SÍNDROME HIPERTENSIVA ESPECÍFICA DA GESTAÇÃO: REPERCUSSÕES MATERNO-FETAIS
Maria Adriana Guerreiro Campos [1]
Luciano Silva de Oliveira[2]
RESUMO
A Doença Hipertensiva Específica da Gestação (DHEG), substituída pela expressão Síndrome Hipertensiva Específica da Gestação (SHEG) possui etiopatogenia desconhecida, vem aumentando consideravelmente nos últimos anos e está relacionada com altas taxas de mortalidade materna e fetal, caracteriza-se por hipertensão arterial, proteinúria e/ou edema. Os profissionais de saúde, em especial os enfermeiros devem identificar os fatores de risco para o desenvolvimento da mesma, bem como o diagnóstico precoce e atentar para as repercussões que ela pode causar tanto para a mãe quanto para o feto. E para que isso aconteça é essencial que o pré-natal seja realizado adequadamente. A presente pesquisa tem como objetivo demonstrar a importância da assistência de enfermagem prestada às gestantes portadoras de SHEG durante o pré-natal, identificando os principais fatores de risco para o desenvolvimento da SHEG, buscando registros em artigos científicos das complicações materno-fetais em gestantes com SHEG. Trata-se de uma pesquisa baseada na revisão sistemática de literatura, o estudo em questão foi desenvolvido por meio de pesquisa de caráter descritivo, com abordagem quanti-qualitativa, o método utilizado foi o levantamento através de artigos científicos na base de dados da Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e no Scientific Electronic Library Online (SCIELO). Detectou-se que os autores confirmam que a SHEG é um fator de risco que merece ênfase, uma vez que pode desenvolver diversas complicações ao binômio mãe e feto, destacando: Síndrome HELLP, internação em unidade de terapia intensiva, crescimento intrauterino restrito, baixo peso ao nascer, sofrimento fetal crônico, infecção neonatal, deslocamento prematuro de placenta, síndrome de aspiração de mecônio e síndrome da angústia respiratória, comprometendo a evolução da gestação e até mesmo levar ao óbito materno e/ou fetal. Diante dos estudos analisados observa-se a importância do diagnóstico precoce e a importância da participação do profissional enfermeiro na reorganização das práticas em saúde materno-fetal.
Palavras-chave: Assistência, Complicações, Gravidez.
ABSTRACT
Gestational Hypertensive Disease (DHEG), which has been replaced by the term "Specific Hypertensive Syndrome of Gestation" (SHEG), has an unknown etiopathogenesis, has been increasing considerably in recent years and is related to high rates of maternal and fetal mortality, characterized by hypertension, Proteinuria and / or edema. Health professionals, especially nurses, should identify the risk factors for their development, as well as the early diagnosis and pay attention to the repercussions that it can cause for both the mother and the fetus. And for this to happen it is essential that prenatal care be performed properly. The present research aims to demonstrate the importance of nursing care provided to pregnant women with SHEG during prenatal care, identifying the main risk factors for the development of SHEG, searching for records in scientific articles about maternal-fetal complications in pregnant women with SHEG. It is a research based on the systematic review of literature, the study in question was developed through a descriptive research, with quantitative-qualitative approach, the method used was the survey through scientific articles in the Latin Literature database -American and Caribbean in Health Sciences (LILACS) and the Scientific Electronic Library Online (SCIELO). It was found that the authors confirm that SHEG is a risk factor that deserves emphasis, since it can develop several complications to the mother and fetus binomial, highlighting: HELLP syndrome, hospitalization in intensive care unit, restricted intrauterine growth, low weight Chronic fetal distress, neonatal infection, placental abruption, meconium aspiration syndrome and respiratory distress syndrome, compromising the evolution of gestation and even leading to maternal and / or fetal death. Considering the studies analyzed, the importance of early diagnosis and the importance of the participation of the nurse practitioner in the reorganization of maternal-fetal health practices are observed.
Keywords: Care, Complications, Pregnancy.
Introdução
A gravidez é um processo natural e dinâmico, que envolve diversas mudanças, no entanto, podem surgir algumas patologias neste período. Dentre os eventos patológicos que podem acometer as gestantes, encontra-se a Doença Hipertensiva Específica da Gestação (DHEG) cuja etiopatogenia é desconhecida, caracteriza-se pela pressão arterial igual ou superior a 140X90 mmHg, surge após a 20º semana de gestação podendo se estender até o puerpério imediato (FRANÇA, 2010).
De acordo com Souza, Araujo e Costa (2011) a expressão Doença Hipertensiva Específica da Gestação (DHEG) tem sido substituída pela Síndrome Hipertensiva Específica da Gestação (SHEG). Dessa forma foi utilizada na presente pesquisa a terminologia DHEG e SHEG, sendo empregado SHEG nas referências mais atuais.
