Filosofando na Educação Infantil: a importância da filosofia na infância
Elaine Cristina Nunes de Oliveira Dorta[1]
Ligia Morande do Nascimento
Josy Aparecida Magnani Bonato
RESUMO
Este artigo discute a importância da Filosofia na Educação Infantil e investiga como introduzir o pensamento filosófico desde os primeiros anos escolares. Por meio de uma revisão bibliográfica, o trabalho mostra como a filosofia ajuda as crianças a desenvolverem o pensamento crítico, a criatividade, a autonomia e a capacidade de diálogo. A fundamentação teórica baseia-se no Programa de Filosofia para Crianças (P4C), de Matthew Lipman, e nas ideias de John Dewey, Lev Vygotsky e Jean Piaget — pensadores que defendem a criança como um ser curioso, ativo e capaz de filosofar. O estudo revela que a prática filosófica na infância, quando bem conduzida, transforma a sala de aula em uma comunidade de investigação, onde os alunos aprendem a refletir, duvidar e respeitar o outro. Conclui-se que levar a Filosofia para a Educação Infantil é um investimento essencial para formar seres humanos mais conscientes, empáticos e livres.
PALAVRAS-CHAVE: Filosofia para Crianças. Matthew Lipman. Educação Infantil. Pensamento Crítico. Comunidade de Investigação.
1 INTRODUÇÃO
Toda criança passa pela fase dos "porquês", que se inicia por volta dos três anos e pode ir até os cinco. Esse comportamento faz parte do desenvolvimento infantil. De forma natural e espontânea elas questionam, querem aprender, entender e descobrir o mundo. Essa atitude nos leva a uma reflexão: todos nós filosofamos na infância? O pensamento filosófico é algo latente nas crianças? A Filosofia deve estar presente na Educação Infantil? Quais são seus benefícios e sua importância?
Durante muito tempo, a Filosofia foi vista como um saber restrito aos adultos, voltado apenas para quem já teria maturidade intelectual para lidar com abstrações. Essa visão começou a ser superada no século XX, quando educadores e psicólogos passaram a defender que o pensamento filosófico deve ser cultivado desde a infância. Afinal, é nos primeiros anos de vida que a curiosidade se encontra em seu estado mais puro, antes que o medo do erro e a pressão por respostas prontas silenciem a capacidade de questionar.
Nesse cenário, o trabalho de Matthew Lipman, na década de 1970, foi revolucionário. O filósofo norte-americano criou o Programa de Filosofia para Crianças (Philosophy for Children — P4C) partindo de uma ideia simples: as crianças conseguem raciocinar, argumentar e construir conhecimento juntas, desde que tenham espaço, estímulo e mediação adequada.
A partir disso, este estudo busca responder à seguinte questão: de que forma a Filosofia na Educação Infantil contribui para o desenvolvimento integral das crianças? A hipótese é que a prática filosófica no cotidiano escolar, quando feita de forma intencional, fortalece o pensamento crítico, a criatividade, a autonomia e o respeito à diferença, habilidades fundamentais para a formação de cidadãos conscientes.
O objetivo geral deste artigo é discutir a importância da Filosofia na infância com base nas ideias de Lipman, Dewey, Vygotsky e Piaget. Como objetivos específicos, pretende-se explicar o que significa filosofar com os pequenos, apresentar as contribuições do método de Lipman, identificar os benefícios dessa prática e refletir sobre a postura do educador nesse processo.
A relevância deste trabalho justifica-se pelo momento em que vivemos. Em um mundo acelerado, marcado pela superficialidade das informações e pelo crescimento da intolerância, a Filosofia surge como uma ferramenta de humanização. Ensinar as crianças a pensarem com profundidade e a dialogarem com respeito é, acima de tudo, um ato de cuidado com o futuro.
Em termos metodológicos, trata-se de uma pesquisa de revisão bibliográfica, de natureza qualitativa, que aborda: o histórico do filosofar na infância; a teoria de Lipman e dos outros pensadores; os impactos práticos da Filosofia no desenvolvimento infantil; o papel do professor e atividades filosóficas na Educação Infantil.
