta de oxigenação na hora do parto.
A integração do surdo na sociedade ouvinte se faz necessária devido a esse fato, desde 1970 busca-se a socialização no ensino regular para a construção de uma identidade. A inclusão de surdos no ensino regular foi aprovada pela Lei nº 10.436, (BRASIL, 2002) e o Decreto nº 5.626, (BRASIL, 2005), garantindo aos surdos o direito de frequentar uma escola de ouvintes, que regulamenta a inclusão de alunos surdos, o que deve ser feito com o apoio de professores bilíngues na educação infantil, na 1ª e 2ª fase do ensino básico e secundário com intérpretes de língua gestual.
A Constituição Federal de 1988, no Capítulo II, artigo 208, inciso III, estabelece que é dever do Estado com a educação garantir atendimento educacional especializado às pessoas com deficiência, especialmente na rede regular de ensino. As pessoas surdas são prejudicadas no processo social, onde as dificuldades que encontram na comunicação dependem do grau de deficiência auditiva, de suas habilidades de linguagem, do ganho protético que obtiveram ao longo da vida (BRASIL, 1988).
Na história da educação de surdos, o oralismo durou mais de 100 anos, depois houve a comunicação total, que impedia o uso de qualquer fonte para transmitir a mensagem, dando origem ao bilinguismo. O oralismo centra-se na integração do surdo na comunidade ouvinte de forma a desenvolver a fala, a surdez é vista como uma deficiência que deve ser reduzida através da estimulação auditiva, do auxílio na aprendizagem da língua e da sua entrada social no mundo ouvinte, canalizando um padrão assumido de normalidade e ensino de língua que não seja a língua materna.
A doença é facilmente diagnosticada, depende da observação dos pais sobre a reação das crianças aos sons, mas em caso de dúvida sobre a doença, deve-se procurar rapidamente a ajuda de especialistas como otorrinolaringologia e fonoaudiologia para o correto laudo. A prevenção é a melhor forma de evitar a doença, uma alternativa segura para as mulheres é a vacinação contra a rubéola.
2.2 HISTÓRIA DA LIBRAS NO BRASIL
A línguas de sinais – é a língua utilizada pelas comunidades surdas, apresentam particularidades especificas das linguais naturais, sendo reconhecida como língua pela linguística, é visuais-espaciais.
A língua brasileira de sinais – Libras – é a Língua de Sinais de comunidades surdas brasileiras. Libras é a sigla para se referir a Língua Brasileira de Sinais, foi difundida pela Federação nacional de Educação e Interação de surdos – FENEIS. Língua fonte – é a língua que o intérprete ouve ou vê para então traduzir para a libras. Por ser uma língua oficial do Brasil, existem leis em vigor para garantir que as comunidades surdas a usem e a ensinem. A Lei nº 10.436 (BRASIL, 2002), que regulamenta a Língua Brasileira de Sinais, dispõe em seu artigo 1º que:
É reconhecida como meio legal de comunicação e expressão a Língua Brasileira de Sinais -Libras e outros recursos de expressão a ela associados.
Parágrafo único: Entende-se como Língua Brasileira de Sinais –Libras, a forma de comunicação e expressão, em que o sistema linguístico de natureza visual-motora, com estrutura gramatical própria, constitui um sistema linguístico de transmissão de ideias e fatos, oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil.
O decreto Lei nº 5.626 (BRASIL, 2005), que chancela a Lei supracitada, afirma em seu Artigo 2º:
Para os fins deste Decreto, considera-se pessoa surda aquela que, por ter perda auditiva, compreende e interage com o mundo por meio de experiências visuais, manifestando sua cultura principalmente pelo uso da Língua Brasileira de Sinais-Libras. Parágrafo único. Considera-se deficiência auditiva a perda bilateral, parcial ou total, de quarenta e um decibéis (dB) ou mais, aferida por audiograma nas frequências de 500Hz, 1.000Hz, 2.000Hz e 3.000Hz.