A SHEG é classificada em hipertensão gestacional sem proteinúria, hipertensão crônica ou pré-existente, pré-eclampsia sobreposta à hipertensão crônica, pré-eclampsia leve ou grave e eclampsia (LEVENO et al., 2005).
A pré-eclampsia caracteriza-se pela tríade hipertensão, proteinúria e edema. Na eclampsia a gestante além da tríade apresenta edema generalizado, convulsões, delírios, confusão mental, podendo levar a mãe e o feto a óbito (BRUNO; PARTAMIAN, 2010).
Neste contexto, o objetivo primordial deste estudo é demonstrar a importância da assistência de enfermagem prestada às gestantes portadoras de SHEG durante o pré-natal, identificar os principais fatores de risco para o desenvolvimento da SHEG e as complicações materno-fetais em gestantes com SHEG.
Desenvolvimento
Dentre as doenças maternas durante o período gestacional, destaca-se a SHEG que têm sido aplicada no campo profissional e acadêmico, substituindo à expressão DHEG, 10 % das gestantes são acometidas por esta síndrome, que se destaca como uma causa importante de mortalidade materno-fetal, entretanto sua etiopatogenia é desconhecida (SOUZA; ARAUJO; COSTA, 2011).
A SHEG é classificada em hipertensão gestacional sem proteinúria, observada pela primeira vez após a 20º semana de gestação, pode evoluir para pré-eclampsia e na forma mais grave desencadear altos índices de prematuridade e retardo de crescimento fetal (LANA; MOREIRA, 2012).
Hipertensão crônica ou pré-existente diagnosticada antes da gestação, ou observada pela primeira vez durante a gravidez, a pressão arterial elevada persiste além da 12º semana pós-parto (PASCOAL, 2002; TURNER, 2009).
Pré-eclampsia sobreposta à hipertensão crônica, é o aparecimento da pré-eclampsia em mulheres com hipertensão crônica ou doença renal, nessas gestantes, esta condição tende a agravar e a proteinúria aparece ou agrava após a 20ª semana de gravidez, pode surgir trombocitopenia (plaquetas <100.000/ mm3) e incidir no aumento das enzimas hepáticas (FERRÃO et al., 2006).
Pré-eclampsia ocorre após 20 semanas de gestação (ou antes, em episódios de doença troboblástica gestacional ou hidropsia fetal) seguida de proteinúria, com desaparecimento até 12 semanas pós-parto, na ausência de proteinúria, suspeita-se quando ocorre o aumento da pressão acompanhado por cefaleia, distúrbios visuais, algia abdominal, plaquetopenia e aumento de enzimas hepáticas, é uma das principais causas de morbimortalidade materna, comumente acomete primigesta, apresenta maior incidência em gestações múltiplas (BRASIL, 2012a).
A pré-eclampsia é classificada conforme o grau de comprometimento em leve ou grave, sendo considerada grave quando apresenta um ou mais dos seguintes critérios: pressão arterial diastólica igual/maior que 110mmHg, proteinúria igual/maior que 5,0g em 24 horas ou 2 cruzes em fita urinária, oligúria, níveis séricos de creatinina maiores que 1,2mg/dL, sinais de encefalopatia hipertensiva (cefaleia e distúrbios visuais), dor epigástrica ou no hipocôndrio direito, evidência clínica e/ou laboratorial de coagulopatia, plaquetopenia (<100.000/mm3), aumento de enzimas hepáticas alanina aminotransferase (ALT) ou transaminase glutâmico pirúvica (TGP), aspartato aminotransferase (AST) ou transaminase glutâmico oxalacética (TGO), lactato desidrogenase (DHL) e de bilirrubinas, presença de esquizócitos em esfregaço de sangue periférico (KAHHALE; ZUGAIB, 2004). Estes critérios são indicativos para a antecipação terapêutica do parto devido às condições maternas, já em relação ao feto a indicação do parto antecipado ocorre de acordo com os seguintes achados clínicos: comprometimento da vitalidade do fetal, restrição do crescimento intrauterino e oligohidrâmnio (BRASIL, 2012a).
A eclampsia incide quando surgem as convulsões generalizadas e/ou coma, em gestantes, na ausência de doenças neurológicas que a justifiquem, pode ocorrer no período gestacional, durante a evolução do trabalho de parto e no puerpério imediato (LEAL, 2004).
Conforme Sallum e Paranhos (2010) a Síndrome Hellp (SH) é uma complicação da pré-eclampsia, caracterizada por hemólise, elevação das enzimas hepáticas, plaquetopenia e infarto hepático.
