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Poda neural, uso Precoce de telas e impactos no neurodesenvolvimento infantil: interfaces com o transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e o transtorno do espectro autista (TEA)

Luzinete da Silva Mussi

 

DOI: 10.5281/zenodo.18261920

 

 

RESUMO

O desenvolvimento cerebral infantil é marcado por intensa neuroplasticidade, sendo a poda neural um processo fisiológico essencial para a organização e eficiência das redes neurais. Entretanto, a qualidade das experiências vividas na infância exerce papel determinante nesse refinamento cerebral. Diante do aumento expressivo do uso precoce de tecnologias digitais, especialmente dispositivos de telas curtas como celulares e tablets, torna-se necessário refletir sobre seus impactos no neurodesenvolvimento infantil. O presente artigo tem como objetivo discutir a relação entre poda neural, uso excessivo de telas e possíveis repercussões cognitivas, emocionais e comportamentais, estabelecendo interfaces com o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Trata-se de um estudo de natureza qualitativa, fundamentado em revisão bibliográfica de autores clássicos e contemporâneos da neurociência, psicologia do desenvolvimento e documentos oficiais da Organização Mundial da Saúde. Os resultados teóricos indicam que o uso excessivo e não mediado de telas pode contribuir para o empobrecimento das experiências sensório-motoras, sociais e afetivas, fundamentais para o fortalecimento de circuitos neurais relacionados à atenção, autorregulação e funções executivas. Conclui-se que a compreensão do neurodesenvolvimento infantil exige uma abordagem preventiva, ética e interdisciplinar, que valorize a mediação adulta, o uso consciente da tecnologia e a promoção de ambientes ricos em interações humanas, favorecendo a saúde mental e o desenvolvimento integral da criança.

 

Palavras-chave: Neurodesenvolvimento infantil. Poda neural. Uso de telas. TDAH. Transtorno do Espectro Autista.

 

 

  1. Introdução

 

O desenvolvimento humano é resultado de uma complexa interação entre fatores biológicos, ambientais, sociais e emocionais, sendo a infância um período especialmente sensível para a organização cerebral. Nos primeiros anos de vida, o cérebro apresenta elevada plasticidade, caracterizada pela intensa formação e remodelação das conexões neurais em resposta às experiências vividas. Nesse contexto, a poda neural configura-se como um processo fisiológico essencial, responsável pelo refinamento das redes neurais e pela eficiência do funcionamento cerebral.

Paralelamente a esse processo natural de maturação, observa-se, na contemporaneidade, um aumento significativo da exposição precoce de crianças a dispositivos tecnológicos, como celulares, tablets e televisores. O uso frequente de telas digitais, muitas vezes iniciado ainda na primeira infância, tem suscitado debates e preocupações no campo da saúde, da educação e do desenvolvimento infantil, sobretudo quando ocorre de forma excessiva e sem mediação adequada de adultos.

A Organização Mundial da Saúde estabelece recomendações claras quanto ao tempo de exposição às telas na infância, enfatizando a importância de priorizar experiências corporais, sociais e afetivas reais nesse período do desenvolvimento. Tais orientações baseiam-se em evidências científicas que apontam para os riscos do empobrecimento ambiental decorrente da substituição do brincar, da interação social e da comunicação verbal por estímulos digitais rápidos e fragmentados.

Nesse cenário, torna-se fundamental compreender de que maneira o uso excessivo de telas pode interferir nos processos de neuroplasticidade e poda neural, impactando o desenvolvimento de funções cognitivas e emocionais essenciais, como a atenção, a autorregulação e as funções executivas. Ademais, a crescente observação de comportamentos desatentos, impulsivos e dificuldades de regulação emocional em crianças pequenas tem levantado questionamentos sobre possíveis associações entre o ambiente digital e transtornos do neurodesenvolvimento.

