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Currículos, metodologias e tecnologia: uma relação necessária

Antonio Carlos Ferrante

 

DOI: 10.5281/zenodo.18614839

 

 

RESUMO

Este trabalho tem por objetivo analisar a relação entre currículos, metodologias de ensino e o uso das tecnologias digitais no contexto educacional atual. Com o avanço das Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação (TDICs), as escolas são desafiadas a revisar suas práticas pedagógicas, integrando inovação e interdisciplinaridade aos currículos. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) reforça essa necessidade ao propor competências gerais que envolvem o uso crítico e criativo da tecnologia nas escolas. Assim, este estudo discute como a articulação entre currículo, metodologias de ensino e tecnologia pode promover aprendizagens significativas, formar cidadãos críticos e contribuir para uma educação inclusiva e de qualidade. A metodologia utilizada baseia- se em uma pesquisa bibliográfica, considerando autores como Moreira e Silva (2013), Sacristán (2000), Moran (2015), Kenski (2012), Silva (2019), Papert (1985) e outros estudiosos da área. Conclui-se que a integração entre currículo, metodologia e tecnologia é indispensável para responder às demandas da sociedade contemporânea e garantir uma formação integral dos estudantes, uma tríade que, quando bem articulada, potencializa o processo educativo e prepara os estudantes para os desafios de um mundo em constante mudança.

 

Palavras-chave: Currículo. Metodologia. Tecnologia. Inovação. Educação. Competências.

 

 

ABSTRACT

This work aims to analyze the relationship between curricula, teaching methodologies and the use of digital technologies in the current educational context. With the advancement of Digital Information and Communication Technologies (DICTs), schools are challenged to review their pedagogical practices, integrating innovation and interdisciplinarity into curricula. The National Common Curriculum Base (BNCC) reinforces this need by proposing general competencies that involve the critical and creative use of technology in schools. Thus, this study discusses how the articulation between curriculum, teaching methodologies and technology can promote meaningful learning, form critical citizens and contribute to an inclusive and quality education. The methodology used is based on a literature review, considering authors such as Moreira and Silva (2013), Sacristán (2000), Moran (2015), Kenski (2012), Silva (2019), Papert (1985) and other scholars in the area. It is concluded that the integration between curriculum, methodology and technology is indispensable to respond to the demands of contemporary society and ensure a comprehensive education of students, a triad that, when well articulated, enhances the educational process and prepares students for the challenges of a world in constant change.

 

Keywords: Curriculum. Methodology. Technology. Innovation. Education. Skills.

 

 

1 Introdução

 

A sociedade contemporânea tem sido marcada por rápidas transformações impulsionadas pelas tecnologias digitais, nesse cenário, as instituições escolares e os processos de ensino/aprendizagem são constantemente desafiados a se reinventar. O currículo, percebido como o conjunto de saberes, valores e práticas que orientam a ação pedagógica, deve acompanhar essas mudanças, incorporando metodologias e recursos tecnológicos que possibilitem aprendizagens mais significativas, colaborativas e contextualizadas.

Diante disso, este trabalho tem por objetivo analisar a relação entre currículo, metodologias ativas e tecnologia, evidenciando como essa integração é importante para a estruturação de uma educação mais inovadora, inclusiva com ênfase no desenvolvimento das competências. A metodologia utilizada foi uma revisão bibliográfica, tendo como aporte teórico os autores: Moreira e Silva (2013), Sacristán (2000), Moran (2015), Kenski (2012), Silva (2019), Papert (1985) entre outros e documentos como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

Esta pesquisa está dividida em dois tópicos no primeiro destaca-se a ligação entre currículo, educação e tecnologias digitais que ao longo dos anos tem suscitado debates relevantes no campo educacional. No segundo tópico aborda a integração entre currículo, metodologia e tecnologia destacando importância desse assunto para uma educação contemporânea, significativa e alinhada às demandas do século XXI.