Dentre os principais fatores de risco estão: nuliparidade, extremos de idade materna (abaixo de 20 anos e acima de 35 anos), raça negra, obesidade, diabetes, doença vascular crônica, pré-eclampsia em gestação anterior, gestação gemelar, doença renal, excesso de esforço físico ou psíquico, hidropsia fetal, pode haver associação entre infecções do trato urinário e maior propensão à pré-eclampsia (SALLUM; PARANHOS, 2010; FERRÃO et al., 2006).
O diagnóstico é clínico e laboratorial, fundamenta-se na presença de pressão arterial igual ou superior a 140x90 mmHg associado a edema e proteinúria ou aumento de peso superior a 1 Kg por semana.
Brasil (2012b) afirma que toda cliente com diagnóstico de pré-eclampsia deve ser hospitalizada para acompanhamento em unidade de gestação de alto risco, uma vez que mesmo em casos leve pode desencadear complicações tanto para a gestante quanto o feto ou até mesmo levar ao óbito.
As gestantes portadoras de hipertensão crônica devem manter o medicamento hipotensor, exceto se for contra indicado o uso durante a gravidez. As gestantes com hipertensão que apresentam risco de desencadear complicações também devem fazer uso de terapia anti-hipertensiva (SOUZA et al., 2010).
Dentre as principais complicações que a SHEG proporciona podemos destacar: complicações renais e pulmonares materna, SH, complicação cardiovascular materna, descolamento prematuro de placenta (DPP), internação materna e/ou neonatal em unidade de terapia intensiva (UTI), crescimento intrauterino restrito (CIUR), baixo peso ao nascer, prematuridade, sofrimento fetal crônico, recém nascido pequeno para idade gestacional, Apgar baixo no 1º e 5º minuto, infecção neonatal, síndrome da angústia respiratória (SAR), asfixia intraútero, óbito materno e perinatal (OLIVEIRA et al, 2006).
Duarte e Andrade (2008) afirmam que a assistência ao pré-natal é o melhor método para prevenir complicações obstétricas, pois identifica previamente o risco gestacional, desta maneira não deve restringir-se somente às ações clínicas-obstétricas, mas sim abranger uma assistência integral, compreendendo aspectos sociais, econômicos e culturais, visando à redução da mortalidade materna e fetal.
Freitas et al. (2011) enfatiza que a finalidade do pré-natal é assegurar uma boa evolução na gestação de baixo risco e identificar precocemente gestantes com maior propensão para uma evolução gestacional desfavorável tanto pra ela quanto para o feto, denominadas gestantes de alto risco.
Nota-se que a realização do diagnóstico de enfermagem é de extrema importância, bem como toda a sistematização da assistência de enfermagem (SAE) uma vez que permite elaborar um plano de cuidados individualmente, visando uma assistência integral, resolutiva e humanizada.
Conclusão
A saúde da mulher tem sido reconhecida como prioridade, entretanto, ainda há um elevado índice de mortalidade materna e fetal, devido complicações na gravidez e/ou parto, especialmente quando a assistência ao pré-natal é ineficaz.
Como foi apontado nesta pesquisa a SHEG complica 10 a 22% das gestações e vem aumentando consideravelmente nos últimos anos, desencadeando diversas complicações materno-fetais.
Os resultados deste estudo evidenciam a sobreposição à pré-eclampsia, eclampsia, crise hipertensiva, complicações renais e pulmonares materna, SH, complicação cardiovascular materna, DPP, internação materna e/ou neonatal em UTI, CIUR, baixo peso ao nascer, prematuridade, sofrimento fetal crônico, RN PIG, Apgar baixo no 1º e 5º minuto, infecção neonatal, SAM, SAR, asfixia intraútero, óbito materno e perinatal como as principais complicações que a SHEG proporciona.
Contudo, acreditamos na importância da realização de um pré-natal efetivo, visando identificar os fatores de risco para o desenvolvimento da SHEG, o diagnóstico precoce, o controle e prevenção de danos ao binômio mãe/feto. Contribuindo deste modo com a redução das taxas de morbimortalidade desta síndrome.
Diante dos resultados deste estudo, salientamos que o enfermeiro tem um papel fundamental na atenção a saúde da gestante de baixo e de alto risco, proporcionando a assistência de forma integral. A intervenção de enfermagem frente a gestante com SHEG deve ser efetiva, visando minimizar as complicações que a mesma causa à mãe e ao feto, sendo indispensável o auxílio da equipe multidisciplinar no acompanhamento e tratamento destas gestantes.
REFERÊNCIAS
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