O PROCESSO DE DESENVOLVIMENTO INFANTIL NUMA CONCEPÇÃO LÚDICA
Daniele Rosa de Oliveira1
Artigo científico apresentado à Universidade Candido Mendes – UCAM, como requisito parcial para a obtenção do título de Especialista em Gestão Educacional e Educação Infantil.
RESUMO
O presente estudo faz referências às atividades lúdicas, que utilizadas como metodologia de trabalho no processo de ensino-aprendizagem, podem desenvolver diversas habilidades e atitudes no processo educacional da criança. Uma proposta lúdicoeducativa torna-se um desafio à prática do professor, pois não basta apenas selecionar, preparar, planejar e aplicar os jogos, precisa também participar no decorrer da aplicação do jogo. É necessário jogar, brincar com as crianças, mas sempre observando, no desenrolar, as interações e trocas de saberes entre eles. Ainda, O brincar infantil constitui a forma básica mais importante e decisiva do ser humano, por fazer desabrocharem e ativarem as forças criativas da criança. A fantasia infantil necessita de liberdade para poder desenvolver pelo manuseio ativo e curioso do material que a criança tem oportunidade de vivenciar no mundo, as formas e a qualidade de tudo que existe. Para as crianças, o brincar e o jogar são modos de aprender e se desenvolver. Não importa que não saibam disso. Ao fazer essas atividades, elas vivem experiências fundamentais. Para fundamentar esse estudo, fez-se necessário recorrer a bibliografias de especialistas como: Wajskop (1997), Heinkel (2003), Vygotsky (1999), Moura (2005), Kishimoto (1999), Almeida (1984), Santos (1999), Fortuna (2001) e Friedmann (1996).
Palavras-Chave: Concepções Lúdicas. Desenvolvimento Infantil. Metodologia de Trabalho.
Introdução
A atividade lúdica longe de ser uma concepção ingênua de passatempo, diversão superficial, brincadeira, é uma ação inerente à criança e aparece como forma transacional em direção a algum conhecimento, que se reorganiza nas trocas entre o pensamento individual e o coletivo (ALMEIDA, 2003). Ainda, segundo o autor:
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1. Graduada em Pedagogia pela Universidade Norte do Paraná – UNOPAR, aluna do curso de pós-graduação Lato sensu em Gestão Educacional e Educação Infantil pela Universidade Cândido Mendes – UCAM, atua como professora da rede Estadual de Colíder /MT.
Educar ludicamente tem um significado muito profundo e está presente em todos os segmentos da vida. Por exemplo, uma criança que joga bolinha de gude ou brinca de boneca com seus companheiros não está simplesmente brincando e se divertindo; está desenvolvendo e operando inúmeras funções cognitivas e sociais; ocorre o mesmo com uma mãe que acaricia e se entretém com a criança, com um professor que se relaciona bem com seus alunos ou mesmo um cientista que prepara prazerosamente sua tese ou teoria. Eles educam-se ludicamente, pois combinam e integram a mobilização das relações funcionais ao prazer de interiorizar o conhecimento e a expressão de felicidade que se manifesta na interação com os seus semelhantes (p. 14)
Nesse sentido, precisa-se compreender a importância da atividade lúdica como elemento imprescindível no desenvolvimento infantil.
O presente estudo é de cunho bibliográfico e tem como objetivo focalizar as atividades lúdicas que são alternativas metodológicas facilitadoras do aprendizado da criança, sendo importantíssimo seu uso de maneira extensiva para facilitar a aquisição do conhecimento e interação. Através da brincadeira a criança descobre papéis sociais, seus limites, incorporam novas habilidades e formulam novos conceitos de si mesma, é capaz de explorar o mundo e compreender regras, além de ser uma prática dinâmica e inovadora, instiga a criança a aprender de forma significativa e prazerosa.
Uma proposta lúdicoeducativa torna-se um desafio à prática do professor, pois não basta apenas selecionar, preparar, planejar e aplicar os jogos, precisa também participar no decorrer da aplicação do jogo. É necessário jogar, brincar com as crianças, mas sempre observando, no desenrolar, as interações e trocas de saberes entre eles.