A história da Libras chegou ao Brasil em 1857, quando o francês Eduard Huet veio ao Brasil convidado por D. Pedro II, ele era surdo desde os doze anos de idade, veio para fundar a primeira escola para surdos, chamada Imperial Instituto de Surdos Mudos, que mais tarde passou a ser conhecida como Instituto Nacional de Educação de Surdos, INES, pois o termo surdo-mudo foi considerado incorreto, apesar de ainda hoje ser usado por pessoas leigas no assunto.
Embora tenha sido aceita essa escola, no ano de 1880, teve uma grande derrota por um congresso de profissionais da educação que aconteceu em Milão, pois, acreditavam que a leitura labial era mais adequada para a comunicação dos surdos, atrasando a difusão da língua de sinais no Brasil, o que dificultava ainda mais a comunicação, pois o surdo não sabia falar.
A Libras, como língua de sinais, inclui também os níveis linguísticos encontrados no português, tais como: fonológico, morfológico, sintático e semântico. O que a diferencia das demais línguas é o seu modo de comunicação, pois por se tratar de sinais, a Libras possui um modo visual-espacial, enquanto nas línguas orais-auditivas é a palavra que ocupa essa posição.
Do mesmo modo que a língua oral tem significados diferenciados para as mesmas palavras em diferentes regiões do país, a libras também tem. Por isso, além de saber os sinais é necessário saber a gramática, para fazer a combinação das frases e estabelecer uma comunicação clara. Sendo assim, a libras não é apenas gesto e sim uma língua, como gramática.
Com o crescimento da inserção de surdos nos espaços escolares, requer que a escola os receba não apenas como meros indivíduos nas escolas, mas como pessoas dotadas de direitos no ambiente escolar, que possuem específicos jeitos de se comunicar e principalmente de serem ensinados e adquirir conhecimento. Se a escola não tem professores capacitados, acaba que alunos com deficiência auditiva se tornam frustrados por não compreender o que está sendo repassado, havendo a evasão das escolas, gerando o fracasso escolar de tais alunos.
Cabe ao professor saber a responsabilidade e contribuição na atuação de tal profissão e buscar conhecimento frente ao processo de educação da criança surda, sabendo que o desenvolvimento de âmbito acadêmico e social de tais indivíduos está literalmente ligado no contexto escolar, à condição de estímulo da língua materna Libras e da segunda língua, o português escrito.
2.3 PREJUÍZOS CAUSADOS NA VIDA DE UMA CRIANÇA SURDA PELA AUSÊNCIA DA LIBRAS NO SEU PROCESSO EDUCACIONAL
Visto que o convívio escolar é o mais importante depois do familiar, a criança tem muitos prejuízos causado pela falta do ensino adequado da Libras, considerando que sua vida social e profissional depende disto, pois, comunicação deficitária o impossibilitará, no âmbito escolar de adquirir habilidades de leitura e escrita, que mais tarde afetarão seu desenvolvimento do campo linguístico ao profissional. Fato esse, que corrobora para que muitos surdos não cheguem a formação superior, mesmo sendo comprovado suas potencialidades de desenvolver competências e habilidades igualmente as pessoas ouvintes. Como resultado, vê-se a pessoas surda a margem da sociedade.
Atualmente são muitos os estudos sobre a cultura surda, as metodologias de ensino e a evolução desse povo guerreiro que luta por igualdade de condições, deixando claro que a sociedade começa a despertar para o respeito, à diferença cultural do surdo e desmistificar cada vez mais a surdes vista como uma deficiência, a história da Libras ainda tem muitos capitulo a serem escritos, tanto pela comunidade surda que vem ganhando espaço na sociedade, assim como pelos profissionais da educação que tem engajados na causa surda.
2.4 O ENSINO DA LÍNGUA PORTUGUESA PARA ALUNOS SURDOS
Por um século os alunos surdos eram compelidos a se comunicar somente por meio da Língua Portuguesa oralmente e da audição ou da leitura orofacial. Gesticula por meio de sinais eram reprimidos porque se acreditava que o seu uso pudesse anular o desenvolvimento da fala.