O presente artigo propõe-se a discutir os impactos do uso precoce e excessivo de telas no neurodesenvolvimento infantil, estabelecendo um paralelo cuidadoso com o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Busca-se, assim, contribuir para uma compreensão mais ética, científica e humanizada desses fenômenos, evitando reducionismos e patologizações indevidas, e reforçando a importância de práticas preventivas e mediadas que promovam o desenvolvimento saudável e integral da criança.

 

 

  1. Fundamentação teórica

 

2.1 Neuroplasticidade e poda neural no desenvolvimento infantil

 

O desenvolvimento cerebral humano é marcado por intensa plasticidade nos primeiros anos de vida, período em que o cérebro apresenta elevada capacidade de reorganização estrutural e funcional em resposta às experiências ambientais. A neuroplasticidade refere-se à habilidade do sistema nervoso de modificar suas conexões sinápticas, circuitos neurais e padrões de ativação a partir da interação contínua entre fatores biológicos, emocionais, sociais e culturais.

Durante a infância, especialmente nos primeiros anos, ocorre um processo conhecido como sinaptogênese exuberante, caracterizado pela formação acelerada de conexões entre os neurônios. Posteriormente, essas conexões passam por um refinamento progressivo denominado poda neural, mecanismo fisiológico essencial para o amadurecimento cerebral. A poda neural consiste na eliminação seletiva de sinapses pouco utilizadas, enquanto aquelas frequentemente ativadas pelas experiências do ambiente são fortalecidas e consolidadas.

Esse processo não deve ser compreendido como uma perda prejudicial, mas como um ajuste adaptativo do sistema nervoso, que busca eficiência funcional. A qualidade das experiências vividas pela criança exerce papel determinante nesse refinamento neural, uma vez que estímulos ricos, variados e socialmente mediados favorecem a consolidação de circuitos relacionados à linguagem, à atenção, à autorregulação emocional, às funções executivas e às habilidades sociais.

Entretanto, ambientes empobrecidos do ponto de vista sensório-motor, afetivo e relacional podem interferir negativamente nesse processo. A ausência ou redução de interações significativas, do brincar ativo, do contato corporal e da comunicação verbal compromete a ativação de redes neurais fundamentais, favorecendo a eliminação de conexões essenciais durante a poda neural. Dessa forma, a plasticidade cerebral, embora represente uma janela de oportunidades, também torna o cérebro infantil particularmente vulnerável a contextos inadequados de estimulação.

Estudos em neurociência do desenvolvimento demonstram que a organização cerebral ocorre de maneira dependente da experiência, sendo o cérebro moldado não apenas por fatores genéticos, mas também pela qualidade e diversidade das vivências oferecidas à criança. Assim, o processo de poda neural reflete uma interação dinâmica entre maturação biológica e ambiente, reforçando a importância de contextos que promovam experiências corporais, simbólicas, sociais e emocionais adequadas ao desenvolvimento saudável.

Compreender a poda neural como um fenômeno natural e necessário, porém altamente sensível às condições ambientais, é fundamental para a análise crítica dos impactos contemporâneos sobre o neurodesenvolvimento infantil, especialmente diante do aumento expressivo do uso precoce de tecnologias digitais, tema que será aprofundado nas seções subsequentes.

 

 

2.2 Uso precoce de telas e recomendações da Organização Mundial da Saúde

 

O avanço das tecnologias digitais transformou de maneira significativa as formas de interação, comunicação e acesso à informação na sociedade contemporânea. No entanto, a inserção precoce e excessiva de dispositivos eletrônicos, como celulares, tablets e televisores, tem despertado crescente preocupação no campo da saúde e do desenvolvimento infantil, especialmente em função de seus possíveis impactos sobre a organização cerebral em fases críticas do neurodesenvolvimento.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estabelece diretrizes claras quanto ao tempo de exposição às telas na primeira infância. De acordo com suas recomendações, crianças menores de dois anos não devem ser expostas a telas, enquanto aquelas entre dois e cinco anos devem ter o uso limitado a, no máximo, uma hora diária, sempre com supervisão de um adulto e com conteúdos adequados à faixa etária. Essas orientações baseiam-se em evidências científicas que apontam para a necessidade de priorizar experiências corporais, sociais e afetivas reais nesse período do desenvolvimento.

