Teia de diálogos: estreitando laços na mediação escolar
Cristiana kagueiama[1]
Luciane dos Santos Rosa[2]
Ivonete Moreira de Souza[3]
Alice Maria Rodrigues Serafini[4]
RESUMO
A mediação escolar representa um método pedagógico para precaução e resolução de conflitos, contribuindo para a construção de relações baseadas no diálogo, no respeito e na cooperação. Este trabalho tem como objetivo analisar a importância da sensibilidade, da ética e da capacidade comunicativa na atuação do mediador diante de situações de conflito no ambiente escolar. Para tanto, apresenta-se uma situação hipotética ocorrida em uma turma do 1º ano do Ensino Fundamental, envolvendo dois estudantes de seis anos que se desentenderam em razão de um lápis de cor. A partir da situação apresentada, destaca-se a atuação da professora como mediadora, utilizando a escuta ativa, o diálogo, a imparcialidade e o acolhimento das emoções dos envolvidos. A análise fundamenta-se em contribuições teóricas sobre mediação escolar e resolução de conflitos, destacando autores como Chrispino e Chrispino (2011), Torremorell (2021) e FUNIBER (2025). A experiência evidencia que a mediação, quando conduzida de maneira ética e sensível, possibilita aos estudantes compreenderem seus sentimentos, desenvolverem a empatia e buscarem soluções colaborativas para os conflitos. Conclui-se que a mediação escolar ultrapassa a simples resolução de desentendimentos, constituindo-se como uma prática educativa capaz de favorecer o desenvolvimento de competências socioemocionais e contribuir para uma cultura escolar pautada no respeito, na comunicação e na convivência democrática.
Palavras-chave: Mediação escolar. Conflitos. Diálogo. Ética. Sensibilidade.
ABSTRACT
School mediation is a pedagogical method for conflict prevention and resolution, contributing to the building of relationships based on dialogue, respect, and cooperation. This study aims to analyze the importance of sensitivity, ethics, and communication skills in the mediator's role when addressing conflict situations within the school environment. To this end, a hypothetical scenario involving a first-grade class is presented, featuring two six-year-old students who had a disagreement over a colored pencil. Based on this scenario, the teacher's role as a mediator is highlighted, emphasizing the use of active listening, dialogue, impartiality, and the acknowledgment of the emotions of those involved. The analysis is grounded in theoretical contributions regarding school mediation and conflict resolution, citing authors such as Chrispino and Chrispino (2011), Torremorell (2021), and FUNIBER (2025). The experience demonstrates that mediation, when conducted ethically and sensitively, enables students to understand their feelings, develop empathy, and seek collaborative solutions to conflicts. It is concluded that school mediation goes beyond the mere resolution of disagreements; it constitutes an educational practice capable of fostering the development of socio-emotional skills and contributing to a school culture rooted in respect, communication, and democratic coexistence.
Keywords: School mediation. Conflicts. Dialogue. Ethics. Sensitivity.
INTRODUÇÃO
Este trabalho objetiva examinar a aplicação dos princípios da sensibilidade, ética e capacidade comunicativa em uma situação de mediação, que busca impulsionar e promover um ambiente de tranquilidade, que irá refletir no bom relacionamento entre os alunos através do diálogo, da mediação e da transformação dos atritos em momentos de desenvolvimento pessoal.
A mediação é um método fundamental no espaço escolar, propiciando a solução das divergências criada pelos alunos. A FUNIBER (2025), propõem que, a mediação é um instrumento que tem como objetivo converter conflitos em possibilidades de aprimorar conhecimentos e desenvolvimento individual do aluno. Sendo assim, os preceitos que se baseia na incumbência de mediador são essenciais para assegurar a eficiência desta medida, visto que a atuação do mediador precisa ser guiada por bases como sensibilidade, ética, diálogo, escuta, participação, criatividade e respeito aos direitos humanos.
Segundo Chrispino e Chrispino (2011), "o conflito não deve ser compreendido apenas como um problema, mas como uma oportunidade de aprendizagem, desde que seja administrado por meio do diálogo e da mediação".
Partindo desse conceito, a atividade apresenta uma situação hipotética de mediação escolar, identifica as ações que norteiam o desempenho do mediador e busca inserir mensagens positivas que conscientizem as boas ações e a solução dos problemas enfrentados no dia a dia dentro da escola.
Evidenciamos aqui, a sensibilidade, a ética e a capacidade comunicativa que são de suma importância para êxito da mediação. A sensibilidade possibilita ao mediador compreender os sentimentos dos envolvidos, auxiliando-os na demonstração de suas emoções com segurança.
Segundo Torremorell (2021), a mediação escolar pressupõe uma mudança de postura que exige sensibilizar toda a comunidade educativa, estimulando a escuta empática e o acolhimento das emoções para que os envolvidos consigam superar os atritos de forma colaborativa. Partindo dessa crença a mediação é um instrumento de modificação coletiva que tem como objetivo conscientizar a clientela escolar para entender as necessidades do outro, além dos conflitos fúteis.
