A importância da promoção de projetos pedagógicos na Educação Infantil: um estudo documental baseado em Vygotsky
Aline Andrade
RESUMO
O presente artigo visa analisar a importância da promoção de projetos pedagógicos na Educação Infantil, a partir do processo ensino-aprendizagem fundamentado na teoria histórico-cultural de Lev S. Vygotsky e em consonância à legislação educacional brasileira. Para isso, realizou-se um estudo documental de abordagem qualitativa pautado na análise de documentos oficiais da educação brasileira ao entender que os projetos pedagógicos constituem-se como uma organização intencional do trabalho docente, de tal modo que promovem interações, brincadeiras, múltiplas linguagens e a construção coletiva de aprendizagens significativas. Na perspectiva vigotskiana, o desenvolvimento do educando ocorre nas relações sociais, sendo mediado pela cultura, pela linguagem e por instrumentos simbólicos. Isso posto, este texto busca contribuir com reflexões sobre projetos pedagógicos planejados a partir das curiosidades e dos interesses das crianças, criando situações de aprendizagem que ampliam sua participação e ação no meio escolar, tendo o professor como mediador e organizador do espaço educativo. Ainda, o estudo defende que os projetos pedagógicos não se reduzem a atividades isoladas ou eventos meramente temáticos, mas configuram-se como percursos investigativos intencionais e flexíveis, articulados aos direitos de aprendizagem e desenvolvimento da criança na Educação Infantil.
PALAVRAS-CHAVE: Educação. Educação Infantil. Vygotsky. Projeto Pedagógico.
ABSTRACT
This article aims to analyze the importance of promoting pedagogical projects in Early Childhood Education, based on the teaching-learning process grounded in the historical-cultural theory of Lev S. Vygotsky and in accordance with Brazilian educational legislation. To this end, a qualitative documentary study was conducted, based on the analysis of official Brazilian education documents, understanding that pedagogical projects constitute an intentional organization of teaching practices, promoting interactions, play, multiple forms of language, and the collective construction of meaningful learning. From a Vygotskian perspective, learners’ development occurs through social relationships and is mediated by culture, language, and symbolic tools. Thus, this text seeks to contribute to reflections on pedagogical projects planned around children's curiosities and interests, creating learning situations that expand their participation and agency within the school environment, with the teacher acting as a mediator and organizer of the educational setting. Furthermore, the study argues that pedagogical projects should not be reduced to isolated activities or merely thematic events, but rather should be understood as intentional and flexible investigative pathways, articulated with children's rights to learning and development in Early Childhood Education.
KEYWORDS: Education. Early Childhood Education. Vygotsky. Pedagogical Project.
A Educação Infantil constitui-se por vivências significativas de cuidado, educação, convivência e brincadeira, sendo o seu reconhecimento legal consolidado pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, que a posicionou como “a primeira etapa da Educação Básica, reconhecendo a relevância do desenvolvimento integral da criança até os cinco anos de idade em suas dimensões física, psicológica, intelectual e social” (Lei nº 9.394/1996).
Assim, discutir a importância da promoção de projetos pedagógicos implica refletir sobre como as instituições de Educação Infantil podem estruturar vivências que superem a lógica de tarefas fragmentadas, promovendo uma prática pedagógica significativa e referenciada. O desenvolvimento de um projeto pedagógico exige intencionalidade docente, bem como abertura para que as curiosidades e manifestações infantis definem os caminhos da investigação. Trata-se de um percurso no qual crianças e professores formulam perguntas, observam fenômenos, criam hipóteses, experimentam materiais e registram suas descobertas de forma coletiva.
É preciso construir propostas pedagógicas que reconheçam a criança como
... sujeito histórico e de direitos que, nas interações, relações e práticas cotidianas que vivencia, constrói sua identidade pessoal e coletiva, brinca, imagina, fantasia, deseja, aprende, observa, experimenta, narra, questiona e constrói sentidos sobre a natureza e a sociedade, produzindo cultura.” (BRASIL, 2009, p. 12).