 

 

2 - O Currículo como Campo de Disputas e Possibilidades

 

O currículo escolar não é um simples conjunto de conteúdos a serem ensinados, mas sim, um espaço de disputa simbólica e política, onde se define o que é considerado conhecimento válido. A relação entre currículo, tecnologias digitais e educação tem suscitado debates relevantes no campo educacional, a introdução de novas tecnologias no currículo escolar representa, para muitos docentes, um desafio que perpassa dimensões pedagógicas, estruturais, formativas e ideológicas. O enfrentamento dessas dificuldades exige uma compreensão crítica do currículo enquanto construção social, histórica e política, conforme nos alertam pensadores como Antonio Flávio Moreira, Tomaz Tadeu da Silva e José Gimeno Sacristán, Antonio Flávio Moreira e Tomaz Tadeu da Silva, compreendem o currículo como um campo de disputa simbólica e ideológica. Para os autores, o currículo não é neutro; ele expressa relações de poder, identidades e exclusões, como citado abaixo:

 

O currículo não é um elemento inocente e neutro de transmissão desinteressada do conhecimento social. O currículo está implicado em relações de poder, o currículo transmite visões sociais particulares e interessadas, o currículo produz identidades individuais e sociais particulares. O currículo não é um elemento transcendente e atemporal ele tem uma história, vinculada a formas específicas e contingentes de organização da sociedade e da educação. (Moreira; Silva, 2013, p.14).

 

Neste contexto, a introdução de tecnologias educacionais deve ser analisada à luz de quem as controla, quais conhecimentos são privilegiados e como essas ferramentas contribuem para reproduzir ou resistir às desigualdades sociais. Para Moreira e Silva (2013), o professor enfrenta não apenas o desafio de usar tecnologias, mas de compreendê-las criticamente em sua função curricular.

José Gimeno Sacristán enfatiza a função cultural e social do currículo, ele destaca que o currículo prescrito muitas vezes está distante do currículo real vivenciado nas práticas escolares.

 

Por isso, a importância da análise do currículo, tanto de seus conteúdos como de suas formas, é básica para entender a missão da instituição escolar em seus diferentes níveis e modalidades. As funções que o currículo cumpre como expressão do projeto de cultura e socialização são realizadas através de seus conteúdos, de seu formato e das práticas que cria em torno de si. (Sacristán, 2000, p. 16)

 

Muitos professores enfrentam dificuldades em usar as tecnologias no seu ambiente de trabalho, pois sabemos que esta dificuldade está relacionada à falta de uma formação adequada e à ausência de um projeto pedagógico consistente que integre esses recursos de forma significativa. De acordo com Sacristán (2000), o currículo expressa a cultura que a escola escolhe ensinar, sendo um campo de escolhas intencionais que refletem valores sociais, econômicos e culturais. Sacristán (2000) alerta para o risco da tecnocracia educacional, em que o uso da tecnologia se sobrepõe ao sentido pedagógico da ação docente.

Nesse contexto, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), ao reconhecer a cultura digital como uma das competências gerais da educação básica, reforça a importância de integrar as tecnologias ao currículo escolar. Especificamente, a competência geral 5 da BNCC destaca a importância de compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de forma crítica e ética.

 

Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares) para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva. (Brasil, 2018, p. 09)

 

Essa integração, no entanto, deve ir além do uso instrumental das ferramentas, sendo pautada pela construção de competências e habilidades que envolvam a criticidade, a autoria e a ética no uso das tecnologias. Isso implica, em reformular os currículos de forma colaborativa, ouvindo professores, alunos, famílias e comunidade, integrando de forma real e não apenas teórica as competências socioemocionais e digitais garantindo o letramento digital dos estudantes e a formação continuada dos professores.