DESENVOLVIMENTO
A mediação de conflitos no ambiente escolar constitui uma importante estratégia pedagógica para favorecer a convivência, o diálogo e o desenvolvimento de habilidades socioemocionais entre os estudantes. No contexto dos anos iniciais do Ensino Fundamental, os conflitos fazem parte das relações estabelecidas entre as crianças e podem surgir a partir de situações cotidianas, como o compartilhamento de materiais, as brincadeiras e as divergências de opiniões. Quando conduzidos de maneira adequada pelo professor, esses momentos podem ultrapassar a simples resolução de um problema pontual e transformar-se em oportunidades de aprendizagem e desenvolvimento pessoal.
A situação analisada ocorreu em uma turma do 1º ano do Ensino Fundamental I do CME Fausto Eugênio Masson, localizado no município de Tangará da Serra, Mato Grosso, envolvendo dois estudantes, João e Vitor, ambos com seis anos de idade. O conflito teve início em decorrência de um lápis de cor. João afirmou que Vitor havia pegado o seu material, enquanto Vitor negou a acusação. Inicialmente, tratava-se de uma situação simples, porém, com a intervenção dos demais alunos da turma, o desentendimento foi se intensificando, tornando necessária a intervenção da professora.
Diante da situação, a professora interrompeu momentaneamente as atividades que estavam sendo desenvolvidas e conduziu os dois estudantes para uma sala ao lado, buscando proporcionar um ambiente mais tranquilo e reservado para a realização da mediação. Essa decisão foi importante para evitar a exposição dos envolvidos diante dos demais colegas e, ao mesmo tempo, possibilitar que ambos pudessem expressar seus sentimentos e apresentar suas versões sobre o ocorrido.
Inicialmente, a professora ouviu João e, posteriormente, Vitor, garantindo a cada estudante a oportunidade de falar sem interrupções. Essa postura demonstra a importância da escuta ativa no processo de mediação, uma vez que ouvir os envolvidos possibilita compreender não apenas o fato que originou o conflito, mas também os sentimentos, percepções e interpretações construídas por cada criança. Nesse sentido, o diálogo apresenta-se como elemento indispensável para a resolução e transformação das situações conflituosas. Conforme a FUNIBER (2025), “a comunicação, especificamente o diálogo, é o exercício e a prática que pauta qualquer intento de resolução e transformação de conflito”.
Durante a mediação, a professora procurou manter uma postura imparcial, acolhedora e respeitosa, sem atribuir previamente culpa a nenhum dos estudantes. Em vez de determinar quem estava certo ou errado, buscou favorecer a compreensão da situação pelos próprios envolvidos. Essa atitude contribuiu para que João e Vitor pudessem refletir sobre o ocorrido e compreender que o conflito poderia ser solucionado por meio da conversa, da escuta e da colaboração.
Após a exposição das diferentes versões, a professora promoveu um diálogo respeitoso entre os estudantes, incentivando-os a expressar seus sentimentos e a pensar conjuntamente em uma solução para o problema. No decorrer da conversa, verificou-se que o lápis havia sido colocado por engano no estojo de Vitor durante a organização dos materiais escolares. Dessa maneira, constatou-se que o conflito havia sido desencadeado por um equívoco e não por uma ação intencional de apropriação do material do colega.
A partir dessa constatação, os estudantes tiveram a oportunidade de reconhecer a situação e assumir uma postura de responsabilidade diante do ocorrido. João compreendeu a necessidade de refletir antes de realizar acusações, enquanto Vitor pôde explicar que não havia pegado o lápis intencionalmente. Ao final da mediação, ambos pediram desculpas um ao outro e estabeleceram um acordo para colaborar na organização dos materiais e evitar novos desentendimentos.
A intervenção realizada pela professora evidencia que a mediação escolar não deve ser compreendida apenas como um mecanismo destinado a solucionar conflitos, mas também como uma prática educativa. Nesse processo, as crianças são incentivadas a desenvolver competências relacionadas à empatia, ao respeito, à responsabilidade, à comunicação e à convivência com o outro. Assim, o conflito deixa de ser entendido exclusivamente como um problema e passa a ser considerado uma possibilidade de aprendizagem e construção de valores.
Nesse contexto, três princípios fundamentais da mediação destacam-se na situação apresentada: sensibilidade, ética e capacidade comunicativa. Esses princípios estão diretamente relacionados à atuação do professor enquanto mediador e à construção de um ambiente escolar pautado pelo respeito e pela convivência democrática.
A sensibilidade esteve presente na maneira como a professora acolheu as emoções dos estudantes, demonstrando compreensão diante do desentendimento e criando condições para que ambos se sentissem seguros para falar. A escolha de um espaço reservado também contribuiu para preservar a individualidade das crianças e evitar que o conflito fosse transformado em motivo de exposição ou constrangimento diante dos demais colegas. A postura sensível do mediador permite reconhecer que, mesmo diante de uma situação aparentemente simples, as crianças podem experimentar sentimentos como tristeza, raiva, frustração ou injustiça, necessitando de orientação para compreender e administrar essas emoções.