Tendo como eixos estruturantes as interações e as brincadeiras. Essa orientação dialoga diretamente com a perspectiva histórico-cultural de Vygotsky, ao considerar que o desenvolvimento humano não ocorre de forma isolada, mas integrado às relações sociais e ao contexto cultural em que o educando está inserido.
Vygotsky atribui papel central à mediação social no processo ensino-aprendizagem. A criança aprende em atividades compartilhadas, apropriando-se gradativamente de formas culturais por meio de ação, linguagem e pensamento. Para isso, torna-se necessário que a organização pedagógica crie oportunidades para que a criança realize ações com o apoio de adultos e de seus pares, vivenciando aprendizagens que ainda não domina de maneira autônoma.
“(...) a distância entre o nível de desenvolvimento real, que se costuma determinar através da solução independente de problemas, e o nível de desenvolvimento potencial, determinado através da solução de problemas sob orientação de um adulto ou em colaboração com companheiros capazes.” (Vygotsky. 1991, p. 97)
Em vista disso, este artigo objetiva apresentar princípios teóricos da perspectiva histórico-cultural de Vygotsky e dos documentos legais da Educação Infantil, buscando compreender como essa relação fortalece uma prática pedagógica pautada em projetos pedagógicos voltados à formação integral da criança. Visando relacionar os conceitos vygotskianos às orientações da Constituição Federal de 1988, da LDB e das DCNEI, refletindo sobre as contribuições dos projetos pedagógicos na rotina escolar.Dessa forma, torna-se fundamental promover práticas pedagógicas que respeitem as especificidades das infâncias, evitando a antecipação de conteúdos do Ensino Fundamental ou a redução da Educação Infantil a ações meramente assistenciais e isoladas.
VYGOTSKY E A PERSPECTIVA HISTÓRICO-CULTURAL EM PROJETOS PEDAGÓGICOS
Para melhor compreender a temática proposta, cumpre contextualizar a perspectiva psicológica de Lev S. Vygotsky, a qual atribui papel decisivo às relações sociais, à cultura e à linguagem na constituição do desenvolvimento do educando. Sua teoria demonstra que as funções psicológicas superiores se desenvolvem a partir do momento em que a criança participa de práticas sociais e culturalmente organizadas. Desde os primeiros anos de vida, as interações com adultos e com outras crianças — mediadas por objetos, palavras, gestos e ações — possibilitam a apropriação progressiva do conhecimento. Vygotsky enfatiza que os processos que aparecem inicialmente no plano social são posteriormente reconstruídos no plano individual, o que evidencia que o aprender envolve participar de relações sociais significativas.
Nesse processo, a linguagem assume uma função de destaque ao atuar não apenas na comunicação, mas também na organização do pensamento e na elaboração de sentidos. Em projetos pedagógicos, a criança faz uso de diversas formas de linguagem para expressar suas vivências, tais como conversar, questionar, narrar, explicar, desenhar e registrar. Ao ampliar o repertório cultural e linguístico da turma, o professor cria condições favoráveis para a construção de novos pensamentos e hipóteses.
Para Vygotsky, o contato da criança com o meio não é direto, mas mediado por instrumentos, signos e interações humanas. O professor, portanto, precisará mediar todo processo ensino-aprendizagem, organizando situações, oferecendo materiais compatíveis com a proposta pedagógica, formulando perguntas e acolhendo os conhecimentos prévios dos educandos. Essa intervenção pauta-se no conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal, que representa a distância entre aquilo que a criança realiza de forma independente e o que alcança com auxílio ou orientação.
Esse conceito propõe um olhar ao desempenho já conquistado para as potencialidades que ainda podem ser conquistadas. Para a prática com projetos pedagógicos, isso significa que as propostas devem partir das curiosidades e dos conhecimentos prévios dos educandos a fim de apresentar e desenvolver desafios adequados à faixa etária da turma, ampliando as experiências de investigação e tornando-as mais significativas à criança.