O uso precoce de telas tende a substituir atividades fundamentais para o amadurecimento neurológico, como o brincar livre, a exploração do ambiente, a interação face a face e a comunicação verbal. Diferentemente das interações humanas, as experiências mediadas por telas apresentam caráter predominantemente passivo, fragmentado e de rápida estimulação sensorial, o que pode comprometer a ativação sustentada de circuitos neurais relacionados à atenção, à linguagem, à memória e às funções executivas.

Do ponto de vista neurobiológico, a exposição excessiva a estímulos rápidos e altamente recompensadores pode interferir nos sistemas de autorregulação cerebral, especialmente aqueles relacionados ao controle atencional e emocional. Em um cérebro em desenvolvimento, que depende da repetição de experiências significativas para fortalecer conexões sinápticas, a predominância de estímulos digitais pode favorecer a consolidação de circuitos voltados à busca imediata de recompensa, em detrimento de redes neurais associadas à persistência, ao autocontrole e à interação social.

Além disso, a redução do tempo dedicado às interações sociais reais impacta diretamente o desenvolvimento da linguagem e das habilidades socioemocionais. A comunicação humana envolve elementos complexos, como expressões faciais, entonação vocal, contato visual e reciprocidade afetiva, que não são plenamente reproduzidos pelas telas. A ausência desses estímulos compromete a ativação de redes neurais essenciais para a empatia, a compreensão emocional e a construção do vínculo social.

Nesse contexto, o uso inadequado de tecnologias digitais na infância pode ser compreendido como um fator ambiental que contribui para o empobrecimento das experiências necessárias ao refinamento neural. Embora as telas não sejam, isoladamente, responsáveis por alterações no neurodesenvolvimento, seu uso excessivo e não mediado pode interferir negativamente nos processos de plasticidade e poda neural, especialmente quando substituem interações fundamentais para o desenvolvimento saudável.

Assim, as recomendações da OMS reforçam a importância de uma abordagem preventiva, que valorize a mediação adulta, o uso consciente da tecnologia e a promoção de ambientes ricos em estímulos afetivos, motores e sociais. Essa perspectiva destaca o papel central da família, da escola e dos profissionais da saúde na orientação quanto ao uso adequado das telas, visando à proteção do desenvolvimento neurocognitivo infantil.

 

 

2.3 Impactos do uso excessivo de telas no neurodesenvolvimento infantil

 

A exposição excessiva e não mediada às telas na infância tem sido associada a alterações no desenvolvimento de funções cognitivas e emocionais fundamentais, especialmente aquelas relacionadas à atenção, à autorregulação e às funções executivas. Esses processos dependem da maturação progressiva do córtex pré-frontal, região cerebral altamente sensível às experiências vividas durante os primeiros anos de vida.

O uso prolongado de dispositivos digitais caracteriza-se, em geral, por estímulos rápidos, fragmentados e altamente recompensadores, que demandam baixo esforço cognitivo e oferecem gratificação imediata. Em um cérebro em desenvolvimento, esse padrão de estimulação pode dificultar a consolidação de circuitos neurais responsáveis pela atenção sustentada, pelo controle inibitório, pela organização do pensamento e pela tolerância à frustração. A criança passa a responder preferencialmente a estímulos intensos e imediatos, apresentando maior dificuldade em manter o foco em atividades que exigem esforço mental contínuo.

Do ponto de vista neurobiológico, o excesso de estímulos digitais pode impactar os sistemas de recompensa cerebral, modulados principalmente pela dopamina. A ativação frequente desses circuitos em contextos de gratificação rápida pode contribuir para padrões de busca constante por novidade e excitação, interferindo nos mecanismos de autorregulação emocional e comportamental. Tal dinâmica torna-se particularmente relevante quando considerada em associação ao processo de poda neural, uma vez que as conexões mais frequentemente ativadas tendem a ser fortalecidas, enquanto aquelas menos utilizadas podem ser eliminadas.