Desenvolvimento
O brincar infantil constitui a forma básica mais importante e decisiva do ser humano, por fazer desabrocharem e ativarem as forças criativas da criança. A fantasia infantil necessita de liberdade para poder desenvolver pelo manuseio ativo e curioso do material que a criança tem oportunidade de vivenciar no mundo, as formas e a qualidade de tudo que existe. Para as crianças, o brincar e o jogar são modos de aprender e se desenvolver. Não importa que não saibam disso. Ao fazer essas atividades, elas vivem experiências fundamentais.
Segundo Wajskop (1997, p. 25), a “brincadeira é uma atividade humana, na qual as crianças são introduzidas constituindo-se em um modo de assimilar e recriar a experiência sociocultural dos adultos”.
Nessa perspectiva, a brincadeira pode ser vista como conduta do ser humano que se configura com base nos processos sociais que operam tendentes a gerar modos de viver e pensar.
Para Heinkel (2003), a criança que brinca está em constante processo de construção e reconstrução, pois é brincando que revela seus medos, alegrias, angústias, tristezas, frustrações, ansiedades, sentimentos, esses importantes para sua formação.
Dessa forma, o brincar propicia o rompimento das limitações e, metaforicamente, transforma e amplia a capacidade criativa, potencialidades próprias da infância.
Para Vygotsky (1999):
[...] brincar é essencial à saúde física, emocional e intelectual do ser humano. Brincar é coisa séria, também, por que na brincadeira não há trapaça, há sinceridade e engajamento voluntário e doação. Brincando nos reequilibramos, reciclamos nossas emoções e nossa necessidade de conhecer e reinventar. E tudo isso desenvolvendo atenção, concentração e muitas outras habilidades. É brincando que a criança mergulha na vida, sentindo-a na dimensão de suas possibilidades. No espaço criado pelo brincar nessa aparente fantasia, acontece a expressão de uma realidade interior que pode estar bloqueada pela necessidade de ajustamento às expectativas sociais e familiares. A brincadeira espontânea proporciona oportunidades de transferências significativas que resgatam situações conflituosas (p. 67).
Fica evidente que atividades lúdicas são alternativas metodológicas facilitadoras do aprendizado da criança, sendo importantíssimo seu uso de maneira extensiva para facilitar a aquisição do conhecimento e interação.
Através da brincadeira a criança descobre papéis sociais, seus limites, incorporam novas habilidades e formulam novos conceitos de si mesma, é capaz de explorar o mundo e compreender regras.
O lúdico é a base de toda a atividade da educação da infância, pois é meio de motivação para a criança, que pode dar origem a processos de aprendizagens importantes, fonte de descoberta e prazer. Ludicidade é a espontaneidade em trabalhar, fazendo a comunicação entre a fantasia, o brincar e o real.
... as atividades lúdicas são ferramentas indispensáveis no desenvolvimento infantil, por que para a criança não há atividade mais completa do que o brincar. Pela brincadeira, a criança é introduzida no meio sociocultural do adulto, constituindo-se num modelo de assimilação e recreação da realidade (SANTOS, 1999, p. 7).
O lúdico é, portanto, uma das maneiras eficazes para envolver as crianças nas atividades de construção de conhecimento, contribuindo para a formação do cidadão, e são várias as suas manifestações: jogar, brincar, recrear, lazer. Enquanto se divertem, as crianças se conhecem, aprendem e descobrem o mundo.
O brincar pode integrar-se às atividades educativas, ocupando lugar nos momentos de aprendizagem, com a tarefa de interagir com a criança por meio de experiências lúdicas. A concepção de brincar como forma de desenvolver a autonomia das crianças requer um uso livre de brinquedos e de material, que permita a expressão dos projetos criados pela criança. Só assim, o brincar contribui para a construção da autonomia.