 

  1. 1 A Integração Currículo–Metodologia–Tecnologia: uma necessidade

 

A integração entre currículo, metodologia e tecnologia representa, um caminho essencial para a construção de uma educação mais significativa, dinâmica e alinhada as demandas da sociedade atual. Essa tríade, quando articulada de maneira coerente, favorece a construção de experiências de aprendizagem mais significativas, contextualizadas e alinhadas às demandas atuais. Nesse contexto, a integração não se apresenta como uma escolha opcional, mas como uma necessidade pedagógica e institucional para a promoção de uma educação de qualidade, equitativa e inovadora.

O currículo é a espinha dorsal da prática educativa, pois define os conhecimentos, habilidades, atitudes e valores que os estudantes devem desenvolver ao longo de sua trajetória escolar. Contudo, um currículo meramente prescritivo e desvinculado das realidades socioculturais e tecnológicas corre o risco de tornar-se obsoleto. Como afirmam Sacristán (2000), Moreira e Silva (2013), o currículo deve ir além de um conjunto de conteúdos, tornando-se um guia flexível e contextualizado, capaz de dialogar com vivencias dos estudantes e com os desafios do mundo contemporâneo e não apenas como um documento normativo criado para seguir parâmetros burocráticos de sistemas de ensinos desatualizados, mas como uma prática cultural, dinâmica e construída coletivamente. Dessa forma, a articulação com metodologias ativas e recursos tecnológicos contribui para torná-lo mais vivo, dialogando com as necessidades e interesses dos estudantes.

Da mesma forma acredita-se que a escolha das metodologias precisa dialogar diretamente com esse currículo vivo e dinâmico. Metodologias que colocam o estudante no centro do processo, que despertam a investigação e a colaboração, tornam a aprendizagem muito mais efetiva e prazerosa. É nesse contexto que se percebe o papel fundamental da tecnologia, não como recurso isolado, mas como uma ponte que conecta saberes, amplia horizontes e transforma as práticas pedagógicas. Metodologias centradas no estudante, e que valorizam a participação ativa, a colaboração e o pensamento crítico. Segundo Moran (2015), essas abordagens são fundamentais para responder aos desafios educacionais atuais, especialmente quando integradas a tecnologias digitais que ampliam as possibilidades de interação, acesso à informação e personalização da aprendizagem. Assim, a metodologia não pode ser pensada de forma isolada, mas em consonância com o currículo proposto e os recursos tecnológicos disponíveis.

A tecnologia, nesse contexto, não deve ser compreendida como um fim, mas como um meio que potencializa essas práticas. Quando utilizada de forma intencional e pedagógica, ela amplia as possibilidades de ensino e aprendizagem, tornando as aulas mais interativas, colaborativas e acessíveis e não apenas como um conjunto de ferramentas digitais, mas como um elemento transformador da prática pedagógica, quando utilizada de forma crítica e criativa, a tecnologia potencializa a construção do conhecimento, promove a inclusão e amplia os horizontes de aprendizagem. Papert (1985), precursor da teoria do construcionismo, já destacava o papel das tecnologias como mediadoras de experiências significativas de aprendizagem, defendendo o uso de computadores como instrumentos de autoria, criação e descoberta. Da mesma forma, autores como Kenski (2012) e Pretto (2013) ressaltam que a tecnologia precisa estar integrada ao projeto pedagógico da escola e articulada com as finalidades educativas.

A integração entre currículo, metodologia e tecnologia demanda, portanto, uma reconfiguração do papel do professor, que passa de mero transmissor de conteúdos a mediador, orientador e curador de experiências de aprendizagem. Esse novo perfil exige competências pedagógicas, tecnológicas e socioemocionais que permitam ao docente planejar, executar e avaliar práticas inovadoras, inclusivas e contextualizadas. A formação continuada, tanto inicial quanto em serviço, é essencial para que os profissionais da educação estejam preparados para atuar nesse novo cenário, como apontam Tardif (2002) e Nóvoa (1995).