Além dos impactos cognitivos, o uso excessivo de telas pode comprometer o desenvolvimento socioemocional infantil. A redução das interações face a face limita experiências essenciais para a construção da empatia, da comunicação emocional e da compreensão das normas sociais. A criança aprende a regular emoções e comportamentos a partir da interação com o outro, por meio do olhar, do toque, da linguagem e da reciprocidade afetiva, elementos que não são plenamente substituídos pelas interações mediadas por dispositivos digitais.

Nesse contexto, observa-se que comportamentos como desatenção, impulsividade, irritabilidade e dificuldade de autorregulação podem emergir como respostas adaptativas a um ambiente excessivamente digitalizado, e não necessariamente como indicadores de transtornos do neurodesenvolvimento. Essa distinção é fundamental para evitar processos de patologização precoce, reforçando a necessidade de uma análise cuidadosa do contexto ambiental e das experiências oferecidas à criança.

Assim, o impacto do uso excessivo de telas no neurodesenvolvimento deve ser compreendido de maneira sistêmica, considerando-se a interação entre fatores biológicos, ambientais e relacionais. A promoção de experiências diversificadas, que envolvam movimento, brincadeira simbólica, interação social e mediação adulta, mostra-se essencial para o fortalecimento de circuitos neurais relacionados à atenção, à autorregulação e às funções executivas, favorecendo um desenvolvimento infantil mais equilibrado e saudável.

 

 

2.4 Transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH): dopamina, norepinefrina e conectividade neural

 

O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é classificado como um transtorno do neurodesenvolvimento, caracterizado por padrões persistentes de desatenção, hiperatividade e impulsividade, que interferem de forma significativa no funcionamento acadêmico, social e emocional do indivíduo. Diferentemente de comportamentos desatentos circunstanciais, o TDAH possui base neurobiológica bem estabelecida, envolvendo alterações na conectividade e no funcionamento de circuitos cerebrais específicos.

Do ponto de vista neurocientífico, o TDAH está associado a disfunções nos sistemas neurotransmissores da dopamina e da norepinefrina, substâncias fundamentais para a modulação da atenção, da motivação, do controle inibitório e da autorregulação comportamental. Esses neurotransmissores atuam de maneira integrada, especialmente nos circuitos que conectam o córtex pré-frontal às estruturas subcorticais, como os gânglios da base, regiões diretamente envolvidas no planejamento, na organização do comportamento e na tomada de decisões.

A dopamina desempenha papel central nos mecanismos de recompensa e motivação, enquanto a norepinefrina está relacionada à vigilância, à atenção sustentada e à resposta adaptativa ao ambiente. No TDAH, observa-se menor disponibilidade e eficiência funcional desses neurotransmissores, o que compromete a comunicação entre as regiões cerebrais responsáveis pelo controle executivo. Essa condição pode ser compreendida metaforicamente como uma "ponte enfraquecida", na qual a transmissão das informações ocorre de forma menos eficiente, resultando em dificuldades na manutenção do foco, no controle de impulsos e na regulação emocional.

Estudos de neuroimagem apontam para alterações funcionais e estruturais no córtex pré-frontal, bem como em circuitos frontoestriatais, em indivíduos com TDAH. Essas alterações não indicam ausência de conexões neurais, mas sim um padrão de conectividade menos eficiente, que afeta a sincronização e a comunicação entre diferentes áreas cerebrais. Tal configuração contribui para a manifestação dos sintomas característicos do transtorno, especialmente em contextos que exigem atenção prolongada, organização e autocontrole.