2 DESENVOLVIMENTO
2.1 A criança que pensa: o direito de filosofar desde a infância
Existe um preconceito histórico que precisa ser superado: a ideia de que a Filosofia só começa quando a infância termina. Durante séculos, o pensamento ocidental enxergou a criança como um ser incompleto, que primeiro deveria aprender o básico: ler, escrever e contar para depois ter acesso ao pensamento abstrato.
Essa visão tradicional começou a mudar no século XX graças à psicologia do desenvolvimento. Jean Piaget (1994) demonstrou que a criança não é um adulto em miniatura e nem uma folha em branco; ela constrói formas complexas e legítimas de compreender a realidade desde muito cedo, o que inclui a capacidade de fazer perguntas profundas sobre o mundo ao seu redor.
Lev Vygotsky (1991) complementou essa visão ao mostrar que o pensamento se desenvolve por meio da linguagem e da interação social. Seu conceito de "zona de desenvolvimento proximal" explica que a criança pode ir muito mais longe se receber o apoio de um adulto ou de um colega. Assim, o diálogo filosófico mediado pelo professor funciona como uma ponte para reflexões que a criança não alcançaria sozinha.
John Dewey (1933) defendia que a verdadeira educação nasce da experiência e da reflexão sobre ela. Para ele, o pensamento crítico não surge espontaneamente com a idade; ele precisa ser praticado. O pensamento reflexivo começa sempre com uma dúvida ou um problema, situações que fazem parte do cotidiano natural das crianças. Ignorar essa capacidade infantil significa desperdiçar o que a infância tem de mais rico.
2.2 Matthew Lipman e o Programa de Filosofia para Crianças
Matthew Lipman (1922–2010) é a figura central dessa mudança de perspectiva. Professor de Filosofia na Universidade de Columbia, ele percebeu que seus alunos de graduação tinham muita dificuldade para argumentar, pensar com rigor e ouvir o outro. Concluiu, então, que a raiz do problema estava na base: a escola precisava ensinar a pensar desde os primeiros anos.
Em 1969, Lipman escreveu A Descoberta de Ari dos Teles (Harry Stottlemeier's Discovery), uma história voltada para crianças que investigava as regras da lógica. O livro foi testado com alunos de quinta série e o resultado foi surpreendente: eles não apenas compreenderam os conceitos, mas se envolveram em debates ricos e maduros. Em 1974, Lipman fundou o Instituto para o Avanço da Filosofia para Crianças (IAPC) e consolidou o método P4C (Philosophy for Children), que utiliza histórias filosóficas para gerar debates em grupo, orientados pelo professor.
O coração desse programa é a "Comunidade de Investigação". Trata-se de transformar a sala de aula em um ambiente onde os alunos pensam juntos, ouvem uns aos outros com atenção, discordam com educação e buscam respostas coletivas para problemas complexos. Como explica o próprio Lipman (1995, p. 31):
A sala de aula transformada em comunidade de investigação é um lugar onde os alunos se ouvem mutuamente com respeito, constroem sobre as ideias uns dos outros, desafiam-se uns aos outros para fornecer razões para crenças de outro modo não fundamentadas, auxiliam-se uns aos outros a tirar inferências do que foi dito e buscam identificar os pressupostos uns dos outros.
Lipman não propôs uma filosofia simplificada ou infantilizada. Ele demonstrou que as crianças conseguem discutir temas como justiça, verdade, amizade e tempo, contanto que utilizem sua própria linguagem. O valor do método está no processo de pensar, e não em chegar a uma resposta única e memorizada. No Brasil, essas ideias chegaram nos anos 1980 por meio do trabalho de educadores como Marcos Antonio Lorieri e Maria Lúcia de Arruda Aranha, que ajudaram a difundir a prática pelo país por meio do Centro Brasileiro de Filosofia para Crianças (CBFC).
2.3 O que a Filosofia desenvolve nas crianças
O que uma criança pequena ganha ao praticar Filosofia? Décadas de experiência ao redor do mundo mostram benefícios reais no desenvolvimento intelectual, emocional e social.