Além disso, a teoria vygotskiana permite reafirmar a importância da brincadeira no desenvolvimento infantil. O brincar e a situação imaginária criam oportunidades para a reorganização de significados e para a experimentação de papéis sociais. Desse modo, projetos pedagógicos bem estruturados articulam a brincadeira, a investigação e a expressão artística sem transformar o ato de brincar em um simples recurso para atingir metas mecânicas.
PROJETO PEDAGÓGICO NA EDUCAÇÃO INFANTIL NA PERSPECTIVA VYGOTSKIANA
O trabalho docente com projetos pedagógicos caracteriza-se pela organização do currículo em torno de questões, interesses e investigações que ganham continuidade ao longo do tempo, tempo esse definido pelo professor entendendo qual a duração deve-se ter determinado projeto. Na Educação Infantil, essa organização exige o respeito às especificidades da faixa etária, reconhecendo que o cuidar e o educar são dimensões indissociáveis e que as interações e brincadeiras ocupam lugar central no processo ensino-aprendizagem.
Em vista disso, é preciso compreender que um projeto pedagógico consiste no seu percurso intencional ao propor o acesso à vivências que oportunizem ao estudante observar, perguntar, criar hipóteses, expressar-se e compreender o mundo ao seu redor do seu próprio modo.
“A metodologia da pedagogia de projetos na educação infantil fundamenta-se na construção de um currículo rico, dinâmico e flexível, aberto a novas ações educativas que se direcionam para as necessidades reais da vida das crianças, proporcionando a elas um conhecimento teórico-prático que satisfaça às exigências de uma educação do presente e do futuro. Nessa perspectiva, o fazer pedagógico tem a capacidade de produzir uma interação com o mundo por meio de uma comunidade educativa, com currículo aberto, consistente e flexível.” (SANTOS; CARVALHO, 2022, p. 349)
Nesse sentido, o planejamento docente exige ter flexibilidade, pois o professor é aquele que estabelece objetivos pedagógicos que se almeja alcançar com uma proposta pedagógica, nesse caso com um projeto pedagógico, ressalta-se a importância de sempre considerar o desenvolvimento integral da criança durante todo o processo ensino-aprendizagem, e selecionar recursos necessários e fundamentais para que toda criança os alcance. Além disso, faz-se necessário acompanhar a manifestações da turma e reorganizar o caminho conforme novos interesses ou questionamentos surgem.
O trabalho docente que está alinhado aos direitos legais da criança tem estreita ligação com a teoria histórico-cultural de Vygotsky, pois
“(...) evidencia que os princípios vygotskyanos continuam a oferecer subsídios relevantes para práticas pedagógicas que valorizam o diálogo, a cooperação e a mediação docente como elementos centrais do processo educativo.” (COSTA et al., 2026)
Isso dialoga com as Diretrizes Curriculares Nacionais de Educação Infantil (DCNEI), quando entende-se que as práticas pedagógicas devem garantir vivências diversas que ampliem as experiências das crianças, por meio de vivências expressivas, motoras e comunicativas ao fazer uso de diferentes linguagens. Um projeto bem estruturado e potente em saberes favorece a apropriação dessas linguagens e estimula as interações sociais ao longo de toda a sequência didática ao compreender que o conhecimento não se apresenta como conteúdos fragmentados, mas como uma produção cultural pautada na escuta atenta das hipóteses infantis.
Um ponto essencial que merece destaque ao abordar projetos pedagógicos é o da documentação pedagógica, uma vez que ela permite ao docente refletir sobre o processo ensino-aprendizagem. A escolha de qual recurso utilizar na documentação pedagógica é peça chave, uma que é importante mostrar não apenas uma atividade realizada, mas mostrar a trajetória e evolução de cada criança durante todo o projeto pedagógico, compreendendo que “documentar não se restringe a observar, filmar, fotografar, fazer exposições, elaborar portfólios, relatórios de avaliação, etc., como já vem sendo feito nas escolas.” (MARQUES; SIMÃO; ZWIEREWICZ, 2022).