De acordo com Koch (2001):
Cabe lembrar que nessa época predominava, no ensino da Língua Portuguesa, a concepção de língua como código, segundo a qual a língua é considerada um sistema de formas fonéticas, gramaticais e lexicais, independentemente de todo ato de criação individual (KOCH, 2001).
A ideia principal é que, tendo conhecimento do código, o aluno passe a abranger e usar perfeitamente a língua. O uso da língua como código na educação de surdos derivou no ensino metódico e unificado da Língua Portuguesa, uma vez que, diferentemente dos ouvintes, a maioria dos alunos surdos, chegam à escola sem uma língua desenvolvida. Visando ao aprendizado da Língua Portuguesa, o professor iniciava as aulas com a exposição dos alunos surdos a palavras e avançava com o emprego destas palavras em estruturas frasais, basicamente simples e depois cada vez mais longas e morfossintaticamente mais complexas. Através de cópias, ditados, exercícios de repetição e de permuta de elementos da frase, esperava-se que os alunos arquivassem as estruturas frasais trabalhadas e as usassem.
O bilinguismo é uma das práticas mais utilizadas que oferece aos surdos o uso de duas línguas, a de Libras e a de Língua Portuguesa, para decidir qual usar na comunicação e auxiliá-los a desenvolver suas habilidades linguísticas.
Um fracasso escolar com a Língua Portuguesa acontece com os falantes desde a alfabetização e é considerada uma língua pragmática e cheia de regras incompreensíveis para muitos. Para os surdos, essa dificuldade torna-se maior porque eles não têm consciência de sua estrutura, não ouvem e não desenvolvem a capacidade de reproduzi-la.
Para Góes (2020):
Na verdade, as limitações nessa esfera não são exclusivas das experiências escolares de surdos, nem inerentes à condição de surdez: um dos principais problemas está nas mediações sociais dessa aprendizagem, mais especificamente nas práticas pedagógicas que fracassam também na alfabetização de ouvintes.
A Língua Portuguesa é diferente da estrutura de Libras, os surdos têm dificuldade de aprender e organizar seus pensamentos em diferentes textos, encontram dificuldades no uso de conjunções e na conjugação de verbos, por isso é necessário que o educador de alunos surdos utilize diferentes estratégias de ensino diferenciado, envolvendo todas as etapas do processo de ensino.
O educador não trata do desenvolvimento cognitivo, linguístico, emocional e social do surdo, muitos dão sequência de figuras sem fornecer um texto verbal para auxiliar no desenvolvimento, e em diversas outras atividades sem nenhum objetivo significativo, apenas como exercícios aleatórios que ocupam seu tempo. O professor que não sabe incentivar a participação dos surdos, acaba por permitir que os ouvintes ditem as regras e imponham sua cultura a eles.
Hoje, o principal objetivo da educação de surdos é a socialização e a busca pelo desenvolvimento da linguagem, onde eles aprendem a Libras como primeira língua, enquanto constroem o português escrito como ferramenta de apoio, integração e produção. Um dos problemas identificados é a participação do surdo nos processos sociais como sujeito bilíngue, mesmo com o auxílio de um intérprete, que por vezes não consegue transmitir os significados solicitados. Ensinar nas escolas regulares exclui os surdos ao desconsiderar a Libras como sua língua de direito, negando-lhes o ensino de sua língua natural, que é uma forma de integrá-los à sociedade ouvinte. Na língua de sinais, a sintaxe não usa preposições, mas posposições de termos na escrita.
Atualmente, as mídias são importantes ferramentas que auxiliam na educação de surdos e são essenciais para o ensino da língua portuguesa com o intuito de avaliar suas potencialidades e posicioná-la como objeto de aprendizagem. A tecnologia é um ótimo recurso para auxiliar na sua prática docente, pois prioriza a leitura e a escrita lúdicas.