Kishimoto (1999, p. 38) diz que:
A utilização do jogo e das brincadeiras potencializam a exploração e a construção do conhecimento, por contar com a motivação interna típica do lúdico, mas o trabalho pedagógico requer a oferta de estímulos externos e a influência de parceiros, bem como a sistematização de conceitos em outras situações que jogos ou brincadeiras.
Diante disso, é evidente que a aventura do viver, do brincar e do sentir podem ser também a aventura prazerosa na aprendizagem. Isso acontece nos momentos e situações em que as crianças conseguem se comunicar, mediante linguagens comuns a si mesmas, às outras crianças, interagindo e explorando o mundo, em constantes construções. A criança chega ao mundo aberta para os aprendizados da vida. Durante a primeira infância e só neste momento possui uma abertura para conhecer, capaz de apreender, compreender, construir, formar, desenvolver habilidades que carrega consigo durante toda a vida.
Todavia, a educação é um desafio aos educadores, mesmo os que estão engajados na educação infantil, ao proporcionar a seus educandos aprendizagens significativas, capazes de leva-los à construção de seu próprio conhecimento. Almeida (1984, p.40), diz que através da utilização de jogos e brincadeiras é possível trabalhar conteúdos que poderão ser ensinados através de atividades lúdicas, sendo que as descobertas da criança ajudarão na transformação da realidade.
No ambiente escolar, o professor precisa garantir uma aprendizagem continua, onde a acriança amplie não somente sua aprendizagem, mas desenvolva fatores sociais, emocionais, físicos, entre tantos outros que junto com os fatores intelectuais tornarão a aprendizagem mais abrangente e formadora (SANTOS, 1999, p. 9).
Nesse caso, o brincar é indispensável como estratégia de ensino e condicionador da aprendizagem. Por tanto, brincar torna-se indispensável à criança. Segundo Bettelheim (1988, p. 168), a maior importância da brincadeira está no prazer imediato da criança, que se estende e se transforma num prazer de viver, sendo também a ferramenta mais importante que possui para se preparar para o futuro.
O brincar exerce uma função essencial no processo educacional da criança, pois implica de forma prazerosa e significativa a construção de sua personalidade. É nos primeiros anos de vida que a criança irá compreender e se inserir em seu grupo, construir a função simbólica, desenvolver a linguagem, explorar e conhecer o seu ambiente.
A atividade lúdica na escola de educação infantil deve estimular a inteligência, a imaginação e a criatividade da criança como também possibilitar o exercício de concentração, atenção e engajamento, tendo uma relação direta com a formação da motricidade da criança, já que o controle consciente do movimento no jogo e na brincadeira é muito maior do que em outra atividade realizada por instrução.
O brincar chega, então, à escola com o objetivo de facilitar a aprendizagem do aluno. O ambiente escolar deve estimular o aparecimento das potencialidades da criança, respeitando o tempo necessário para a aprenderem.
Uma proposta lúdicoeducativa torna-se um desafio à prática docente. O educador além de planejar, organizar e aplicar os jogos precisa participar da atividade, sempre observando as interações e trocas de saberes, estabelecida entre eles. “[...] brincar e aprender ensinam ao professor, por meio de sua ação, observação e reflexão, incessantemente renovadas, como e o que o aluno conhece” (FORTUNA, 2001, p. 118).
Ao introduzir a atividade lúdica no contexto educacional o educador deve ter clareza de seus objetivos e saber o porquê de sua utilização. De acordo com Friedmann (1996), algumas questões devem ser levantadas:
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Fazer um diagnóstico do comportamento do grupo, coletivo e individual;
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Saber qual o estágio de desenvolvimento em que se encontram as crianças;
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Conhecer os valores, as ideias, as necessidades e interesses, os conflitos e problemas das crianças;
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Identificar os desafios cognitivos que os jogos podem propor às crianças
O educador não pode desenvolver atividades lúdicas somente para preencher o tempo de aula quando não tem mais atividades e conteúdos para transmitir, tampouco utilizar o jogo pelo jogo, sem um caráter didático-pedagógico. O educador precisa saber sobre o jogo, o lúdico e para que serve.