É fundamental distinguir o TDAH de comportamentos de desatenção associados a fatores ambientais, como o uso excessivo de telas e a redução de experiências mediadas socialmente. Embora tais fatores possam intensificar ou mimetizar sintomas semelhantes aos do TDAH, o transtorno em si possui etiologia multifatorial, envolvendo componentes genéticos, neurobiológicos e ambientais. Assim, a avaliação clínica deve considerar cuidadosamente a história do desenvolvimento, o contexto familiar e escolar, bem como a persistência e a intensidade dos sintomas ao longo do tempo.

Compreender o TDAH a partir de sua base neurobiológica contribui para intervenções mais eficazes e humanizadas, que não se restrinjam à medicalização, mas incluam estratégias pedagógicas, psicossociais e ambientais. Essa perspectiva amplia o olhar sobre o transtorno, reforçando a importância de ambientes estruturados, mediação adulta consistente e experiências que favoreçam o fortalecimento das funções executivas e da autorregulação no desenvolvimento infantil.

 

 

2.5 Transtorno do espectro autista (TEA): conectividade neural atípica no neurodesenvolvimento

 

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é classificado como um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por alterações qualitativas na comunicação social, na interação social e pela presença de padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades. Diferentemente de concepções ultrapassadas, o TEA não pode ser compreendido como resultado da ausência de conexões neurais, mas sim como um padrão atípico de organização e conectividade cerebral.

Estudos em neurociência têm demonstrado que indivíduos com TEA apresentam alterações na conectividade funcional e estrutural entre diferentes regiões do cérebro. Essas alterações envolvem tanto processos de hiperconectividade quanto de hipoconectividade, variando conforme a região cerebral, a idade e as características individuais dentro do espectro. Tal organização atípica impacta a integração das informações sensoriais, cognitivas e emocionais, influenciando diretamente o modo como o indivíduo percebe, processa e responde ao ambiente.

Durante o desenvolvimento cerebral típico, a poda neural atua de forma seletiva, promovendo o refinamento das conexões sinápticas a partir da experiência. No TEA, evidências sugerem que esse processo pode ocorrer de maneira diferente, com manutenção excessiva de sinapses em determinadas áreas e redução do refinamento em outras. Essa configuração pode resultar em circuitos locais excessivamente fortalecidos, ao mesmo tempo em que há menor integração entre regiões cerebrais distantes, especialmente aquelas envolvidas na cognição social e na comunicação.

Do ponto de vista funcional, essas alterações de conectividade estão associadas a dificuldades na leitura de sinais sociais, na reciprocidade afetiva, na comunicação pragmática e na flexibilidade cognitiva. Em contrapartida, muitos indivíduos com TEA apresentam habilidades preservadas ou intensificadas em áreas específicas, como memória, atenção a detalhes, processamento visual ou lógico, evidenciando que o cérebro autista não é deficitário, mas organizado de maneira distinta.

É fundamental diferenciar o TEA de outros transtornos do neurodesenvolvimento, como o TDAH. Enquanto no TDAH predominam dificuldades relacionadas à modulação da atenção e ao controle inibitório, associadas a uma conectividade funcional menos eficiente nos circuitos dopaminérgicos e noradrenérgicos, no TEA as alterações concentram-se na forma como as redes neurais se organizam e se comunicam, especialmente aquelas ligadas à interação social e à integração sensorial. Essa distinção é essencial para evitar diagnósticos equivocados e intervenções inadequadas.

A compreensão do TEA a partir do conceito de conectividade neural atípica contribui para uma abordagem mais ética e inclusiva, que reconhece a diversidade neurobiológica humana. Tal perspectiva reforça a importância de intervenções precoces e individualizadas, que respeitem as singularidades do desenvolvimento e promovam ambientes estruturados, previsíveis e afetivamente mediadores, favorecendo a participação social, a comunicação e a autonomia da criança no contexto familiar e educacional.

 

 

  1. Discussão

 

A análise integrada dos achados teóricos apresentados permite compreender o neurodesenvolvimento infantil como um processo dinâmico, profundamente influenciado pela interação entre fatores biológicos e ambientais. A poda neural, enquanto mecanismo fisiológico essencial para a eficiência cerebral, mostra-se altamente sensível à qualidade das experiências oferecidas à criança, especialmente nos primeiros anos de vida, período marcado por intensa plasticidade neural.