2.5 AS TECNOLOGIAS DIGITAIS NO PROCESSO DE ENSINO PARA ALUNOS SURDOS
Segundo Kohn e Moraes (2007, p. 5), “na era digital pela qual passa nossa sociedade atual, a escola deve acompanhar esse processo revolucionário na busca integração do aluno com o uso da tecnologia". Isso potencializará a difusão de tecnologias relacionadas a conteúdos como meio de comunicação e informação instrumentalizados por computadores e internet, que poderão ser utilizados na escola, para que o aluno possa desenvolver sua aprendizagem e seu senso crítico.
As tecnologias presentes na educação representam uma revolução no ensino, em que se apresenta aos professores a necessidade de adaptação às novas tendências tecnológicas a serem utilizadas na prática pedagógica "o desafio de escolher entre a educação reestruturada para apoiar a democracia e as necessidades humanas e a educação transformada prioritariamente para atender às necessidades dos negócios e da economia global" (KELLNER, 2001, p. 39).
Segundo Fernandes (2010), “o computador, com seus inúmeros softwares, pode ser uma ferramenta muito importante no processo de construção do conhecimento, auxiliando o aluno no conteúdo de uma ou mais disciplinas”. Configura-se, portanto, como uma ferramenta que pode contribuir com o processo ensino-aprendizagem, entretanto um professor com habilidade para o uso desse dispositivo estimulará o aluno surdo a utilizá-lo de forma coerente para contribuir com seu aprendizado.
Com base em Valente (1991), as TICs podem ser utilizadas como recursos pedagógicos que podem atender aos objetivos e necessidades educacionais dos alunos surdos, como meio de avaliação da capacidade intelectual desses alunos e como meio de comunicação prática que resultará em ganhos de aprendizagem.
Como afirma Penteado Silva (1997, p. 45), “é possível perceber que alguns entraves no processo de lidar com a tecnologia trazem consequências para o trabalho do professor”. Nesse sentido, apesar das dificuldades encontradas com o uso das TICs na escola, o professor tem papel fundamental na escola, ele utiliza os recursos tecnológicos de forma que possa criar conhecimentos, habilidades no manuseio de ferramentas, bem como garantir que o aluno tenha acesso à informação por meio de equipamentos tecnológicos.
Diante de desafios e oportunidades, utilizando a tecnologia em contexto educacional, é possível perceber que “o uso de ferramentas tecnológicas pode facilitar a interação e troca de informações entre professor e aluno” (MIRANDA ET AL., 2017, p. 246), pensar a autonomia educacional, na qual o professor deixa de ser apenas um transmissor de informações, passa a estimular o aluno a desenvolver sua criatividade, habilidades e conhecimentos.
As tecnologias de informação e comunicação no serviço educativo vão condicionar o reforço do conhecimento, permitindo ao aluno extrapolar o espaço da sala de aula através de experiências concretas de acordo com a realidade estudada, para isso é necessário realizar aulas práticas que assegurem a exploração da experiência visual, além de vários tipos de expressão artística.
No atendimento educacional especializado, o aluno surdo terá acesso a conteúdo curricular e informações sociais, monitorar o uso desses recursos em sala de aula, verificar sua funcionalidade, sua usabilidade e a necessidade de recursos usados por um aluno.
3 METODOLOGIA
Para a realização da pesquisa proposta foram necessários procedimentos metodológicos que permitissem avaliar as possíveis respostas, facilitando o entendimento eficaz sobre o uso das tecnologias digitais no ensino de Língua Portuguesa para alunos surdos através de oficinas. Portanto, adotamos a abordagem exploratória, tendo como tipo de pesquisa o método quantus-quali, utilizando-se para seu desenvolvimento um questionário semiestruturado aplicado aos professores de Língua Portuguesa dos 8º anos com perguntas fechadas (com intuito de verificar perfil, tecnologias existentes na escola e quais são usadas em sala) e um levantamento bibliográfico, a qual utilizou-se de trabalhos já publicados como livros, artigos, dissertações, teses, revistas, dentre outros, com o intuito de refletir acerca das contribuições que o uso das tecnologias digitais pode oferecer, ao ensino de Língua Portuguesa para alunos surdos. Para a realização da oficina escolheu-se apenas uma turma do 8º ano com o critério: ter aluno com surdez. Ressaltamos que a oficina foi realizada antes da aplicação do questionário semiestruturado, com a finalidade de verificar a opinião dos professores após a prática.