No aspecto cognitivo, a Filosofia estimula o que Lipman (1995) denomina pensamento multidimensional, que une três dimensões: o pensamento crítico (que busca razões e se autocorrige), o pensamento criativo (que elabora novas hipóteses e alternativas) e o pensamento cuidativo (que é sensível aos sentimentos, ao contexto e ao outro). Ensinar a pensar bem significa equilibrar essas três dimensões.
No campo da comunicação, a Filosofia oferece a oportunidade de vivenciar diálogos reais. A criança não repete o que o professor deseja ouvir; ela formula suas próprias perguntas, defende suas ideias e aprende a mudar de opinião quando encontra um argumento mais consistente. Como o pensamento e a linguagem caminham juntos (VYGOTSKY, 1991), aprimorar a capacidade de falar e ouvir contribui também para o desenvolvimento da inteligência.
No campo social e ético, os resultados são fundamentais para os dias atuais. Ao aprender a escutar de verdade e a aceitar que existem diferentes pontos de vista, a criança se prepara para viver em uma sociedade democrática. Como apontou Dewey (1959), a escola precisa ser um espaço de treino para a cidadania. Uma sala de aula que ensina a dialogar com respeito combate diretamente a divisão de uma sociedade e a intolerância.
Outro benefício importante diz respeito ao desenvolvimento da autoestima e da identidade. Quando uma criança percebe que sua opinião é levada a sério, que sua pergunta tem valor e que sua dúvida merece atenção, ela desenvolve confiança em si mesma. Kohan (2000) observa que a experiência filosófica na infância não se resume à aquisição de conceitos, mas à transformação da própria subjetividade: a criança aprende a se reconhecer como um ser pensante, capaz de contribuir com o coletivo.
2.4 O papel do educador: de transmissor a investigador
A proposta de Lipman exige uma mudança de postura do professor, ele se torna um mediador: não é o dono da verdade, mas aquele que estimula as perguntas e garante a organização do debate. O professor precisa saber intervir no momento certo, ajudar o grupo a perceber quando um argumento está fraco e incentivar a participação de todos, sem impor suas próprias opiniões. Essa postura humanizada e aberta exige preparo. Como bem sintetiza Aranha (1996, p. 52): "o educador que se dispõe a filosofar com crianças precisa, antes de tudo, ter aprendido a filosofar consigo mesmo".
Na prática, o professor-mediador precisa dominar algumas competências específicas: saber formular perguntas abertas que gerem reflexão genuína, e não respostas automáticas; criar um ambiente seguro, onde o erro seja visto como parte do processo e não como motivo de vergonha; e desenvolver a sensibilidade para perceber quando uma criança está prestes a descobrir algo novo, dando-lhe espaço e tempo para isso. Lorieri (2004) destaca que o professor-mediador é, antes de tudo, um investigador junto com os alunos, alguém que também se surpreende com as perguntas e não tem medo de dizer "não sei, vamos descobrir juntos".
Esse ainda é um grande desafio para as universidades e para as políticas públicas, pois os professores precisam vivenciar o pensamento colaborativo em sua própria formação para que consigam aplicar essa prática com êxito em suas salas de aula.
2.5 Atividades filosóficas na Educação Infantil: o filosofar em ação
Um dos aspectos mais fascinantes da Filosofia para Crianças é que ela não exige materiais sofisticados nem estruturas especiais. O que ela exige é tempo, intenção e um professor disposto a escutar. A seguir, apresentamos algumas práticas que têm se mostrado eficazes para estimular o ato de filosofar com crianças pequenas.
A roda de conversa filosófica é a atividade mais central do método P4C. O professor apresenta uma pergunta provocadora ou uma história curta. A partir daí, os alunos são convidados a falar, ouvir e responder uns aos outros. Perguntas como "O que é ser justo?", "Por que precisamos de amigos?" ou "Existe algo que nunca muda?" são exemplos que geram reflexões autênticas mesmo entre crianças de quatro ou cinco anos (LIPMAN; SHARP; OSCANYAN, 2001).