O brincar proporciona uma ética da aprendizagem em que as necessidades básicas das crianças devem ser satisfeitas (FRIEDMANN, 1996). Entre elas incluem as oportunidades de:
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Praticar, escolher, preservar, imitar, imaginar, adquirir competências e confiança;
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Adquirir novos conhecimentos, habilidades, pensamentos e entendimento coerentes e lógicos;
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Criar, observar, experimentar, movimentar-se, cooperar, sentir, pensar, memorizar e lembrar;
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Comunicar, questionar, interagir – sendo parte de uma experiência social em que a flexibilidade, a tolerância e a autodisciplina são vitais;
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Conhecer, valorizar a si mesmo, entender as suas limitações e possibilidades;
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Ser ativo.
O brincar apresenta uma gama de possibilidades de aprendizagem para a criança. O papel do professor então é proporcionar situações lúdicas que atendam às necessidades de aprendizagem das crianças. Ele assume o papel de mediador neste processo de ensino e aprendizagem.
As atividades lúdicas, utilizadas como metodologia de trabalho no processo de ensino-aprendizagem, podem desenvolver diversas habilidades e atitudes no processo educacional da criança.
Uma proposta lúdicoeducativa torna-se um desafio à prática do professor, pois não basta apenas selecionar, preparar, planejar e aplicar os jogos, precisa também participar no decorrer da aplicação do jogo. É necessário jogar, brincar com as crianças, mas sempre observando, no desenrolar, as interações e trocas de saberes entre eles.
A atividade lúdica, portanto, não pode ser vista só para preencher um tempo de aula quando o professor não tem mais atividades e conteúdos para passar. Ou não é, também, simplesmente dizer que utilizam o jogo, o brinquedo e a brincadeiras só porque virou moda, o jogo pelo jogo. Ao desenvolver uma proposta lúdicoeducativa, o papel do professor será o de gerar situações estimuladoras e eficazes para a aprendizagem.
Conclui-se que uma proposta lúdicoeducativa torna-se um desafio à prática do professor, pois não basta apenas selecionar, preparar, planejar e aplicar os jogos, precisa também participar no decorrer da aplicação do jogo. É necessário jogar, brincar com as crianças, mas sempre observando, no desenrolar, as interações e trocas de saberes entre eles. Educar não é jogar lições para o educando sem nexo com sua realidade. Educar ludicamente é um ato consciente e planejado, é tornar o indivíduo consciente e feliz no mundo. É seduzir os seres humanos para o prazer de conhecer. Snyders (1993), afirma que a escola devia ser um local de alegria, prazer intelectual, satisfação e desenvolvimento.
REFERÊNCIAS
ALMEIDA, Paulo Nunes de. Dinâmica lúdica: jogos pedagógicos. São Paulo: Loyola, 1984.
___________________. Atividade Lúdica: técnicas e jogos pedagógicos. São Paulo, SP: Loyola, 2003.
BETTELHEIM, Bruno. Uma vida para seu filho: pais bons o bastante. Rio de janeiro: Campos, 1988.
FRIEDMANN, Adriana. Brincar: crescer e aprender – o resgate do jogo infantil. São Paulo, SP: Moderna, 1996.
FORTUNA, Tânia Ramos. Formando professores na universidade para brincar. In: SANTOS, Santa Marli Pires dos (org.). A ludicidade como ciência. Petrópolis, RJ: Vozes, 2001.
HEINKEL, Dagma. O brincar e a aprendizagem na infância. Ijuí, SP: Ed. Unijuí, 2003.
KISHIMOTO, Tizuko Morchida (org.). Jogo, brinquedo, brincadeira e a educação. São Paulo: Cortez, 1999.
SNYDERS, Georges. Alunos felizes: reflexão sobre a alegria na escola a partir de textos literários. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1993
SANTOS, Santa Marli Pires dos. Brinquedo e infância: um guia para pais e educadores. Rio de Janeiro: Vozes, 1999.
VYGOTSKY. A formação social da mente. São Paulo. Editora, Scritta. 1999.
WAJSKOP, Gisela. Brincar na pré-escola. São Paulo: Cortez, 1997.