O local escolhido para a pesquisa foi a Escola Municipal Papa João Paulo II, os conteúdos abordados nas oficinas estão de acordo com o planejamento curricular criado pela Secretaria Municipal de Educação de Sorriso - MT. Atualmente a escola atende 770 alunos entre a Educação Infantil, Fundamental I e II, divido em 24 turmas em dois turnos: matutino e vespertino. Os colaboradores da pesquisa compreendem 06 (seis) professores da unidade escolar, tendo como critério: professores de Língua Portuguesa.
Desta forma, a pesquisa foi elaborada a partir do seguinte problema: “Como a utilização de tecnologias digitais através de oficinas auxiliam no ensino de Língua Portuguesa alunos surdos? Consideramos importante mencionar que só em 2002, a Libras foi reconhecida. Assim, buscando responder à questão norteadora, foram selecionados autores como: como Koch (2001), Franco e Schutz (2019), Fernandes (2010) e Miranda et al. (2017) que discutem o teor deste trabalho, enriquecendo a construção do mesmo.
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
4.1 Exposição e Relação dos dados com o referencial teórico
4.1.a – Da Aplicação do Questionário semiestruturado
Gráfico 01: Perfil - Sexo dos entrevistados - Elaborado pela Autora (2022).
Gráfico 02: Perfil – Idade dos entrevistados - Elaborado pela Autora (2022).
Gráfico 03: Perfil – Formação Acadêmica dos entrevistados - Elaborado pela Autora (2022).
Gráfico 04: Perfil – Tempo de docência dos entrevistados - Elaborado pela Autora (2022).
A composição do quadro de docentes de Língua Portuguesa da escola é composta em sua maioria por mulheres (100%), com a idade média entre 40 e 50 anos (50%%), tendo (17%) com mestrado e (83%) com especialização. Em sua maioria atuantes no magistério há mais de 16 anos (50%).
Gráfico 05: Recursos digitais utilizados em sala pelos entrevistados - Elaborado pela Autora (2022).
Dentre os recursos digitais disponíveis na escola mais utilizados pelos entrevistados, destacam-se o Notebook, a TV, o Data Show e o Aparelho de Som, ambos com (13%), seguidos pelo celular e a rede de Wi-Fi com (11%), é válido ressaltar que alguns professores utilizam alguns dos recursos do Google (9%), em tempos de pandemia, foi o recurso mais utilizado pelos professores.

Gráfico 06: Quanto a facilidade no manuseio das TICs pelos entrevistados - Elaborado pela Autora (2022).
Gráfico 07: Quanto aos aplicativos digitais utilizados em sala pelos entrevistados - Elaborado pela Autora (2022).
Quanto a facilidade no manuseio das TICs pelos entrevistados, a maioria respondeu que possui facilidade (83%). Já em relação aos aplicativos utilizados para trabalhar a Língua Portuguesa, destacam-se os recursos do Google (21%), o Kahoot (17%) que é uma plataforma de aprendizado baseada em jogos, usada como tecnologia educacional em escolas e outras instituições de ensino. Seus jogos de aprendizado, são testes de múltipla escolha que podem ser acessados por meio de um navegador da Web ou do aplicativo Kahoot.
O Canva segue sendo um dos aplicativos bem utilizados pelos professores (17%), o mesmo é uma plataforma de design gráfico que permite aos usuários criar gráficos de mídia social, apresentações, infográficos, pôsteres e outros conteúdos visuais. Está disponível online e em dispositivos móveis e integra milhões de imagens, fontes, modelos e ilustrações. Ressaltamos que são recursos bem interessantes que se aplicados de forma certa em sala de aula, permitirá o aprendizado significativo dos alunos.