A contação de histórias filosóficas é outro recurso poderoso. Histórias que apresentam personagens diante de dilemas, como uma formiga que encontra um grão de comida e precisa decidir se divide ou não, criam oportunidades naturais para o debate ético. Diferentemente das fábulas tradicionais, que terminam com uma moral pronta, as histórias filosóficas deixam espaço para que as crianças tirem suas próprias conclusões. Kohan (2000) ressalta que a narrativa é a linguagem natural da infância e, por isso, é o ponto de entrada mais eficaz para o pensamento filosófico.
O desenho e a expressão artística também podem ser aliados da Filosofia. Após uma roda de conversa, pedir que as crianças desenhem "o que é felicidade" ou "como seria um mundo justo" transforma o pensamento abstrato em linguagem concreta e acessível. Essa ponte entre o filosófico e o artístico respeita as diferentes formas de expressão das crianças e valoriza aquelas que têm dificuldade de se expressar verbalmente, ampliando a participação de todos.
Por fim, o simples ato de acolher a pergunta espontânea da criança já é, em si, uma prática filosófica. Quando um aluno pergunta "Por que o céu é azul?" e o professor, em vez de dar a resposta científica imediata, responde com "Boa pergunta! O que você acha?", está abrindo uma porta para a investigação coletiva. Como afirma Dewey (1933), o pensamento reflexivo nasce sempre de uma situação de dúvida genuína.
3 CONCLUSÃO
Este artigo buscou mostrar que a Filosofia não depende da idade. A criança já pensa, questiona e busca sentidos para o mundo; cabe à escola acolher esse movimento e transformá-lo em aprendizado.
A grande contribuição de Matthew Lipman foi transformar essa teoria em um método prático e eficiente, utilizado há mais de cinquenta anos em diversos países. Suas ideias constituem um convite para mudar a forma como educamos nossos filhos e alunos, incentivando-os a serem pensadores ativos. Dewey, Vygotsky e Piaget reforçam essa premissa: a infância é marcada pela ação e pela descoberta, e dar espaço para o pensamento infantil é respeitar o potencial humano em sua totalidade.
A hipótese inicial deste estudo foi confirmada. A Filosofia na Educação Infantil não é um passatempo intelectual, mas uma necessidade urgente. Ela desenvolve o senso crítico, a empatia, a autonomia e o diálogo, características essenciais em um mundo que precisa, com urgência, de pessoas que pensem antes de agir e que saibam ouvir antes de julgar.
Por fim, vale lembrar que toda criança que pergunta "Por quê?" e recebe, em troca, atenção, respeito e um espaço seguro para continuar investigando, aprende a essência da Filosofia. Ela aprende que sua voz tem valor, que pensar exige coragem e que o conhecimento se constrói coletivamente. É esse olhar humanizado que a Filosofia tem de mais precioso a oferecer para a infância.
4 REFERÊNCIAS
ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. Filosofia da Educação. 2. ed. São Paulo: Moderna, 1996.
DEWEY, John. Como Pensamos. Tradução de Haydée de Camargo Campos. São Paulo: Nacional, 1959.
DEWEY, John. Experiência e Educação. Tradução de Anísio Teixeira. São Paulo: Nacional, 1971.
KOHAN, Walter Omar. Filosofia para Crianças. Rio de Janeiro: DP&A, 2000.
LIPMAN, Matthew. O Pensar na Educação. Tradução de Ann Mary Fighiera Perpétuo. Petrópolis: Vozes, 1995.
LIPMAN, Matthew; SHARP, Ann Margaret; OSCANYAN, Frederick S. A Filosofia na Sala de Aula. Tradução de Ana Luiza Fernandes Falcone. São Paulo: Nova Alexandria, 2001.
LORIERI, Marcos Antonio; RIOS, Terezinha Azerêdo. Filosofia na Escola: o prazer da reflexão. São Paulo: Moderna, 2004.
PIAGET, Jean. O Juízo Moral na Criança. Tradução de Elzon Lenardon. São Paulo: Summus, 1994.
VYGOTSKY, Lev Semionovich. A Formação Social da Mente. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1991.
VYGOTSKY, Lev Semionovich. Pensamento e Linguagem. Tradução de Jefferson Luiz Camargo. São Paulo: Martins Fontes, 1993.