O professor pode fazer uso de fotografias, desenhos, falas transcritas, produções artísticas e demais recursos, mas é preciso atentar-se em como irá documentar e apresentar todo percurso desenvolvido pela criança, destacando sua organização entre pares e adultos, sua comunicação e sua evolução no processo ensino-aprendizagem.
Para mais, o professor pode utilizar o projeto pedagógico como uma forma de incluir as famílias e a comunidade de forma rica e contextualizada, através de relatos, histórias e objetos histórico-culturais. Contudo, é preciso planejamento e conhecimentos sobre a temática, tendo sempre em mente e compreender que a criança é a protagonista do processo educativo e as famílias e a comunidade podem somar, transformando a prática pedagógica em ainda mais significados ao educando. Assim, promover projetos pedagógicos exige intencionalidade, escuta e capacidade de reorganização. A qualidade de um projeto não está na sua aparência externa, mas de acordo com Costa et al. (2026) está nas reais possibilidades de mediação, linguagem e participação que ele proporciona às crianças ao proporcionar as práticas pedagógicas significativas no cotidiano escolar.
“Ao enfatizar o papel das interações sociais, da mediação pedagógica e da linguagem na construção do conhecimento, essa abordagem oferece importantes subsídios para a organização de práticas educativas comprometidas com o desenvolvimento integral dos estudantes e com a construção de ambientes escolares mais colaborativos, reflexivos e inclusivos.” (COSTA et al., 2026)
UM PROJETO PEDAGÓGICO PAUTADO EM INTERAÇÕES, BRINCADEIRAS E LINGUAGEM
As interações e as brincadeiras configuram-se como eixos estruturantes da Educação Infantil e estão conectadas com a teoria vygotskiana, pois é no contexto das relações sociais que a criança desenvolve formas mais complexas de pensamento e ação.
A brincadeira surge como um fator potencializador do trabalho docente, pois cria cenários de imaginação, negociação de papéis e construção de regras. Nas atividades de faz-de-conta, por exemplo, as crianças compartilham significados e organizam recursos, o que contribui para o desenvolvimento da autorregulação. Nos projetos pedagógicos, o brincar pode funcionar tanto como ponto de partida para investigações quanto como forma de representação, devendo sempre basear-se na iniciativa infantil.
A linguagem, por sua vez, assume papel central na articulação do pensamento. Diálogos, histórias, músicas, desenhos e registros ampliam as formas de expressão do educando. Ao longo do projeto pedagógico, as dúvidas da criança podem figurar em cartazes, por exemplo, suas hipóteses podem transformar-se em desenhos e suas descobertas podem ser narradas para a turma, permitindo acompanhar a evolução do entendimento infantil em relação ao tema proposto.
Em vista disso, a mediação docente é indispensável para formular perguntas condutoras que incentivem a investigação. Essa escuta atenta do professor visa orientar as respostas para o desenvolvimento do senso crítico e criativo do educando, ao promover espaços e tempos em que a criança crie suas concepções do mundo ao seu redor. Além disso, o olhar atento do professor identifica quem necessita de maiorapoio, garantindo que a inclusão ocorra por meio de uma participação efetiva de todas as crianças.
“A linguagem do meio ambiente, que reflete uma forma de perceber o real num dado tempo e espaço, aponta o modo pelo qual a criança apreende as circunstâncias em que vive, cumprindo uma dupla função: de um lado, permite a comunicação, organiza e medeia a conduta; de outro, expressa o pensamento e ressalta a importância reguladora dos fatores culturais existentes nas relações sociais.” (MARTINS, 1997, p. 115)
Na perspectiva de Vygotsky, o professor assume um papel intencional ao organizar o meio social educativo e esse planejamento inicia-se antes mesmo das atividades, quando o docente observa os conhecimentos prévios e as dinâmicas da turma para selecionar espaços, tempos e materiais adequados. Durante o percurso, ele pode formar grupos, introduzir novos livros ou imagens e propor experimentos, mantendo o foco na ampliação das aprendizagens ao reconhecer a importância do uso de várias linguagens.