4.1.b – Da Oficina
TEXTOS E CONTEXTOS: DA LEITURA EM LIBRAS À RELEITURA EM HQ ATRAVÉS DO FLASHCARD
O livro “A lagarta muito comilona” do autor Eric Carle, teve sua primeira publicação em 1969. O livro é muito usado para ensinar as crianças a contar de 01 a 10 e memorizar os dias da semana através da comilança da lagarta. Sendo assim, decidimos trabalhar o livro em uma versão bilingue e que posteriormente eles iriam retratar em HQ através da plataforma do Canva usando o Flashcard. A oficina foi dividida em 03 etapas, sendo elas:
Etapa 01- foi apresentado o vídeo sobre o livro A lagarta muito comilona de forma Bilingue para a classe entendesse o mesmo. O uso do vídeo contribuiu fortemente para que os alunos acompanhassem a história na aula. A apresentação, com uma abordagem voltada para a visualização e ludicidade contribuíram bastante para este fim, além de ser uma excelente atividade para os estudantes, permite aos mesmos acompanhar a evolução da lagarta até se transformar em uma bonita borboleta.
Etapa 02 - os alunos foram organizados em grupos de quatro na sala de aula. Em seguida, foram expostas as imagens da história; os alunos, em seus grupos, foram incentivados a organizar as imagens seguindo a sequência lógica determinada por eles mesmos. Não houve nessa etapa ordem certa ou errada das imagens e as possíveis correções de escolhas ilógicas serão feitas, via questionamento das escolhas feitas.
Etapa 03 – Foram entregues aos grupos folhas de almaço para que criassem uma releitura da história, a qual seria retratada na HQ. Após os alunos escreverem os textos, foi recolhido para a correção ortográfica. Posteriormente a correção, devolveu-se as histórias para aos grupos que deveriam transcrever sua criação. Para a realização das transcrições usamos o Flashcard através da plataforma on-line do Canva. Como finalização da oficina, foi realizado o registro para ser apresentado na mostra cultural da escola.
Percebemos ao realizar a etapa 1, que a história quando contada em língua de sinais preserva e enfatiza a iconicidade e a abstração que, de modo complementar, é capaz de elevar-se às proposições mais abstratas, à reflexão generalizada da realidade e evocar a qualidade concreta, vívida, real, animada das línguas faladas devido a visualização das imagens. Notou-se também que transcrever o a história para a HQs absorveu bastante o interesse da classe.
É importante reiterar que as imagens não exigem menos do ato de leitura. Segundo Linden: [...] ler um livro ilustrado não se resume a ler texto e imagem. [...] é também apreciar o uso de um formato, de enquadramentos, da relação entre capa e guardas com seu conteúdo; é também associar representações, optar por uma ordem de leitura no espaço da página, afinar a poesia do texto com a poesia da imagem, apreciar os silêncios de uma em relação à outra. (LINDEN, 2017).
5 CONCLUSÃO
A Libras é uma língua viva e seus usuários têm o direito de aprender utilizando-a. Assim, aos poucos, esse direito está sendo garantido, o Decreto n. º 5.626 deu um grande passo para que a Libras fosse afirmada como uma língua, mas percebemos que ainda faltam profissionais nas escolas.
Neste trabalho, procuramos mostrar a importância de se estabelecer uma educação bilíngue disposta a contornar ou excluir as barreiras linguísticas, que se apresentam muito fortemente quando os conteúdos são ministrados em Língua Portuguesa com métodos predominantemente ouvintes ou seja, que não consideram a L1 do aprendiz surdo, principalmente quando associadas as tecnologias digitais.
Sabemos que um dos objetivos do ensino da língua é auxiliar o aluno a se apropriar da norma culta, fazendo uso dela em situações de maior formalidade. Porém, não podemos esquecer que além de desenvolver o domínio das estruturas da língua padrão, é preciso criar condições para que o aluno construa discurso próprio, particularize seu estilo, expresse com objetividade e fluência suas ideias.