Nesse contexto, o uso precoce e excessivo de telas digitais emerge como um fator ambiental relevante, capaz de interferir na organização das redes neurais responsáveis pela atenção, pela autorregulação emocional e pelas funções executivas. Embora as tecnologias não sejam, por si só, causadoras de transtornos do neurodesenvolvimento, sua utilização inadequada pode contribuir para o empobrecimento das experiências sensório-motoras, sociais e afetivas, fundamentais para o fortalecimento de circuitos neurais complexos.

A discussão torna-se particularmente relevante quando se observa o aumento de comportamentos desatentos, impulsivos e dificuldades de autorregulação em crianças pequenas, muitas vezes associados de forma precipitada a diagnósticos de transtornos como o TDAH. Conforme discutido, é essencial distinguir manifestações comportamentais decorrentes de contextos ambientais inadequados de condições neurobiológicas estruturadas. A desatenção induzida por excesso de estímulos digitais não equivale, conceitualmente, ao TDAH, embora possa intensificar sintomas em indivíduos predispostos.

No que se refere ao Transtorno do Espectro Autista, a compreensão baseada na conectividade neural atípica contribui para o afastamento de concepções reducionistas e patologizantes. O TEA não se caracteriza pela ausência de conexões neurais, mas por uma organização cerebral distinta, que demanda abordagens interventivas individualizadas, precoces e sensíveis às singularidades do desenvolvimento. A exposição excessiva a telas, nesse contexto, pode agravar dificuldades na interação social e na comunicação, especialmente quando substitui experiências mediadas por relações humanas.

Dessa forma, a discussão evidencia a importância de uma abordagem preventiva e interdisciplinar, que envolva família, escola e profissionais da saúde na orientação quanto ao uso consciente das tecnologias digitais. A mediação adulta, o equilíbrio entre estímulos digitais e experiências reais, bem como a valorização do brincar, do movimento e da interação social, configuram-se como estratégias fundamentais para a promoção do desenvolvimento neurocognitivo saudável.

 

 

  1. Considerações finais

 

O presente artigo buscou discutir os impactos do uso precoce e excessivo de telas digitais no neurodesenvolvimento infantil, à luz dos processos de neuroplasticidade e poda neural, estabelecendo interfaces com o TDAH e o Transtorno do Espectro Autista. A partir da fundamentação teórica apresentada, foi possível compreender que o desenvolvimento cerebral ocorre de maneira dependente da experiência, sendo profundamente influenciado pela qualidade das interações oferecidas à criança nos primeiros anos de vida.

Conclui-se que a poda neural, embora seja um processo fisiológico e necessário, pode ser negativamente impactada por contextos ambientais empobrecidos, nos quais o uso excessivo de telas substitui experiências fundamentais para a construção de habilidades cognitivas, emocionais e sociais. Nesse sentido, os comportamentos de desatenção e dificuldade de autorregulação observados em muitas crianças não devem ser automaticamente associados a transtornos do neurodesenvolvimento, exigindo uma análise cuidadosa do contexto e da história de desenvolvimento.

No que diz respeito ao TDAH e ao TEA, o artigo reforça a importância de compreendê-los a partir de suas bases neurobiológicas específicas, evitando generalizações e diagnósticos equivocados. A distinção conceitual entre essas condições é fundamental para a adoção de intervenções adequadas, éticas e humanizadas, que respeitem a singularidade de cada criança.

Por fim, destaca-se o papel essencial da família, da escola e dos profissionais da saúde na promoção de ambientes ricos em estímulos afetivos, sociais e motores, bem como na orientação quanto ao uso consciente e mediado das tecnologias digitais. Investir em prevenção, informação e mediação qualificada constitui um caminho fundamental para a promoção da saúde mental e do desenvolvimento infantil saudável, contribuindo para uma infância mais equilibrada e integral.

 

 

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