Além disso, é fundamental que essa integração esteja alinhada aos princípios da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que propõe o desenvolvimento de competências gerais voltadas à formação integral dos estudantes. A BNCC enfatiza o uso de diferentes linguagens, a valorização da cultura digital, o protagonismo estudantil e a aprendizagem significativa. Dessa forma, a articulação entre currículo, metodologia e tecnologia favorece a concretização das diretrizes da BNCC, promovendo uma educação mais equitativa e conectada.

Entretanto, essa integração não está isenta de desafios, entre os principais obstáculos, destacam-se a resistência à mudança, a precariedade da infraestrutura tecnológica nas escolas públicas, a falta de formação docente adequada e a fragmentação entre os componentes curriculares. Superar tais barreiras exige políticas públicas comprometidas com a valorização da educação, investimentos em tecnologia e conectividade, além da promoção de uma cultura escolar aberta à inovação e à colaboração.

A integração entre currículo, metodologia e tecnologia é essencial para que a escola cumpra seu papel social de formar cidadãos críticos, criativos e capazes de atuar em um mundo complexo e em constante mudança. Como afirma Silva (2019), essa integração deve ser pensada de forma sistêmica e articulada, promovendo um currículo vivo, conectado à realidade dos estudantes e às demandas da contemporaneidade. Além disso, essa articulação favorece a inclusão, uma vez que as tecnologias podem mediar processos pedagógicos acessíveis a estudantes com necessidades específicas, ampliando as possibilidades de aprendizagem para todos.

 

 

3 Considerações Finais

 

A relação entre currículos, metodologias e tecnologia é uma necessidade urgente diante das transformações sociais e educacionais atuais. Para que a escola seja um espaço de inovação, inclusão e qualidade, é imprescindível que o currículo esteja em constante diálogo com as metodologias ativas e com os recursos tecnológicos disponíveis. A integração entre esses elementos deve ser orientada por uma concepção crítica de educação, que valorize a autonomia dos sujeitos, a diversidade cultural e o desenvolvimento integral. A formação docente, o investimento em infraestrutura e a construção de políticas públicas que promovam a equidade digital são fundamentais para que essa integração se efetive na prática.

Concluo que integrar currículo, metodologia e tecnologia não é apenas uma tendência, mas uma necessidade urgente na educação contemporânea. Acredito que essa integração promove uma aprendizagem mais significativa, conectada com a realidade dos alunos e capaz de desenvolver competências essenciais para a vida. Como educador, percebo que esse caminho exige de nós abertura para o novo, disposição para repensar nossas práticas e, principalmente, o compromisso de colocar o aluno no centro do processo. A tecnologia, quando alinhada a um currículo flexível e a metodologias inovadoras, se torna uma grande aliada na construção de uma educação mais inclusiva, dinâmica e transformadora.

 

 

Referências

 

BRASIL. Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Brasília: MEC, 2018.

 

KENSKI, Vani Moreira. Tecnologia e competência: o novo desafio da educação. Campinas: Papirus, 2012.

 

MORAN, José Manuel. Metodologias ativas para uma educação inovadora. In: BACICH, L.; MORAN, J. M. (org.). Metodologias ativas para uma educação inovadora: uma abordagem teórico-prática. Porto Alegre: Penso, 2015.

 

MOREIRA, Antonio Flavio; SILVA, Tomaz Tadeu da. Currículo, cultura e sociedade. 12. ed. São Paulo: Cortez, 2013.

 

NÓVOA, António. Profissão professor. 2. ed. Porto: Editora, 1995.

 

PAPERT, Seymour. LOGO: computadores e educação. São Paulo: Brasiliense, 1985.

 

PRETTO, Nelson de Luca. Uma escola sem/com futuro: educação e multimídia. 8. ed. rev. e atual. Salvador: Editora da Universidade Federal da Bahia, 2013.

 

SACRISTÁN, José Gimeno. O currículo: uma reflexão sobre a prática. Porto Alegre: Artmed, 2000.

 

SILVA, Marco. Educação e tecnologias: o novo ritmo da informação. São Paulo: Cortez, 2019.

 

TARDIF, Maurice. Saberes docentes e formação profissional. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.