Outro princípio evidenciado é a ética, compreendida como o respeito à dignidade, à individualidade e aos direitos dos envolvidos no processo de mediação. A professora buscou tratar João e Vitor de maneira democrática, oferecendo a ambos as mesmas oportunidades de manifestação e evitando julgamentos precipitados. Além disso, sua intervenção teve como objetivo impedir que o desentendimento evoluísse para agressões físicas ou verbais. Conforme a FUNIBER (2025), a dimensão ética da mediação está relacionada à garantia de um tratamento respeitoso e democrático aos envolvidos, preservando sua integridade durante o processo.
A capacidade comunicativa, por sua vez, mostrou-se essencial para o desenvolvimento da mediação. Por meio da escuta ativa, da formulação de perguntas e da organização do diálogo, a professora auxiliou os estudantes a compreenderem melhor a situação e a expressarem seus sentimentos. A comunicação não se limitou à transmissão de informações sobre o lápis, mas possibilitou que as crianças refletissem sobre suas atitudes e sobre os efeitos que determinadas ações podem produzir nas relações interpessoais.
Nesse sentido, a escuta ativa assume papel relevante, pois permite que cada estudante seja ouvido com atenção, sem interrupções e sem julgamentos. Essa prática contribui para que as crianças percebam que seus sentimentos e opiniões são valorizados, ao mesmo tempo em que aprendem a reconhecer e respeitar a perspectiva do outro. Dessa forma, a comunicação torna-se um instrumento pedagógico capaz de contribuir para a construção de relações mais saudáveis e cooperativas no espaço escolar.
O objetivo da mediação, portanto, não se restringiu à resolução imediata do impasse envolvendo o lápis de cor. A intervenção buscou proporcionar aos estudantes uma experiência educativa na qual pudessem compreender suas emoções, refletir sobre suas atitudes e desenvolver a empatia. Ao reconhecerem o equívoco ocorrido e pedirem desculpas mutuamente, João e Vitor demonstraram que o diálogo possibilitou a reconstrução da relação entre os colegas.
A experiência evidencia, ainda, a importância da atuação docente na formação integral dos estudantes. No 1º ano do Ensino Fundamental, as crianças estão em processo de construção de valores, regras de convivência e habilidades sociais. Portanto, situações de conflito, quando mediadas de maneira intencional e pedagógica, podem contribuir para o desenvolvimento da autonomia e da capacidade de resolver problemas de forma pacífica.
Desse modo, a mediação escolar apresenta-se como uma prática que articula aspectos pedagógicos, sociais e emocionais. A atuação do professor, pautada pela sensibilidade, pela ética e pela capacidade comunicativa, pode transformar situações de conflito em experiências significativas de aprendizagem. No caso analisado, a intervenção possibilitou não apenas solucionar o desentendimento entre João e Vitor, mas também favorecer a reflexão sobre respeito, empatia, responsabilidade e diálogo, contribuindo para a construção de um ambiente escolar mais acolhedor e favorável à convivência.
CONCLUSÃO
A mediação escolar demonstrada no caso de João e do Vitor excede a simples contenção de conflitos sem muita relevância, definindo-se como um catalisador de transformação nos processos de convivências e na cultura institucional. Ao estimular o debate e a alteridade, a mediação habilita os educandos a aperfeiçoar suas competências socioemocionais que são fundamentais para a vida cotidiana, tais como a empatia e a promoção da heterogeneidade. Dessa forma, a perpetuidade das ações mediadoras, fundamentadas nas hipóteses teóricas debatidas, firma a transformação para um contexto pedagógico em que as discordâncias deixam de ser vista como obstáculos negativos e passam a serem redefinidas como incentivador de maturação e senso de cooperação coletiva.
A mediação no centro institucional é um instrumento eficaz para proporcionar um espaço de respeito e cooperação. Os princípios de sensibilidade, ética e a capacidade comunicativa são essenciais para o êxito desse procedimento, possibilitando que os educandos aprendam a solucionar seus problemas de forma positiva.
Segundo a FUNIBER (2025), a mediação como técnica factível e privilegiada que por suas características é tido como a melhor opção para a resolução de conflitos. Visto que ao adotar práticas de mediação, professores auxiliam na resolução dos conflitos e potencializam o desenvolvimento de cidadãos mais preparados para conviver em sociedade, conscientes de seus direitos e deveres, atuando como agentes de transformação de seu meio social.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CHRISPINO, Álvaro; CHRISPINO, Raquel. Políticas educacionais de redução da violência: mediação do conflito escolar. São Paulo: Biruta, 2011.
FUNIBER (2025). Âmbito Escolar, conflitos e mediações: Aspectos Introdutórios. In: Resolução e Transformação de Conflitos no Âmbito Escolar. (p. 1). Barcelona. Espanha.
FUNIBER. (2025). Visando a transformação: Prática de Mediação Escolar. In: Resolução e Transformação de Conflitos no Âmbito Escolar. (pp.15-22); Barcelona. Espanha.
TORREMORELL, Maria Carme Boqué. Mediação de conflitos na escola: modelos, estratégias e práticas. Tradução: Carlos S. Mendes Rosa. São Paulo: Summus Editorial, 2021.