E principalmente entenda o que um enunciado quer dizer. É importante acreditar que qualquer leitor pode desenvolver a sua capacidade de interpretação, através da literatura e de outras formas de reflexões, pois, interpretação nada mais é do que o exercício do próprio pensamento em torno de um pensamento de outro. A aquisição da L2 pelo surdo é um processo de longo prazo para a maioria dos alunos e demanda de professores estratégias de ensino adequadas, buscando participar da construção e do aprimoramento de saberes, ou seja, considerando as especificidades do aprendiz e descartando discursos de que o aluno é incapaz de desenvolver habilidades de leitura e escrita na segunda língua.
Quando ponderamos sobre a educação dos surdos, cabe ressaltar, como enfatiza Salles (2004, p. 47), que ela “[...] seja efetivada em língua de sinais”, pois sabemos que, essa é a sua língua natural do surdo, cujo acesso deve acontecer nos mais variados espaços, visando o processo de seu desenvolvimento. Ainda, segundo a autora, “[...] faz-se necessário o ensino de língua portuguesa como segunda língua, com a utilização de materiais e métodos específicos no atendimento às necessidades educacionais do surdo”, ou seja, o ensino dessa língua, deve proporcionar meios de aprendizagens significativas (SALLES, 2004, p. 47).
Como se não bastassem os obstáculos que enfrentamos diariamente na educação pública do nosso país, eclodiu uma pandemia, que nos impossibilitou de estarmos juntos presencialmente. Nesse contexto a inserção das Tecnologias digitais como recurso metodológico, veio para auxiliar o aprendizado. Mas isso nos levar a refletir sobre a inclusão digital e os benefícios que os alunos surdos podem ter quando o professor, capacitado, adotar como metodologia para suas aulas.
Para que esse resultado sobre o uso das tecnologias digitais seja positivo, em relação ao seu ensino e uso com foco no aluno surdo, o primeiro passo seria o professor conhecer a tecnologia e dominar a técnica de comunicação através da linguagem de Libras. E posteriormente, é necessário que o aluno surdo conheça, tenha acesso e seja capaz de utilizar essas tecnologias. Após essas duas etapas, os alunos ganham autonomia por meio da abundância de opções disponíveis em aplicativos e softwares.
A oficina não é apenas um recurso pedagógico, mas um espaço que comporta a possibilidade de transformação. Podemos também dizer que é um importante estrutura para dinamizar o processo ensino-aprendizagem, uma vez que, por seu caráter prático, estimula a participação e a integração de todos os envolvidos. Por sua natureza, uma oficina é dinâmica. Além disso, também funciona como uma ferramenta para a prática pedagógica nos diversos níveis de ensino e para a pesquisa.
Pretendeu-se que a realização da oficina funcionasse como em sua etimologia: “um lugar de transformações”. Nesse contexto, ela contribuiu para a formação pessoal e profissional dos envolvidos, pois, a partir de discussões com os professores e baseadas na realidade da sala de aula escolhida, tivemos a oportunidade de trocar experiências, levantar questões problemáticas comuns e traçar soluções para algumas questões. A partir do estudo sobre a temática e do resultado das oficinas, a pesquisa nos apresentou diversas perspectivas sobre o assunto e possíveis caminhos que facilitam trabalhar a literatura surda dentro de nossas salas de aula.
Em síntese, espera-se que essas reflexões e observações possam não só contribuir para a continuidade do aprendizado, mas também estimular mais profissionais/pesquisadores a buscarem ferramentas e metodologias significativas para seus alunos que melhorem a prática em sala de aula e possam contribuir para um ensino de Língua Portuguesa mais sólida, que permita ao aluno com surdez um melhor aprendizado, que ele se sinta realmente incluído. Que esta pesquisa permita melhorar as práticas em sala de aula e que possa abrir portas para mais formações de professores que trabalhem as tecnologias digitais como ferramentas que permitam a aprendizagem significativa.
REFERÊNCIAS
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BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal: Centro Gráfico, 1988. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acessado em: 01 dez. 2022.
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