Ressalta-se que em um projeto pedagógico existem vários objetivos, além do central, e pensando nisso, a sua avaliação deve considerar a participação, a comunicação de ideias, a interpretação e mudança de hipóteses, além do progresso da criança, estando em conformidade com a LDB, que prevê o acompanhamento e o registro do desenvolvimento infantil sem objetivo de seleção ou promoção para a próxima etapa da Educação Básica.
E por isso, destaca-se mais uma vez a importância da documentação pedagógica que deve assumir um papel comunicativo e formativo. Considerando não o acúmulo de atividades, mas os registros pedagógicos que revelam os caminhos do pensamento infantil.
DESAFIOS E POSSIBILIDADES DA PROMOÇÃO DE PROJETOS PEDAGÓGICOS NA EDUCAÇÃO INFANTIL
Apesar das amplas possibilidades educativas proporcionadas pelos projetos pedagógicos, sua implementação no cotidiano escolar enfrenta desafios. Um deles é a sua redução a meras "atividades temáticas" impostas pelos adultos sem a devida investigação das crianças.
“Explorar temas diferentes, bem como atividades lúdicas pode ser feito através de projetos que envolvam todas as crianças a fim de apresentá-las novas experiências. Nessa abordagem, o processo torna-se essencial e não apenas o resultado das aprendizagens. As crianças têm, então, a liberdade de experimentar, errar, tentar de novo e aprender de forma leve e natural.” (NOGUEIRA, 2024, p. 4)
Um outro ponto diz respeito ao acúmulo de demandas no calendário escolar, como por exemplo, festas e datas comemorativas que assumem um tempo necessário que poderia ser utilizado para o aprofundamento da pesquisa pelas crianças em projetos pedagógicos. Além disso, a formação docente contínua é fundamental, pois o planejamento por projetos pedagógicos exige domínio e conhecimentos sobre desenvolvimento infantil, mediação e documentação.
A limitação de recursos materiais não inviabiliza a prática, uma vez que é possível utilizar elementos da natureza, materiais reutilizáveis e espaços da própria instituição. Mais relevante do que a abundância de materiais é o olhar atento do professor para organizar ambientes que favoreçam a interação individual e coletiva. É preciso que o professor mantenha uma comunicação saudável com a gestão escolar para verificar as possibilidades de recursos, tempos e espaços.
Também se deve evitar a escolarização precoce, isto acontece quando se promove conteúdos formais do Ensino Fundamental sob a justificativa de realizar um projeto pedagógico. A teoria vygotskiana auxilia na superação da falsa dicotomia entre "brincar" e "aprender", demonstrando que a aprendizagem ocorre por meio de práticas sociais, lúdicas e culturalmente significativas.
Superados esses desafios, as possibilidades do trabalho por projetos pedagógicos são amplas ao valorizar o trabalho docente, integrar diferentes linguagens, proporcionar conhecimento acerca da cultura local e principalmente fortalecer o protagonismo da criança.
“As crianças que vivenciam a pedagogia baseada em projetos tornam-se protagonistas de sua aprendizagem, pois participam ativamente da busca e construção de seu conhecimento. Além disso, os projetos que são desenvolvidos abrangem diversas áreas do conhecimento, permitindo uma abordagem mais ampla sobre seus direitos de aprendizagem.” (NOGUEIRA, 2024, p. 1-2)
Projetos pedagógicos não precisam substituir todas as rotinas da Educação Infantil, eles podem conviver em harmonia com momentos de brincadeira livre, leituras e exploração dos espaços, garantindo a coerência pedagógica do trabalho e a rotina escolar estabelecida.
A APROXIMAÇÃO TEÓRICA ENTRE VYGOTSKY E OS DOCUMENTOS LEGAIS DA EDUCAÇÃO INFANTIL
Ao longo da análise feita entre os fundamentos de Lev Vygotsky e os documentos normativos da educação brasileira, foi possível identificar convergências significativas como o desenvolvimento integral, as relações sociais, as linguagens, o protagonismo infantil e a intencionalidade docente.
Observa-se que a teoria histórico-cultural de Vygotsky e a LDB compreendem o desenvolvimento da criança em sua totalidade, reconhecendo suas especificidades visando uma educação mais significativa e inclusiva.
As Diretrizes Curriculares Nacionais de Educação Infantil (DCNEI) advogam as interações e as brincadeiras como eixos estruturantes, o que indica uma aproximação com a tese vygotskiana de que as funções psicológicas superiores originam-se nas relações sociais, entendendo a importância das relações sociais para o desenvolvimento da criança. Em vista disso, percebe-se que a legislação brasileira no âmbito educacional e Vygotsky estão também conectados acerca do uso de múltiplas linguagens durante o processo ensino-aprendizagem, ao valorizar o desenho, a fala, o gesto e o registro como meios essenciais para a construção de experiências significativas.
O protagonismo infantil é reconhecido pelas DCNEI que compreendem a criança como sujeito histórico e protagonista do processo educativo. Nesse sentido, Vygotsky vê a criança ativa no processo ensino-aprendizagem e na produção cultural.
E ainda, destaca-se a intencionalidade e mediação docente, tendo o papel fundamental na organização do meio social e na criação de desafios de aprendizagem de forma planejada, estruturada e consciente.
“Bem como foi salientado que o professor mediador vai além do papel de transmissor de conteúdos, atuando como facilitador do processo de aprendizagem. Foram destacados aspectos como a criação de ambientes colaborativos, o estímulo ao pensamento crítico, à autonomia e ao protagonismo dos alunos, além da incorporação de metodologias inovadoras e do uso de tecnologias. A mediação foi apresentada como prática intencional, capaz de promover a aprendizagem significativa e a formação de sujeitos críticos e autônomos.” (ZONTA; FABER, 2025, p. 3308)
Portanto, torna-se correto inferir que os documentos oficiais da educação brasileira, em especial da Educação Infantil, e a teoria histórico-cultural de Vygotsky possuem fundamentos que devem compor um projeto pedagógico, o que torna essa metodologia um ambiente social de aprendizagens. A pergunta norteadora dessa
prática pedagógica deixa de ser unicamente qual tema desenvolver, para ampliar as possibilidades educativas por meio de outra questão: "quais vivências culturais e interações se almeja proporcionar às crianças com um determinado tema?".
Este artigo analisou a importância da promoção de projetos pedagógicos na Educação Infantil, articulando a perspectiva histórico-cultural de Vygotsky aos documentos legais que fundamentam a educação nacional, nesse caso, especialmente a Educação Infantil. Diante disso, é possível inferir que o projeto pedagógico possibilita organizar vivências educativas pautadas no desenvolvimento integral, nas interações e nas brincadeiras.
O progresso na legislação brasileira no âmbito educacional, desde a Constituição Federal de 1988 (CF), a Lei de Diretrizes e de Bases da Educação Nacional (lei nº 9.394/1996) até às Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Infantil (DCNEI), consolida os direitos da criança a uma formação de qualidade que respeite suas especificidades. Assim, percebe-se que a teoria vygotskiana oferece o suporte teórico necessário para compreender como impulsionar novas aprendizagens no ambiente escolar, isto é, ao fazer uso de múltiplas linguagens e reconhecer a importância das interações sociais - com o ambiente e com o outro.
Destaca-se ainda que um projeto pedagógico na Educação Infantil deve possibilitar práticas educativas significativas, nas quais as crianças possam atuar de forma ativa, investigando o tema proposto. Por isso, a importância da intencionalidade do professor, acompanhada da documentação e de uma avaliação formativa, que garanta a qualidade do processo ensino-aprendizagem.
Portanto, passa a ser necessário reconhecer a importância da promoção de projetos pedagógicos, sobretudo na Educação Infantil, ressaltando que isso não significa abandonar o planejamento ou transformar todas as ações em projetos, mas sim assegurar tempos e espaços para que o currículo seja vivenciado de modo rico a partir da investigação e cuidado, evidenciando as interações sociais. Essa concepção fortalece uma Educação Infantil verdadeiramente comprometida com os direitos das crianças e com uma prática pedagógica significativa e transformadora.
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